Uma das maiores fabricantes de calçados do mundo trocou a estratégia de volume pela de valor, e a explosão da sua marca mais icônica mostra que o plano está dando certo
A Grendene, gigante brasileira dona de marcas como Melissa e Ipanema, viveu em 2025 um ano que parece contraditório, mas conta uma história clara. A empresa vendeu menos pares de sapato, e ainda assim segurou o faturamento, porque apostou em vender produtos mais caros e desejados, com a Melissa puxando a fila.
A empresa tem capacidade para produzir 250 milhões de pares por ano, mas escolheu mudar de rota: em vez de inundar o mercado com calçado barato, passou a focar em valor e marca. O resultado é a Melissa, sua joia, crescendo perto de 37% enquanto o volume total recuava, num claro recado de qual caminho a empresa decidiu seguir.
A Grendene e os 123,9 milhões de pares de 2025
O número de produção mostra o tamanho da operação e a queda no volume. Segundo o Diário do Nordeste, a empresa vendeu 123,9 milhões de pares em 2025, uma queda de 11,1% em relação ao ano anterior, bem abaixo da capacidade instalada de 250 milhões.
-
O Brasil importa 95% do seu potássio e uma mina de US$ 2,5 bilhões na Amazônia quer mudar isso
-
A maior fábrica de celulose em linha única do mundo é brasileira e custou R$ 22 bilhões
-
O Pix movimentou R$ 35 trilhões em 2025 e virou o principal meio de pagamento do Brasil
-
O Nubank chegou a 131 milhões de clientes e teve lucro recorde de US$ 2,87 bilhões em 2025
À primeira vista, vender menos parece má notícia. Mas a estratégia era justamente essa, abrir mão de parte do volume de baixo valor para ganhar em rentabilidade. Trocar quantidade por qualidade é uma aposta arriscada, porque o faturamento depende de o preço subir mais do que o volume cai, e foi exatamente o equilíbrio que a Grendene perseguiu.
A Melissa que disparou 36,7%

A grande vitória do ano tem nome próprio. Conforme o jornal O Povo, a marca Melissa registrou um crescimento de 36,7% na receita bruta em 2025, impulsionada pela alta do preço médio e por um posicionamento cada vez mais global e premium.
A Melissa deixou de ser só uma sandália de plástico e virou item de moda, vendido a preço de grife e cobiçado mundo afora. Esse sucesso é o modelo que a empresa quer replicar. Quando uma única marca cresce quase 37% num ano de queda geral, ela vira o mapa do tesouro da companhia, e a Grendene sabe disso muito bem.
Menos pares, mas preço médio em alta
O segredo da conta está no valor de cada par. Ainda segundo o Diário do Nordeste, mesmo com a queda no volume, a companhia elevou o preço médio em 18,3% no acumulado de 2025, o que ajudou a sustentar a receita apesar de vender menos sapatos.
Esse movimento é o coração da virada de estratégia. Em vez de competir na briga de preço baixo, onde a margem é mínima, a empresa subiu de patamar. Vender o par mais caro é o que permite faturar bem mesmo produzindo menos, e essa lógica de valor sobre volume é a mesma que sustenta marcas de luxo no mundo todo.
A aposta: repetir a Melissa em Ipanema e Rider
Convencida pelo sucesso, a empresa quer clonar a fórmula. De acordo com o O Povo, o diretor financeiro Alceu Albuquerque afirmou que a companhia estuda reforçar os investimentos em marketing, especialmente para as marcas Ipanema e Rider, buscando repetir com elas o que deu certo com a Melissa.
A ideia é transformar mais marcas em objetos de desejo, e não apenas em calçados funcionais. Se conseguir, a Grendene multiplica o efeito Melissa por todo o portfólio. Pegar a receita que deu certo em uma marca e aplicá-la nas outras é a jogada mais lógica de quem descobriu uma mina de ouro, e é exatamente o plano traçado para os próximos anos.
As exportações que cresceram 40%

O mercado externo foi outro destaque positivo. Segundo o O Povo, as exportações da Grendene somaram R$ 817 milhões em 2025, um salto de 40,4%, com a América Latina respondendo por mais de 60% do total e o volume exportado chegando a 26,3 milhões de pares.
Crescer 40% nas vendas para fora num ano de queda interna mostra a força da marca lá fora. O calçado brasileiro, leve e colorido, tem apelo em climas quentes do mundo todo. Quando o mercado interno desacelera, a exportação vira o respiro que mantém a fábrica girando, e foi esse fôlego externo que ajudou a empresa a fechar o ano de pé.
O coração da produção em Sobral
A força industrial da empresa está no Nordeste. Conforme o Diário do Nordeste, a sede da Grendene fica em Sobral, no Ceará, e a cidade concentra cerca de 80% da capacidade de produção da companhia, que emprega aproximadamente 16 mil pessoas.
Ter uma indústria desse porte no interior do Ceará é um caso raro e valioso de desenvolvimento regional. A fábrica é o motor econômico de toda uma região. Uma gigante de calçados fincada no sertão gera milhares de empregos onde a oferta costuma ser escassa, e isso faz da Grendene muito mais que uma empresa para a economia cearense.
Um portfólio de oito marcas para todo bolso
A empresa não vive só da Melissa. O grupo reúne marcas como Grendha, Zaxy, Rider, Cartago, Ipanema, Pega Forte e Grendene Kids, cobrindo desde a sandália popular até o calçado esportivo e o infantil, em diferentes faixas de preço.
Essa variedade permite atender públicos distintos e diluir o risco entre vários produtos. Se uma marca esfria, outra esquenta. Ter um portfólio amplo é o que dá à empresa fôlego para errar em uma aposta e acertar em outra, e é essa carteira de marcas que agora será trabalhada para gerar novas Melissas.
Por que a virada de estratégia importa
O ano de 2025 pode ser lembrado como o momento em que a Grendene escolheu deixar de ser só a fábrica do sapato barato para virar uma casa de marcas de valor. A queda no volume assusta no curto prazo, mas a alta de preço e o boom da Melissa sugerem que a direção faz sentido.
A pergunta que fica é se a empresa vai conseguir transformar Ipanema e as demais em sucessos do tamanho da Melissa, ou se vai depender para sempre de uma única estrela. Você imaginava que a sandália de plástico que muita gente teve na infância virou item de moda vendido a preço de grife pelo mundo?
