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Na maior favela do Brasil, óleo de cozinha que entupia esgoto e ameaçava a praia virou Sabão do Morro: projeto da Rocinha recolheu 14,4 mil litros, gera renda para mulheres e transforma lixo doméstico em solução ecológica local

Escrito por Carla Teles
Publicado em 10/06/2026 às 14:21
Atualizado em 10/06/2026 às 14:24
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Óleo de cozinha na Rocinha vira Sabão do Morro com reciclagem de óleo e renda para mulheres. Imagem: Wikimedia
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O óleo de cozinha descartado incorretamente na Rocinha, zona sul do Rio de Janeiro, motivou a criação do projeto Óleo no Ponto em 2020. A iniciativa recolheu 14,4 mil litros do resíduo entre janeiro de 2024 e março de 2025, transformando o material em produtos de limpeza ecológicos vendidos sob a marca Sabão do Morro.

Um reservatório de água com uma massa densa e estranha no fundo. Esse foi o ponto de partida de um projeto que mudaria a relação de milhares de moradores da Rocinha com o descarte doméstico. Em 2020, o empresário e líder comunitário Marcelo Santos, 43 anos, nascido e criado na favela, visitou o Complexo Esportivo da Rocinha acompanhado do professor de biologia Márcio Aroeira. Os dois notaram o fluido acumulado, e o biólogo identificou rapidamente: era resíduo de óleo de cozinha descartado de forma incorreta pelos moradores. Santos afirma que, a partir daquela conversa, foi buscar entender o grau de contaminação do óleo, o nível de prejuízo à saúde e os impactos ambientais envolvidos, e o que descobriu o levou a criar o Óleo no Ponto, projeto documentado pela Mongabay em reportagem publicada em outubro de 2025.

A iniciativa nasceu na maior favela do Brasil. Segundo dados oficiais citados pela Mongabay, a Rocinha, na zona sul do Rio de Janeiro, detém esse posto entre as mais de 12 mil favelas e comunidades do país, com pouco mais de 72 mil habitantes e mais de 30 mil domicílios. É nesse contexto denso e populoso que o óleo de cozinha descartado incorretamente representava um problema ambiental de proporções invisíveis, e foi exatamente ali que Santos encontrou o caminho para transformá-lo em produto, renda e reeducação ambiental.

A dimensão do problema: um litro de óleo de cozinha pode contaminar 25 mil litros de água

Óleo de cozinha na Rocinha vira Sabão do Morro com reciclagem de óleo e renda para mulheres.
Imagem: Canal Youtube

Antes de criar qualquer solução, Marcelo Santos precisou entender a escala do dano. O que ele descobriu é que o descarte incorreto de óleo de cozinha, seja na pia, no vaso sanitário ou no lixo comum, gera consequências que vão muito além do entupimento.

Segundo a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), um único litro de óleo pode poluir até 25 mil litros de água. A mesma entidade estima que 100 milhões de litros da substância sejam descartados irregularmente todo mês no Brasil, aumentando o custo e o gasto de energia no tratamento de esgoto e agravando a crise climática.

Na Rocinha, as consequências locais eram concretas. Santos aponta que o descarte incorreto costuma obstruir tubulações e passagens de águas pluviais, levando compostos poluentes ao oceano. Um dos destinos diretos desse fluxo é a Praia de São Conrado, que, segundo ele, está há anos contaminada pelo esgoto da favela.

Durante temporais intensos, o entupimento dos canos pode fazer o lixo descer morro abaixo, causando acidentes em ruas e estradas próximas. “Ao retirarmos esse óleo das praias, ruas e bueiros, também levamos segurança para as pessoas”, declarou Santos à Mongabay.

Como o projeto foi criado e o papel decisivo de um edital da Faperj

Óleo de cozinha na Rocinha vira Sabão do Morro com reciclagem de óleo e renda para mulheres.
Imagem: Canal Youtube

Meses após a visita ao Complexo Esportivo, Santos realizou pesquisas e estabeleceu contato com profissionais do setor químico. Em 2020, criou formalmente o Óleo no Ponto, iniciativa comunitária voltada à coleta adequada do óleo de cozinha usado nas residências da Rocinha. No início, para atrair moradores e dar tração à proposta, ele ofereceu cestas básicas em troca de 20 litros de óleo usado, uma estratégia de engajamento prática, baseada em troca direta de valor.

Em 2021, o projeto passou por um ponto de virada. Por meio de um edital aberto pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), o Óleo no Ponto recebeu R$ 350 mil como parte de um incentivo a propostas ambientais que aliam tecnologia, inovação e energia renovável dentro das favelas. A verba permitiu que Santos e sua esposa Adriana, atual coordenadora do projeto, investissem em pesquisas, funcionários qualificados, novos maquinários e insumos. Desse salto produtivo nasceu a marca Sabão do Morro, que se tornou o rosto comercial da iniciativa.

