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Localização SP Tempo de leitura 7 min de leitura Comentários 3 comentários

No Brás, maior mercado de rua do Brasil, camelôs correm do rapa, encaram sol, chuva, apreensão de mercadorias e humilhação diária para garantir o sustento, pagar aluguel e não voltar para casa de mãos vazias

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 20/12/2025 às 09:59
Assista o vídeoBrás, maior mercado de rua do Brasil, expõe camelôs e comércio ambulante sob pressão da Operação Delegada e da fiscalização diária nas ruas do centro.
Brás, maior mercado de rua do Brasil, expõe camelôs e comércio ambulante sob pressão da Operação Delegada e da fiscalização diária nas ruas do centro.
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No Brás, maior mercado de rua do Brasil, quase meio milhão de pessoas cruza ruas lotadas todos os dias enquanto mais de vinte mil ambulantes enfrentam sol, chuva, rapa, apreensões de mercadorias e risco constante de perder a única renda que paga aluguel e comida no fim de cada dia

Em dezembro de 2025, enquanto vitrines piscam luzes de Natal e ônibus lotados despejam compradores antes do amanhecer, o Brás volta a provar por que é chamado de maior mercado de rua do Brasil. Em pouco mais de um quilômetro quadrado, quase meio milhão de pessoas atravessa as ruas em dias comuns e mais de um milhão se espremem nas semanas que antecedem o Natal, em um formigueiro humano que mistura atacadistas, sacoleiros, lojistas e milhares de camelôs tentando salvar o mês em jornadas de mais de doze horas.

A história desses trabalhadores é marcada por datas que pesam no corpo e na memória. Em dezembro de 2020, um ambulante que chegava do Rio Grande do Norte desembarcou na capital paulista com 1.150 reais no bolso e encontrou no Brás a única chance de pagar aluguel graças a um dezembro farto. Em abril deste ano, a mesma região estampou outro tipo de manchete ao registrar a morte de um vendedor senegalês durante uma operação de apreensão de mercadorias, episódio que acendeu o alerta sobre o nível de conflito entre camelôs e forças de segurança nas ruas do bairro.

Um formigueiro humano no maior mercado de rua do Brasil

Brás, maior mercado de rua do Brasil, expõe camelôs e comércio ambulante sob pressão da Operação Delegada e da fiscalização diária nas ruas do centro.

Em pouco mais de um quilômetro quadrado, o Brás concentra cerca de quinze mil pontos de venda, que vão de pequenas casas a shoppings e galerias, e algo em torno de vinte mil ambulantes disputando espaço em calçadas e esquinas.

Na prática, o bairro funciona como uma cidade paralela, com fluxo capaz de rivalizar com aeroportos e rodoviárias, impulsionado por ônibus de excursão, vans de sacoleiros e trens lotados que chegam ainda de madrugada.

Para milhares de trabalhadores da informalidade, esse pedaço da zona leste é a única fonte de renda.

A estimativa é de que quase meio milhão de pessoas circule diariamente pela área, número que sobe para mais de um milhão nas semanas que antecedem o Natal.

É nesse cenário que o maior mercado de rua do Brasil se sustenta: entre a promessa de dinheiro rápido para quem aguenta o ritmo e o risco permanente de perder tudo em uma única operação de fiscalização.

O corre que começa antes do amanhecer

Brás, maior mercado de rua do Brasil, expõe camelôs e comércio ambulante sob pressão da Operação Delegada e da fiscalização diária nas ruas do centro.

O dia dos camelôs do Brás começa muito antes do abrir de portas das lojas.

Por volta das 4h30, trens e ônibus já despejam vendedores que empurram carrinhos carregados com pacotes, manequins e estruturas desmontadas de bancas.

Pouco depois das 6h, muitos já estão com tudo montado e prontos para aproveitar o fluxo das primeiras compras.

Um ambulante potiguar que chegou em São Paulo em dezembro de 2020 relata que todo o capital inicial veio do próprio bolso, sem crédito e sem reserva.

Com apenas 1.150 reais, ele montou a primeira banca de roupas populares.

Um único dezembro de vendas fortes foi suficiente para viabilizar a entrada em uma casa simples na periferia, algo que ele não acredita que teria alcançado com um emprego formal de 2.200 reais mensais, faixa salarial mais comum nas vagas que via anunciadas.

No Brás, o cálculo é direto: quem aguenta o corre, corre; quem não aguenta, volta para casa de mãos vazias.

Ganho maior que emprego formal, sem proteção nenhuma

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A possibilidade de faturar em um mês de dezembro o equivalente a vários meses de salário formal atrai gente de todo o país.

Há relatos de trabalhadores que deixaram cargos concursados na área da saúde para vender na rua, porque conseguiram comprar apartamento e carro com a renda do Brás, algo que consideram improvável no emprego original.

Mas esse aparente bônus vem acompanhado de uma ausência total de proteção. Não há férias, 13º salário, INSS regular ou seguro contra doença.

Se o ambulante adoece ou sofre um acidente, a renda desaparece da noite para o dia.

O mesmo vale para quem é alvo de apreensão de mercadorias em uma região onde, segundo a prefeitura, cerca de onze toneladas de produtos são recolhidas por mês na área da Subprefeitura da Mooca, que abrange o Brás.

Fiscalização, Operação Delegada e o medo de perder tudo

Nos últimos anos, a queixa mais repetida nas calçadas do maior mercado de rua do Brasil é o aumento das operações de fiscalização.

