A iniciativa em Fredericton reúne moradia, apoio social e trabalho em um modelo que ganhou atenção no Canadá ao transformar pequenas casas em parte de uma resposta local à crise habitacional.
O empresário canadense Marcel LeBrun usou parte dos recursos obtidos no setor de tecnologia para criar a 12 Neighbours, uma comunidade de pequenas casas voltada a pessoas em situação de vulnerabilidade em Fredericton, na província de New Brunswick, no Canadá.
O projeto foi apresentado inicialmente com a proposta de construir 99 unidades, mas informações atualizadas da organização e de veículos canadenses apontam que a comunidade permanente foi concluída com 96 casas.
LeBrun é cofundador da Radian6, empresa canadense de monitoramento de redes sociais vendida à Salesforce em 2011.
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Na época, a Salesforce informou que o acordo envolvia cerca de US$ 276 milhões em dinheiro e US$ 50 milhões em ações, além de valores adicionais previstos sob determinadas condições.
Após a venda, o empresário passou a atuar em iniciativas ligadas a moradia, capacitação e redução da pobreza em New Brunswick.
Projeto de moradia nasceu após venda de empresa de tecnologia
A 12 Neighbours foi criada em Fredericton com a proposta de oferecer moradia estável a pessoas sem casa e incluir, no mesmo espaço, serviços de acompanhamento e oportunidades de trabalho.
A iniciativa funciona como organização sem fins lucrativos e recebeu recursos privados ligados à família de LeBrun, além de apoio de programas públicos de habitação.

Segundo a Canada Mortgage and Housing Corporation, agência nacional de habitação do Canadá, a Fundação da Família LeBrun forneceu US$ 2 milhões em capital inicial para o desenvolvimento da comunidade.
O projeto também recebeu aporte público, incluindo recursos federais e subsídios de aluguel destinados às primeiras unidades.
A comunidade fica na região de Two Nations Crossing, em Fredericton, e foi organizada em blocos residenciais.
Cada casa tem cozinha, banheiro completo, área de estar, espaço de armazenamento e área externa privativa.
De acordo com a Global News, as unidades têm cerca de 23 metros quadrados e foram planejadas para aluguel acessível, sem cobrança superior a 30% da renda familiar dos moradores.
A construção começou com a instalação das primeiras moradias e avançou ao longo de dois anos.
Em abril de 2024, a Global News informou que a última unidade da comunidade permanente havia sido colocada no terreno, totalizando 96 casas.
A conclusão atualiza a informação inicial de que o projeto ainda estava em andamento e a três quartos da meta.
“We’ve been building a new home every week for two years… so it’s an exciting milestone for us”, disse LeBrun à Global News em abril de 2024.
Em outra declaração ao mesmo veículo, ele afirmou que “The houses, they say, is just an excuse for building community”.
Casas pequenas combinam moradia permanente e apoio social
As casas da 12 Neighbours foram apresentadas como moradias permanentes, não como abrigo temporário.
A proposta declarada pela organização é oferecer um endereço estável e, a partir disso, conectar os moradores a serviços de acompanhamento, capacitação e recuperação.
No site oficial, a 12 Neighbours afirma trabalhar em três frentes: habitação, desenvolvimento pessoal e emprego com propósito.
A entidade informa que oferece aconselhamento, educação, apoio em saúde e recuperação, além de oportunidades de treinamento para moradores e participantes de seus programas.
O relatório de impacto de 2025 da organização afirma que 28 novas pessoas foram recebidas na comunidade de Fredericton naquele ano.
O documento também informa que 80% dos residentes alcançaram estabilidade habitacional, conforme os critérios adotados pela própria entidade, e que a equipe prestou mais de 885 horas de aconselhamento, coaching e apoio ao bem-estar.

A organização também passou a atuar em moradias transitórias.
Segundo o relatório de 2025, duas novas áreas em Saint John foram abertas para oferecer habitação temporária apoiada a 56 pessoas.
O mesmo documento informa que uma primeira área em Fredericton foi prevista para abrir em janeiro de 2026 com capacidade para 28 pessoas que viviam sem abrigo na cidade.
Esse modelo de expansão aparece nos materiais da organização sob o nome Neighbourly Homes.
A proposta é montar áreas com unidades privadas, acesso controlado, serviços compartilhados e acompanhamento no local.
A prefeitura de Saint John informou, em maio de 2025, que firmou parceria com a 12 Neighbours para desenvolver e operar comunidades desse tipo em áreas designadas pela cidade.