A fábrica no Ciep, a máquina de coleta e o sistema de moeda social

Óleo de cozinha na Rocinha vira Sabão do Morro com reciclagem de óleo e renda para mulheres.
Imagem: Canal Youtube

A sede do Óleo no Ponto funciona em um Centro Integrado de Educação Pública (Ciep) no coração da Rocinha. Ali opera uma pequena fábrica abastecida pelo óleo coletado, além de um ponto de venda dos produtos gerados a partir do reúso e tratamento do resíduo. O ciclo começa quando os moradores armazenam o excedente da fritura caseira em garrafas PET e o depositam em postos especializados.

A máquina receptora instalada no Ciep tem capacidade para armazenar até 220 litros de óleo e opera com um sistema de moeda social: o morador insere o número de celular em um painel digital, recebe orientações por mensagem de texto e acumula pontos para trocar pelo Sabão do Morro.

O equipamento também realiza a filtragem do óleo depositado e detecta elementos que não servem para a conversão em artigos ecológicos, como água adicionada para aumentar artificialmente o volume, que é identificada automaticamente pelo sistema. Para restaurantes, bares e lanchonetes, o projeto disponibiliza barris de até 18 litros, recolhidos assim que estão cheios e imediatamente substituídos por recipientes vazios.

Os produtos, os números de produção e o empoderamento das mulheres

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Com o óleo recolhido, soda cáustica, essências aromáticas e sódio, nove moradores da Rocinha produzem a linha de itens do Sabão do Morro. Cinco litros de óleo rendem até 23 barras de sabão, vendidas a cerca de R$ 2 por unidade nas lojas do Ciep e em pequenos mercados da região, além das redes sociais e de um sistema de entregas.

Segundo Adriana Santos, coordenadora do projeto, cerca de 150 unidades de sabão em pasta são fabricadas por semana, e os produtos para lavar louça lideram as vendas entre comerciantes locais, com estimativa de 1.200 unidades comercializadas mensalmente. O campeão de vendas absoluto, porém, é o sabão em barra.

O foco central do projeto é o empoderamento de mulheres em situação de vulnerabilidade social. As participantes passam por uma oficina de capacitação de três meses, aprendendo a produzir o material de limpeza ecológico. “Queremos dar a vara para elas pescarem o seu próprio peixe”, disse Adriana à Mongabay. Muitas das capacitadas seguem produzindo por conta própria após a formação, revendendo os produtos em outros locais da cidade. O projeto é certificado pelo Conselho Regional de Química (CRQ).

Parcerias com hotéis e shoppings e o salto de 50% no volume de coleta

Óleo de cozinha na Rocinha vira Sabão do Morro com reciclagem de óleo e renda para mulheres.
Imagem: Canal Youtube

A partir de abril de 2025, o Óleo no Ponto firmou quatro parcerias com grandes estabelecimentos do Rio de Janeiro: dois hotéis e dois shoppings. Cada parceiro conta com um recipiente capaz de armazenar até 80 litros de óleo. Segundo os dados divulgados pelo projeto à Mongabay, entre janeiro de 2024 e março de 2025, cerca de 14,4 mil litros de óleo foram recolhidos somando todos os pontos de coleta. Desde o início das parcerias com a rede hoteleira, a média mensal aumentou aproximadamente 50%, chegando a 1.800 litros por mês. Desde o ano passado, as mulheres capacitadas pelo projeto participaram da criação de mais de 5 mil itens.

Para a engenheira ambiental Amanda Caroline Sousa, consultada pela Mongabay, o projeto aplica na prática os princípios da Política Nacional de Resíduos Sólidos, inserida no conceito de economia circular. “Promover uma solução para o descarte do óleo é aplicar na prática os princípios da economia circular, quando um resíduo é reinserido como matéria-prima em outro processo produtivo”, afirmou. Adriana, por sua vez, já mira o próximo passo: colocar o Sabão do Morro nas prateleiras de grandes supermercados do Rio de Janeiro, ampliar os polos de coleta e continuar as palestras de educação ambiental nas escolas da comunidade.

Óleo de cozinha que iria para o ralo virou sabão, emprego e proteção ambiental na maior favela do Brasil. Você já descarta o óleo de cozinha corretamente na sua casa? Conhece algum projeto parecido na sua cidade? Deixe seu comentário, essa é uma conversa que precisa se expandir para além da Rocinha.

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Carla Teles

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