Em meio a debates sobre energias renováveis, Jean Paul Prates critica o enfraquecimento da pauta e alerta para lobby que afasta investimentos em eólica, solar e hidrogênio verde no Nordeste.
O debate sobre energias renováveis voltou ao centro das atenções após críticas contundentes de Jean Paul Prates, ex-presidente da Petrobras e especialista em planejamento energético.
Ele acusa setores influentes de atuar contra o avanço da energia solar, eólica e do hidrogênio verde, especialmente no Nordeste, região apontada como estratégica para o desenvolvimento de novas indústrias intensivas em eletricidade.
As declarações surgem num contexto em que o Brasil parece redirecionar sua política energética, priorizando biocombustíveis enquanto, segundo Prates, temas essenciais da transição climática perdem espaço no governo federal.
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As críticas ao sumiço das energias renováveis da pauta nacional
O ponto central das críticas de Prates é o afastamento das energias renováveis — especialmente eólica, solar e hidrogênio verde — das discussões governamentais. Segundo o ex-presidente da Petrobras, houve um esvaziamento proposital desses temas na preparação para a COP 30.
Ele argumenta que, apesar da insistência de embaixadores e representantes brasileiros, a agenda climática deixou de incluir assuntos essenciais. “Foi nesse momento que, na COP 30, o mundo percebeu que eles não estavam falando de eletromobilidade, isto é, de solar, eólica offshore, hidrogênio verde, nada disso estava ali, só o biocombustível”, afirmou.
De acordo com Prates, a justificativa de que haveria pressão de países produtores de petróleo não faz sentido histórico. Em sua visão, mesmo diante de interesses petrolíferos, a pauta das renováveis sempre avançou. Nesta edição, porém, o recuo se destacou.
Nordeste como vanguarda — e alvo de resistência
Prates reforça que estados como Ceará e Rio Grande do Norte possuem as melhores condições do país para liderar a instalação de indústrias limpas e de grande consumo energético. Ele ressalta que “o pessoal fez corpo mole, literalmente, em relação à verdadeira transformação energética que nós podemos fazer”.
Para o especialista, o Nordeste Setentrional está pronto para liderar projetos de energias renováveis no continente e no mar, incluindo eólicas offshore e parques solares de alta capacidade. No entanto, afirma que existe um movimento que tenta impedir esse avanço.
“Em vez de pelo menos deixar que nós joguemos o nosso jogo, os caras não só querem ganhar de todo o mundo, querem tomar o mercado, querem manter a sua reserva de mercado com subsídios pesados”, destacou.
Segundo ele, esse bloqueio beneficia setores que desejam manter o foco no biocombustível e nas formas convencionais de geração energética, mesmo que menos eficientes para grandes operações, como Data Centers e plantas industriais modernas.
Biocombustível: importante, mas não o futuro, diz Prates
Embora reconheça a relevância do setor, Prates é direto ao afirmar que o biocombustível não deve ser tratado como a solução energética do futuro. Ele observa que, internacionalmente, a produção de combustíveis agrícolas enfrenta limites ambientais e dificuldades de escala.
“É louvável falar de biocombustível, pois o Brasil tem muito a agregar neste particular, mas não se trata do combustível do futuro”, afirmou. E reforçou que grandes economias já optaram por pular essa fase, indo diretamente para fontes limpas como o hidrogênio verde.
O especialista lembra ainda que países com terras escassas, como os europeus, priorizam áreas férteis para agricultura, e não para combustíveis. Apenas Brasil, EUA e Índia mantêm produção intensa, mas, segundo ele, esse modelo deve se revelar insustentável no longo prazo.
Influência digital, críticas às renováveis e guerra de narrativas
Prates também mencionou a existência de campanhas financiadas que buscam desacreditar eólicas, plantas de hidrogênio verde e até Data Centers movidos por energia limpa. Para ele, as críticas são infundadas e fazem parte de uma “guerra de narrativas”.
“É por isto que você vê tanta postagem de influenciadores altamente financiados”, afirmou. Ele cita críticas sobre impacto nas comunidades, pesca e consumo de água como exemplos de discursos distorcidos.
Enquanto isso, pouco se fala — segundo o ex-presidente — sobre problemas associados à cadeia de biocombustíveis, como desmatamento, grilagem e casos de trabalho análogo à escravidão.