Trabalho dentro da comunidade amplia proposta da 12 Neighbours
Além das casas, a 12 Neighbours incorporou negócios sociais ao projeto.
A comunidade inclui atividades ligadas a cafeteria, cozinha, loja, construção e impressão de camisetas e outros produtos.
A organização informa que esses espaços são usados para treinamento, geração de renda e retomada de experiência profissional.
A área de impressão, apresentada como Neighbourly Print, oferece serviços de serigrafia e personalização de roupas e produtos.
De acordo com a própria organização, os pedidos feitos à operação apoiam empregos para pessoas que participam dos programas da 12 Neighbours.
A cafeteria e os demais negócios sociais seguem a mesma linha de funcionamento descrita pela entidade.
Em entrevista à Global News, LeBrun resumiu a lógica do projeto ao afirmar: “We’re not hiring people to build homes, we’re building homes to hire people”.
A Canada Mortgage and Housing Corporation registrou, em 2023, a trajetória de Al Smith, morador e funcionário da comunidade.
Antes de chegar ao projeto, ele e a companheira, Chanda Woodworth, viviam em uma barraca nos arredores de Fredericton.
Depois de se mudarem para a 12 Neighbours, Smith passou a trabalhar no laboratório de impressão da comunidade.
“He made it so that I wasn’t invisible anymore”, disse Smith à agência federal canadense, ao falar sobre LeBrun e a mudança ocorrida após sua entrada no projeto.
A declaração foi publicada em material da Canada Mortgage and Housing Corporation sobre a comunidade.
Falta de moradia pressiona cidades de New Brunswick
A criação da 12 Neighbours ocorreu em um período de aumento da pressão sobre moradia acessível em New Brunswick.
Reportagens e levantamentos locais registraram crescimento da população sem moradia nas principais cidades da província ao longo dos últimos anos.
Em 2024, a Global News publicou, com base em dados do Human Development Council, que a população em situação de rua nas três maiores cidades de New Brunswick havia mais que dobrado em dois anos.
O dado ajuda a contextualizar o ambiente em que a iniciativa de Fredericton ganhou repercussão no Canadá.
Embora o projeto tenha sido apresentado por seus responsáveis como uma resposta prática à falta de moradia, o modelo de pequenas casas não encerra a discussão sobre políticas habitacionais.
Pesquisadores, entidades sociais e gestores públicos costumam tratar o tema como parte de uma agenda mais ampla, que envolve aluguel acessível, saúde mental, renda, assistência social, redução de danos e oferta de moradia permanente em escala.
No caso da 12 Neighbours, a diferença em relação a abrigos convencionais está na combinação entre unidade individual, acompanhamento e atividades de trabalho no próprio local.
Essa formulação é defendida pela organização como um caminho para reduzir barreiras enfrentadas por pessoas que saem de situações de rua ou de moradia instável.
A estrutura também passou a ser observada por outras cidades da província.
Em Saint John, a prefeitura informou que as áreas chamadas de Green Zones foram definidas para oferecer moradia transitória legalmente autorizada, com serviços essenciais destinados exclusivamente aos residentes.
A operação dessas comunidades ficou sob responsabilidade da 12 Neighbours, conforme comunicado municipal.
Segurança e convivência aparecem no debate sobre o modelo
O texto original menciona que a comunidade é fechada por portões e conta com controle de acesso.
A estrutura foi apresentada por moradores como uma forma de estabelecer limites ao trânsito de visitantes, especialmente durante a madrugada.
A moradora Samantha Seymour afirmou que havia carros entrando no local durante a noite e que os portões ajudaram a definir limites.
A existência de controle de acesso também aparece em materiais sobre as unidades transitórias, que destacam portas com fechadura, espaços privados e acompanhamento no local.
Esses elementos são descritos pela organização como parte da tentativa de oferecer segurança e previsibilidade a pessoas que passaram por instabilidade habitacional.
Há, porém, debate sobre a concentração de pessoas em situação de vulnerabilidade em uma mesma comunidade.
O texto original menciona críticas ao modelo, com o argumento de que seria preferível reintegrar os moradores diretamente a bairros já consolidados.
Como essa crítica não foi atribuída nominalmente a uma fonte específica no material de origem, a formulação foi mantida de forma cautelosa e sem identificação de autores.
A 12 Neighbours segue apresentando a moradia como ponto de partida para outras etapas de reinserção social e econômica.
Nos materiais oficiais, a entidade afirma que seus programas conectam habitação, apoio pessoal, recuperação e emprego progressivo.
A experiência de Fredericton, portanto, passou a ser usada pela própria organização como base para novos projetos em New Brunswick.

