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Não são geleiras nem vulcões: a força invisível que existe sob a Antártida, distorce a gravidade da Terra há mais de 70 milhões de anos e pode ter influenciado a formação do gelo no continente

Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 24/02/2026 às 11:07
Atualizado em 24/02/2026 às 11:09
Anomalia gravitacional sob a Antártida pode existir há mais de 70 milhões de anos e estar ligada à formação do gelo.
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A descoberta de uma anomalia gravitacional extrema sob o Polo Sul revela conexões profundas entre o interior da Terra, movimentos do manto, variações do nível do mar e o início da glaciação permanente da Antártida há dezenas de milhões de anos

A Terra pode parecer uma esfera perfeita quando observada do espaço, mas, na prática, seu interior é tudo menos uniforme. Na verdade, cientistas explicam que o planeta se comporta mais como uma “laranja irregular”, com regiões mais densas e outras menos compactas em seu interior. Essa variação na distribuição de massa faz com que a gravidade da Terra não seja igual em todos os pontos, criando áreas onde a força gravitacional é ligeiramente mais fraca ou mais intensa.

É justamente nesse contexto que entra uma das descobertas mais intrigantes da geofísica moderna: a anomalia gravitacional mais forte do planeta está localizada na Antártida. Diferentemente do famoso “buraco gravitacional” do Oceano Índico, que é o maior em extensão — cobrindo mais de 3 milhões de quilômetros quadrados —, o da Antártida se destaca por sua intensidade extrema, algo que vem intrigando cientistas há décadas.

A informação foi divulgada por Live Science, com base em um estudo recente publicado na revista científica Scientific Reports”, que finalmente conseguiu reconstruir a história dessa anomalia ao longo de dezenas de milhões de anos. Os resultados revelam que essa distorção gravitacional existe há pelo menos 70 milhões de anos, desde uma época em que os dinossauros ainda dominavam o planeta.

O que são anomalias gravitacionais e por que elas existem

Para entender o fenômeno, é necessário compreender o conceito de anomalia gravitacional. Em termos simples, trata-se de regiões onde a gravidade é diferente do valor médio esperado. Isso acontece porque a gravidade depende diretamente da massa abaixo da superfície, e o interior da Terra possui densidades muito variadas.

Onde há menos massa ou materiais menos densos no manto terrestre, a gravidade tende a ser mais fraca. Por outro lado, regiões com materiais mais densos exercem uma atração gravitacional maior. Essas variações, embora imperceptíveis no dia a dia, são detectáveis por instrumentos extremamente sensíveis, especialmente por satélites especializados.

Atualmente, a maior anomalia gravitacional em área está localizada no centro do Oceano Índico. Já a mais intensa de todas encontra-se sob o gelo da Antártida, escondida por quilômetros de gelo e rocha, longe da observação direta. Por muito tempo, sua origem permaneceu um mistério.

No entanto, isso começou a mudar quando dois geofísicos decidiram investigar o problema de forma inédita, combinando diferentes técnicas de observação do interior do planeta.

Créditos: Imagem ilustrativa criada por IA – uso editorial.

Como os cientistas “enxergaram” o interior da Terra

Para mapear a origem do chamado “buraco gravitacional” da Antártida, os pesquisadores utilizaram uma abordagem comparável a um exame médico de imagem. Segundo Alessandro Forte, professor de geofísica da Universidade da Flórida e coautor do estudo, o método funciona como uma espécie de tomografia computadorizada da Terra.

“Imagine fazer um exame de tomografia do planeta inteiro. Não temos raios X, mas temos terremotos”, explicou o cientista. As ondas sísmicas geradas por terremotos atravessam o interior da Terra e se comportam de maneira diferente dependendo da densidade dos materiais que encontram pelo caminho. Essas variações funcionam como uma fonte de “luz”, revelando estruturas profundas do planeta.

Os pesquisadores combinaram registros globais de terremotos com modelagens físicas avançadas, criando mapas tridimensionais da densidade do manto terrestre sob a Antártida. Em seguida, esses mapas foram comparados com medições gravitacionais de altíssima precisão coletadas por satélites.

Os resultados coincidiram quase perfeitamente com os dados considerados padrão-ouro, obtidos pela missão GRACE (Gravity Recovery and Climate Experiment) da NASA. Essa correspondência confirmou que os modelos realmente representavam a estrutura profunda do planeta com grande fidelidade.

A ligação entre gravidade, manto terrestre e o gelo da Antártida

Os mapas revelaram que a anomalia gravitacional da Antártida não apenas existe há pelo menos 70 milhões de anos, como também mudou de intensidade ao longo do tempo. De forma surpreendente, os cientistas identificaram que essa distorção começou a se intensificar entre 50 e 30 milhões de anos atrás.

Esse período coincide, de maneira aproximada, com um dos eventos mais importantes da história climática do planeta: o início da glaciação permanente da Antártida, que ocorreu há cerca de 34 milhões de anos.

Naquele momento, o planeta enfrentava uma queda significativa nos níveis de dióxido de carbono atmosférico, o que levou a uma redução global das temperaturas. Paralelamente, o deslocamento das placas tectônicas criou uma corrente oceânica contínua ao redor da Antártida, isolando o continente de águas mais quentes vindas de outras regiões.

O novo estudo sugere que, além desses fatores climáticos e tectônicos, mudanças lentas no interior da Terra também podem ter desempenhado um papel crucial. Movimentos profundos no manto terrestre alteram o campo gravitacional e provocam ajustes no nível do mar e na elevação da superfície continental.

Essas variações, embora ocorram ao longo de milhões de anos, podem ter criado as condições ideais para o crescimento e a estabilidade das enormes camadas de gelo que hoje cobrem a Antártida.

“Se conseguirmos entender melhor como o interior da Terra molda a gravidade e o nível do mar, poderemos compreender fatores fundamentais para o crescimento e a estabilidade de grandes mantos de gelo”, afirmou Forte.

O que essa descoberta diz sobre o clima da Terra

Apesar do impacto da descoberta, os cientistas fazem questão de destacar um ponto essencial: esse processo não tem relação direta com as mudanças climáticas atuais causadas pela queima de combustíveis fósseis. A formação da anomalia gravitacional e sua interação com o gelo da Antártida ocorreram em uma escala de dezenas de milhões de anos, muito diferente do aquecimento acelerado observado hoje.

Ainda assim, compreender esses mecanismos profundos ajuda os pesquisadores a reconstruir a história climática de longo prazo da Terra. Ao entender como fatores internos do planeta influenciam oceanos, níveis do mar e calotas polares, os cientistas conseguem refinar modelos climáticos e obter pistas mais precisas sobre a evolução futura do sistema terrestre.

Em última análise, a descoberta reforça uma ideia poderosa: o clima da Terra não é moldado apenas pela atmosfera e pelos oceanos, mas também por forças invisíveis que atuam profundamente sob nossos pés, no coração do planeta.

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Felipe Alves da Silva

Sou Felipe Alves, com experiência na produção de conteúdo sobre segurança nacional, geopolítica, tecnologia e temas estratégicos que impactam diretamente o cenário contemporâneo. Ao longo da minha trajetória, busco oferecer análises claras, confiáveis e atualizadas, voltadas a especialistas, entusiastas e profissionais da área de segurança e geopolítica. Meu compromisso é contribuir para uma compreensão acessível e qualificada dos desafios e transformações no campo estratégico global. Sugestões de pauta, dúvidas ou contato institucional: fa06279@gmail.com

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