A Rússia enviou o petroleiro Anatoly Kolodkin com 730 mil barris de petróleo a Cuba nesta segunda-feira enquanto o México negocia com empresas privadas a venda de combustível da Pemex para companhias cubanas, em movimento que ocorre após a ilha perder o fornecimento da Venezuela por ação militar dos Estados Unidos e enfrentar a pior crise energética das últimas décadas.
Cuba acaba de receber 730 mil barris de petróleo russo no petroleiro Anatoly Kolodkin, enquanto o México negocia com empresas privadas a compra de combustível da estatal Pemex para revenda a companhias cubanas. Os dois movimentos acontecem ao mesmo tempo e por uma mesma razão: a ilha perdeu seu principal fornecedor de petróleo a Venezuela depois que os Estados Unidos depuseram o presidente Nicolás Maduro em operação militar em janeiro. Cuba está imersa em uma crise energética severa, com apagões constantes, escassez de combustível e uma economia que depende desesperadamente de fontes alternativas de energia.
A situação geopolítica é complexa. O presidente Donald Trump afirmou que não tem “nenhum problema” com o envio de petróleo russo a Cuba, mas havia bloqueado a chegada de petróleo venezuelano e de outros países, incluindo o México, sob ameaça de tarifas aduaneiras. O sinal verde parcial de Washington que autoriza vendas de combustível a Cuba desde que destinadas ao setor privado abriu uma brecha que tanto a Rússia quanto o México estão aproveitando, cada um à sua maneira, para suprir uma ilha que está literalmente ficando sem luz.
O navio russo que levou 730 mil barris de petróleo a Cuba
A Rússia informou nesta segunda-feira que o petroleiro Anatoly Kolodkin, carregado com 730 mil barris de petróleo bruto, chegou a Cuba. A entrega é um sinal claro de que Moscou mantém seu apoio à ilha caribenha mesmo sob o cenário de tensões globais provocadas pela guerra no Oriente Médio e pelas sanções ocidentais.
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Para Cuba, cada barril de petróleo russo que chega ao porto é oxigênio para uma economia sufocada. A ilha depende de combustível importado para gerar eletricidade, mover transporte público e manter hospitais funcionando.
Sem o fornecimento regular da Venezuela que durante décadas sustentou a infraestrutura energética cubana, qualquer carga de petróleo que atraca na ilha tem impacto imediato sobre a vida de 11 milhões de pessoas.
O fato de Trump ter declarado que não se opõe ao petróleo russo chegando a Cuba é um movimento geopolítico calculado. Washington bloqueou a Venezuela e pressionou o México, mas permitiu que a Rússia preenchesse parcialmente o vazio uma decisão que equilibra a pressão sobre Havana com a necessidade de evitar uma crise humanitária completa que poderia gerar ondas migratórias em direção aos Estados Unidos.
O que o México está negociando para vender combustível a Cuba
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, confirmou que o governo está em conversas com várias empresas privadas interessadas em comprar combustíveis da Pemex a estatal mexicana de petróleo para revendê-los a companhias cubanas.
“Há privadas que se aproximaram de nós para poder comprar combustível da Pemex e levá-lo elas mesmas às privadas de Cuba. Há várias empresas, não apenas uma”, afirmou Sheinbaum em coletiva.
O modelo é diferente de uma venda governo a governo. Empresas privadas atuam como intermediárias: compram petróleo ou derivados da Pemex e revendem a empresas privadas cubanas, como redes hoteleiras que precisam de combustível para operar.
Essa estrutura contorna parcialmente as restrições americanas, já que o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou em fevereiro que a venda de combustíveis a Cuba poderia ser autorizada se destinada ao setor privado.
A existência de empresas privadas em Cuba é relativamente recente. Pequenas e médias empresas privadas só passaram a existir legalmente na ilha em 2021, após mais de meio século de proibição.
Em março deste ano, o governo de Havana também autorizou a criação de empresas mistas entre o Estado e o setor privado uma abertura que, no contexto da crise energética, cria canais para que combustível chegue à ilha por vias que Washington aceita tolerar.
Por que Cuba perdeu o petróleo da Venezuela e o que isso causou
A Venezuela foi durante décadas o principal fornecedor de petróleo de Cuba. O acordo entre os dois países, estabelecido na era Chávez-Castro, previa envio de petróleo em condições preferenciais em troca de serviços cubanos médicos, professores e assessores de inteligência.
Esse fluxo sustentou a infraestrutura energética cubana por mais de 20 anos e era, na prática, a linha de vida que mantinha a ilha funcionando.
A interrupção veio após a operação militar na qual os Estados Unidos depuseram Nicolás Maduro em janeiro.
Com a mudança de regime na Venezuela, o fornecimento de petróleo a Cuba foi cortado. Washington também bloqueou tentativas de outros países incluindo o México de enviar combustível à ilha, usando a ameaça de tarifas aduaneiras como instrumento de pressão.
O resultado na ilha é devastador. Cuba enfrenta apagões diários que duram horas, transporte público paralisado por falta de diesel, hospitais operando com geradores intermitentes e uma população que já vivia em crise econômica agora mergulhada em escassez de produtos básicos.
A perda do petróleo venezuelano não foi apenas um problema energético foi o colapso de um modelo econômico que dependia inteiramente de um único fornecedor aliado.
A brecha americana que Rússia e México estão aproveitando
A posição dos Estados Unidos em relação a Cuba é contraditória de forma deliberada. Trump bloqueou o petróleo da Venezuela e pressionou o México, mas disse publicamente que não se opõe ao envio de petróleo russo à ilha.
Ao mesmo tempo, o Departamento do Tesouro abriu uma exceção: combustíveis podem ser vendidos a Cuba se destinados ao setor privado para suas atividades.
A Rússia aproveitou a brecha enviando o Anatoly Kolodkin com 730 mil barris de petróleo bruto. O México, por sua vez, estrutura um modelo de venda indireta via empresas privadas que compram da Pemex e revendem a empresas cubanas.
São duas estratégias diferentes para o mesmo objetivo: colocar petróleo em Cuba sem provocar retaliação direta de Washington.
Para Cuba, a diversificação de fontes é uma questão de sobrevivência. Depender de um único fornecedor como fez com a Venezuela por décadas mostrou-se uma vulnerabilidade fatal.
A chegada simultânea de petróleo russo e as negociações com o México sinalizam que Havana tenta construir uma rede de abastecimento mais resiliente, mesmo que improvisada e dependente de brechas na política americana.
O que está em jogo para Cuba nos próximos meses
A crise energética cubana não se resolve com uma única entrega de petróleo russo ou com as primeiras vendas mexicanas. A ilha precisa de fornecimento contínuo e previsível para estabilizar a geração de eletricidade e evitar o colapso total da infraestrutura e nenhuma das alternativas atuais garante isso.
A Rússia tem interesse geopolítico em manter Cuba como aliada no Caribe, mas Moscou também enfrenta pressões internas e externas que podem limitar o volume de petróleo enviado. O México opera dentro de restrições impostas por Washington e depende da tolerância americana para cada carregamento.
Qualquer mudança de humor político nos Estados Unidos pode fechar as brechas que hoje permitem a chegada de combustível à ilha.
O cenário é de improviso permanente. Cuba busca petróleo onde pode, aceita o que chega e tenta manter 11 milhões de pessoas com o mínimo de energia necessária para o cotidiano funcionar.
Os 730 mil barris russos e as negociações mexicanas são alívio temporário, não solução estrutural. E enquanto a ilha não encontrar uma fonte confiável e contínua de petróleo, cada semana será uma corrida contra o próximo apagão.
Com informações do portal do G1.
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