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Noruega prepara usina submarina inédita que usa a pressão do oceano a 500 metros de profundidade para transformar água do mar em potável com até 50% menos energia

Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 30/05/2026 às 13:50
Atualizado em 30/05/2026 às 13:55
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A Noruega está prestes a colocar no fundo do mar uma tecnologia que pode mudar o futuro da água potável no planeta. Em vez de construir uma enorme planta de dessalinização na costa, a empresa norueguesa Flocean quer levar o processo para 500 metros de profundidade, usando a própria pressão natural do oceano para reduzir drasticamente o gasto de energia.

O projeto, chamado Flocean One, está sendo preparado em Mongstad, na costa oeste da Noruega, e é apresentado pela empresa como a primeira usina comercial de dessalinização submarina do mundo. Segundo as informações divulgadas pela Flocean, a estrutura poderá produzir 1 milhão de litros de água doce por dia.

A promessa impressiona: ao aproveitar a força natural da água em grandes profundidades, o sistema pode cortar o consumo energético em até 50% quando comparado a modelos tradicionais de dessalinização em terra. Em um mundo cada vez mais ameaçado por secas, crescimento populacional e escassez hídrica, a aposta norueguesa surge como uma solução ousada e quase cinematográfica.

A ideia parece ficção científica, mas já está saindo do papel

Projeto da Flocean mostra módulos submarinos de dessalinização instalados no fundo do mar, conectados à costa para produzir água potável em escala e reduzir a dependência de grandes usinas em terra.
Projeto da Flocean mostra módulos submarinos de dessalinização instalados no fundo do mar, conectados à costa para produzir água potável em escala e reduzir a dependência de grandes usinas em terra.

A lógica por trás da tecnologia é simples, mas poderosa. Nas usinas convencionais, enormes bombas precisam empurrar a água do mar contra membranas de osmose reversa, separando o sal da água potável. Esse processo consome muita energia e exige grande infraestrutura em terra.

No modelo da Flocean, a operação muda completamente de lugar. A planta é instalada no fundo do mar, onde a pressão hidrostática natural ajuda a empurrar a água através das membranas. Assim, parte do trabalho que antes dependia de bombas potentes passa a ser feito pelo próprio oceano.

É justamente esse detalhe que torna o projeto tão chamativo. A Noruega não está apenas construindo mais uma usina de dessalinização; está tentando transformar o fundo do mar em uma espécie de fábrica invisível de água potável.

Uma cápsula de 22 toneladas no fundo do oceano

Usina submarina da Flocean promete transformar água do mar em água potável usando a pressão natural do oceano, reduzindo o consumo de energia e levando a dessalinização para 500 metros de profundidade.
Usina submarina da Flocean promete transformar água do mar em água potável usando a pressão natural do oceano, reduzindo o consumo de energia e levando a dessalinização para 500 metros de profundidade.

O primeiro sistema, o Flocean One, foi descrito como uma estrutura de cerca de 22 toneladas, preparada para operar em uma região de águas profundas próxima a Mongstad. O local não foi escolhido por acaso: a área tem forte presença industrial, infraestrutura marítima e experiência ligada ao setor offshore.

A capacidade inicial prevista é de 1.000 metros cúbicos por dia, o equivalente a 1 milhão de litros diários. Na prática, isso significa água suficiente para abastecer comunidades, operações industriais ou regiões costeiras que enfrentam pressão crescente sobre seus reservatórios.

A empresa também afirma que a tecnologia poderá ser escalada por meio de módulos. Ou seja, em vez de construir uma única estrutura gigantesca, seria possível instalar vários sistemas submarinos conforme a demanda aumenta.

Menos energia, menos terra ocupada e menos produtos químicos

Um dos pontos mais fortes da proposta é a redução do impacto em terra. Como grande parte do sistema fica submersa, a empresa afirma que a solução pode ocupar até 95% menos área costeira do que uma planta convencional.

Outro argumento importante envolve o uso de produtos químicos. Em águas profundas, há menos luz solar, menos algas, menos matéria orgânica e menor atividade biológica. Isso pode reduzir a necessidade de pré-tratamento químico, um dos gargalos das usinas tradicionais.

Na prática, a Flocean vende a tecnologia como uma dessalinização mais limpa, mais compacta e menos agressiva ao litoral. Ainda assim, é importante destacar que toda tecnologia de dessalinização precisa lidar com a salmoura, o concentrado salino que sobra depois da retirada da água doce.

A salmoura continua sendo um ponto sensível

A empresa afirma que seu sistema gera uma descarga menos problemática porque o concentrado seria liberado em profundidade, sem os mesmos produtos químicos usados em muitas plantas costeiras. A ideia é que a salmoura se disperse rapidamente em uma região de baixa produtividade biológica.

Mesmo assim, esse é um ponto que merece atenção. A expressão “sem salmoura tóxica” deve ser tratada com cautela, porque a tecnologia continua produzindo água mais salgada como resíduo. A diferença, segundo a Flocean, estaria na forma de descarte e na redução de aditivos químicos.

Esse detalhe é importante porque a dessalinização tradicional costuma ser criticada justamente pelo alto consumo de energia e pelo impacto ambiental da salmoura concentrada. Se o modelo submarino conseguir reduzir esses dois problemas, pode abrir uma nova fase para o setor.

Por que a Noruega virou palco dessa revolução

A Noruega tem uma vantagem estratégica: décadas de experiência com tecnologia offshore, engenharia submarina e operações em águas profundas. O país, historicamente associado ao petróleo e gás no Mar do Norte, agora tenta usar parte desse conhecimento para enfrentar uma crise global de água.

Mongstad, onde o projeto está sendo implantado, é uma região com forte estrutura marítima e industrial. Isso facilita testes, transporte, manutenção e integração com sistemas já existentes.

A escolha também mostra como a transição tecnológica pode reaproveitar competências de setores tradicionais. O mesmo tipo de engenharia que ajudou a explorar recursos no fundo do mar agora pode ajudar a produzir água doce em escala industrial.

Uma solução promissora, mas não universal

Apesar do entusiasmo, a tecnologia não serve para qualquer litoral. O sistema depende de regiões com profundidade adequada relativamente perto da costa. A própria Flocean trabalha com cenários de operação em águas profundas, geralmente entre 400 e 600 metros, o que limita o uso a áreas com geografia favorável.

Isso significa que nem toda cidade costeira poderá simplesmente instalar uma usina submarina desse tipo. Ilhas, regiões montanhosas próximas ao mar e costas com queda rápida de profundidade tendem a ser candidatas mais viáveis.

Ainda assim, o potencial é enorme. Em regiões onde falta água doce, mas sobra mar profundo perto da costa, a tecnologia pode representar uma alternativa mais eficiente do que plantas terrestres gigantescas.

O futuro da água potável pode estar escondido a 500 metros de profundidade

A grande força da Flocean One está no simbolismo e na promessa tecnológica. Enquanto boa parte do mundo discute como encontrar novas fontes de água, a Noruega está tentando mostrar que uma das respostas pode estar literalmente no fundo do oceano.

Se os resultados comerciais confirmarem as estimativas, a usina submarina poderá marcar o início de uma nova geração de dessalinização: mais eficiente, modular, menos dependente de grandes áreas costeiras e alimentada pela pressão natural do mar.

O projeto ainda precisa provar sua viabilidade em operação contínua e em escala maior. Mas uma coisa já está clara: a corrida global por água potável acaba de ganhar um capítulo surpreendente, e ele começa nas profundezas geladas da costa norueguesa.

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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