Ambulantes relatam que, nos últimos dois anos, as ações se tornaram mais frequentes e mais agressivas.

Em abril deste ano, um vendedor senegalês morreu após tentar impedir a apreensão das mercadorias, caso que expôs de forma brutal o grau de tensão entre policiais, guardas civis e trabalhadores informais.

O alvo principal das críticas é a chamada Operação Delegada, convênio pelo qual a prefeitura paga cerca de 320 milhões de reais por ano para que policiais militares reforcem o combate ao comércio ambulante.

Para advogados ligados a causas populares, esses recursos poderiam ser usados para mapear e regulamentar a atividade, em vez de alimentar uma guerra urbana em que, a cada sirene, barracas são desmontadas às pressas e a rua cheia fica vazia em minutos.

Camelôs organizados, permissões cassadas e vidas paradas

A maioria dos camelôs do Brás trabalha sem permissão formal.

A presidente da associação mais antiga da região, Vânia Maia, afirma que a prefeitura cassou autorizações de centenas de trabalhadores nos últimos meses.

O Termo de Permissão de Uso é o documento que autoriza a montagem de barracas sem risco direto de apreensão. Hoje, de acordo com dados oficiais, existem apenas oitenta e nove permissões válidas em toda a área.

O contraste é brutal. Quando Vânia começou a trabalhar ali, há 47 anos, havia cerca de 56 camelôs na rua em que montou a banca.

Hoje, a estimativa é de mais de dez mil ambulantes espalhados pelo bairro, disputando clientela com megashoppings e lojas de atacado.

Enquanto o fluxo de vendedores cresce, o número de permissões diminui, criando uma massa de trabalhadores que vivem permanentemente à margem das regras oficiais.

Para responder às críticas, a prefeitura afirma que tenta regularizar o comércio ambulante com o programa Tô Legal.

Segundo dados oficiais, foram concedidas 932 autorizações válidas por até três meses a vendedores que se cadastraram no sistema.

Na prática, o prazo curto é uma das principais razões da baixa adesão. Trabalhadores reclamam que não faz sentido investir em mercadoria e estrutura se o documento expira em poucos meses, sem garantia de renovação.

Além disso, a prefeitura lista uma série de motivos para cassar permissões, que incluem não iniciar a atividade em até 30 dias após a emissão, usar aparelhos de som, trabalhar sem camisa ou até praticar jogos no local.

Para quem vive do Brás e do corre diário, qualquer deslize pode significar voltar ao ponto zero.

Estacionamentos lotados, dívidas crescentes e o peso do tempo parado

A cadeia da informalidade no maior mercado de rua do Brasil vai além das barracas.

Estacionamentos privados guardam carrinhos e mercadorias de camelôs por uma diária que continua correndo mesmo quando o dono está impedido de trabalhar.

Uma ambulante relata estar há quatro meses sem atuar, desde a cassação da permissão, e acumular cerca de 4 mil reais de dívida apenas com a guarda do carrinho e das mercadorias.

Esse tipo de situação transforma a burocracia em armadilha.

Quando o documento cai, o vendedor perde a renda e, ao mesmo tempo, vê aumentar a dívida com o estacionamento que segura o estoque.

Para sair do buraco, precisa pagar para resgatar o próprio carrinho e ainda recompor a mercadoria perdida em fiscalizações anteriores, muitas vezes sem qualquer acesso a crédito formal.

Humilhação diária e a resistência invisível nas ruas do Brás

A frase se repete em diferentes vozes: não é qualquer um que aguenta esse trabalho.

Sol forte, chuva repentina, empurra empurra com clientes, correria para escapar da fiscalização, xingamentos e, em muitos casos, empurrões e violência.

Para uma camelô mais velha, que passou por quase meio século de Brás, a humilhação pesa tanto quanto o cansaço físico. Ela descreve a cena de ter de correr do rapa na idade em que esperava estar em um emprego fechado, regular, com carteira assinada.

No fim do dia, quando bancas são desmontadas e carrinhos sobem ladeiras de volta aos estacionamentos, o saldo se mede em notas amassadas, mercadoria perdida e alívio por ainda ter com o que voltar para casa.

Quem já ficou três meses sem trabalhar sabe o que é abrir a bolsa e não ter nem um real para tomar café, como relatou outra ambulante que se emocionou ao lembrar o período em que perdeu tudo após uma série de apreensões.

No meio dessa engrenagem que faz do Brás o maior mercado de rua do Brasil e o maior circuito de compras popular do país, você acha que o caminho deveria ser endurecer a repressão à informalidade ou ampliar a regulamentação para que camelôs possam trabalhar sem viver sob o medo permanente de perder toda a mercadoria em um único dia de fiscalização?

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Yoshiko
Yoshiko
22/12/2025 11:04

Puxa , deixa o pessoal trabalhar.Seria bom se facilitasse esse pessoal para formalidade, de uma maneira mais fácil.

Carrara
Carrara
22/12/2025 06:30

Deixa trabalhar…melhor di q roubar

Abu
Abu
21/12/2025 19:11

Os cara trabalhando e o governo atrapando, roubando as mercadorias deles e tirando o bem estar dessas pessoas, tudo para arrecadar e dar aos políticos que não sabem mais onde enfiar o dinheiro desviado, acabaram até dando um pouco pra Dilma

Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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