Mercado de bateria avança no Brasil e pode movimentar mais de R$ 70 bilhões, reduzindo desperdícios e fortalecendo as energias renováveis no sistema elétrico.
O avanço das energias renováveis no Brasil trouxe um desafio que cresce na mesma velocidade da geração limpa. Embora o país figure entre os líderes globais em capacidade instalada, parte relevante dessa eletricidade não chega ao consumo final. A falta de sistemas de bateria e de integração da rede elétrica tem provocado desperdícios e cortes de geração, especialmente nas regiões com maior presença de fontes intermitentes.
De acordo com estimativas do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), cerca de 17% da energia renovável produzida no país é desperdiçada atualmente. Esse cenário expõe um gargalo estrutural e, ao mesmo tempo, abre espaço para um novo mercado em rápida expansão.
Brasil avança em geração, mas perde energia no caminho
Dados da Agência Internacional de Energia Renovável (Irena) mostram que o Brasil possui 213 gigawatts de capacidade instalada em fontes renováveis. O país ocupa a terceira posição no ranking global, atrás apenas da China e dos Estados Unidos. No entanto, o volume expressivo de geração contrasta com a ausência de infraestrutura adequada para armazenar a eletricidade produzida nos períodos de maior oferta.
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A situação é mais evidente no Nordeste. A região concentra 70,6% de sua matriz elétrica em fontes solar e eólica, o que a torna mais vulnerável aos cortes de geração em momentos de excesso de produção. Sem sistemas de bateria, a energia gerada em horários de sol intenso ou ventos fortes simplesmente deixa de ser aproveitada.
Mercado de bateria pode movimentar R$ 70 bilhões até 2034
Para a Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae), esse desperdício tende a diminuir com a expansão do uso de baterias no sistema elétrico nacional. A entidade estima que o mercado de armazenamento pode movimentar cerca de R$ 70 bilhões nos próximos nove anos, impulsionado pela necessidade de equilibrar oferta e demanda de energias renováveis.
“O armazenamento tende a ser aplicado em todo o país, mas o Nordeste tem destaque, com seus grandes parques eólicos e fotovoltaicos”, afirma Fábio Lima, diretor executivo da Absae. Segundo ele, o avanço das baterias também já começa a aparecer em sistemas isolados da Amazônia e em comunidades ribeirinhas, combinando geração solar e armazenamento local.
Como a bateria muda a lógica das energias renováveis
Os sistemas de bateria permitem armazenar a eletricidade produzida nos momentos de maior geração e utilizá-la quando o sol ou o vento não estão disponíveis. Essa flexibilidade altera a lógica do sistema elétrico, reduzindo a dependência de usinas termoelétricas nos horários de pico.
“O armazenamento de energia em baterias permite aproveitar energia elétrica renovável e abundante, principalmente de fontes eólica e solar fotovoltaica, evitando seu desperdício”, destaca o diretor da Absae. Além disso, o uso estratégico dessas tecnologias contribui para reduzir custos operacionais e aumentar a segurança do fornecimento.
Aplicações vão além do setor elétrico tradicional
Embora o debate costume se concentrar nas grandes usinas, o mercado de bateria também desperta interesse de outros segmentos. O agronegócio surge como um dos principais beneficiados, especialmente em regiões com fornecimento instável ou distante dos grandes centros de consumo.
Indústrias intensivas em energia, centros comerciais, hospitais e instalações críticas também avaliam a adoção de sistemas próprios de armazenamento. Nessas estruturas, a bateria funciona como uma proteção contra oscilações da rede e como uma ferramenta para reduzir custos com demanda nos horários mais caros.
Leilão de baterias marca nova etapa regulatória
O governo federal começou a desenhar um ambiente regulatório específico para o setor. Durante a COP 30, realizada em Belém do Pará, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, anunciou a realização do primeiro leilão de reserva de capacidade em sistemas de armazenamento por baterias, previsto para abril.
Segundo a portaria que define as regras do certame, os sistemas deverão realizar recarga completa em até seis horas e disponibilizar potência máxima por quatro horas diárias, com capacidade superior a 30 megawatts. A operação está prevista para começar em agosto de 2028, com contratos de dez anos e expectativa de contratação de até 2 gigawatts.
Interesse de grandes empresas reforça potencial do setor
O leilão despertou o interesse de empresas nacionais e multinacionais do setor energético. Companhias tradicionais, além de novos players especializados em tecnologia de bateria, avaliam entrar na disputa. A própria Petrobras já sinalizou atenção ao segmento, indicando que o armazenamento pode se tornar parte estratégica do portfólio energético brasileiro.
Com 91,2% da eletricidade nacional proveniente de fontes renováveis, segundo a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), o Brasil reúne condições técnicas para avançar rapidamente. A consolidação do mercado de bateria aparece, assim, como um passo decisivo para reduzir perdas, dar estabilidade às energias renováveis e fortalecer a posição do país na transição energética global.
