A tragédia urbana em Maceió mudou a vida de famílias que perderam casas, vizinhos, comércios e rotina após o afundamento do solo ligado à mineração de sal-gema, em um caso que ainda envolve estudos técnicos, acordos e disputas por reparação.
Em Maceió, uma tragédia urbana transformou parte da cidade em área de abandono. Bairros como Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e parte do Farol foram atingidos por rachaduras, afundamento do solo e remoções depois de décadas de mineração subterrânea de sal-gema ligada à Braskem.
O número mais duro aparece nas fontes oficiais e jornalísticas: mais de 60 mil pessoas tiveram que deixar suas casas. Segundo a Agência Brasil, o desastre acumulou dramas humanos em ruas onde imóveis foram fechados, comércios desapareceram e a rotina de vizinhança foi substituída por muros, vigilância e silêncio.
O bairro não acabou de uma vez, ele foi sendo esvaziado

A imagem mais forte da crise não está apenas nas rachaduras. Está nas casas que continuam de pé, mas sem moradores. Portas e janelas foram fechadas com tijolo e cimento, enquanto ruas antes comuns passaram a lembrar um cenário de cidade fantasma.
-
Produtor plantou só 50 mudas de banana na terra da soja e viu o teste virar um bananal com 15 mil pés em Mato Grosso; hoje, com irrigação, energia solar e venda a R$ 5 o quilo, colhe toda semana até na seca
-
Inconformado com pessoas dormindo nas ruas, empresário canadense vendeu empresa por fortuna milionária e investiu o próprio dinheiro para erguer comunidade com 99 microcasas, cozinha, banheiro, energia solar e empregos no local para dar segunda chance a moradores sem-teto
-
Moradores isolados no Pantanal abriram sozinhos uma estrada improvisada de 8 km depois que o canal natural da Baía do Castelo ficou bloqueado por vegetação aquática; sem acesso pelo rio, comunidade criou um caminho alternativo para enfrentar o isolamento
-
O Brasil bateu recorde com 9,3 milhões de turistas estrangeiros em 2025, alta de 37%
De acordo com a Agência Brasil, mais de 15 mil imóveis ficaram abandonados sob vigilância privada. Por trás desse número havia famílias que perderam não apenas uma propriedade, mas também a rua onde cresceram, o comércio que sustentava a casa, a escola dos filhos e a rede de vizinhos que dava sentido ao bairro.
Esse esvaziamento criou uma ferida urbana difícil de medir apenas em indenizações. Em vez de uma tragédia concentrada em um único dia, Maceió passou a conviver com uma perda prolongada, espalhada por mudanças forçadas, incerteza jurídica e memória interrompida.
As 35 minas no subsolo mudaram a história de Maceió
A origem técnica do problema foi associada à exploração de 35 minas de sal-gema. O Serviço Geológico do Brasil concluiu, em 2019, que a desestabilização de cavidades subterrâneas provocou subsidência, deformações na superfície e reativação de estruturas geológicas preexistentes.
A extração de sal-gema funcionava com poços profundos. Água era injetada no subsolo para dissolver a camada mineral, formando salmoura, que depois era retirada para uso industrial. O risco apareceu quando as cavidades deixadas por esse processo perderam estabilidade.
O próprio Serviço Geológico do Brasil registrou movimentação acelerada entre 2016 e 2018, com deformação radial e afundamento que chegou a 40 centímetros no centro da área analisada. Foi a partir dessas evidências que a crise deixou de ser tratada como problema isolado de rachaduras e passou a ser reconhecida como um desastre de origem geológica e minerária.
A mineração parou, mas o impacto continuou nas ruas

Após a conclusão técnica, a mineração de sal-gema foi paralisada. O Instituto do Meio Ambiente de Alagoas informou que suspendeu e cancelou a licença ambiental da atividade, enquanto a Agência Nacional de Mineração também suspendeu a licença de extração.
Mesmo assim, a vida dos moradores já havia sido desmontada. O mapa de risco avançou, áreas foram esvaziadas e a Defesa Civil de Maceió passou a monitorar o solo com equipamentos capazes de identificar movimentos milimétricos.
Em 2023, a mina 18, no Mutange, virou símbolo da tensão. O risco de colapso levou a cidade a um novo alerta, mas a própria Defesa Civil de Maceió corrigiu comparações exageradas com o Maracanã e informou que a cavidade tinha volume de 116 mil metros cúbicos, 27 vezes menor que o estádio.
Acordos, indenizações e disputas seguem no centro do caso
Na parte das indenizações, a Braskem mantém uma página oficial sobre o Programa de Compensação Financeira e Apoio à Realocação, na qual apresenta seus próprios balanços sobre propostas, adesões e pagamentos feitos a moradores e comerciantes atingidos. Esses números, porém, são dados declarados pela companhia e não eliminam as críticas sobre reparação, que seguem presentes em fontes como a CPI da Braskem no Senado e a Defensoria Pública de Alagoas.
A empresa também firmou acordo socioambiental com o Ministério Público Federal, com participação do Ministério Público de Alagoas e adesão do Município de Maceió, para reparar, mitigar ou compensar impactos nos bairros atingidos.
Ainda assim, a discussão não terminou. A CPI da Braskem no Senado apontou responsabilidade da mineradora, citou falhas de monitoramento e defendeu revisão de acordos e indenizações. A Defensoria Pública de Alagoas também destacou a situação dos Flexais de Bebedouro, onde moradores relatam isolamento social e econômico após o esvaziamento das áreas vizinhas.
O caso virou uma tragédia urbana sem retorno simples
Em 2024, um tribunal da Holanda condenou a Braskem a indenizar vítimas do afundamento do solo em Maceió. Em 2025, o Ministério Público Federal acompanhou a apresentação de novo estudo técnico sobre subsidência em cinco bairros da capital alagoana.
A sequência mostra que o desastre não ficou preso ao momento da evacuação. Ele passou a ocupar tribunais, relatórios técnicos, negociações de reparação, estudos científicos e a vida de quem precisou reconstruir a própria rotina longe de casa.
O caso de Maceió vai além de rachaduras abertas no asfalto. Ele mostra como uma atividade subterrânea, mantida por décadas, pode alterar a superfície de uma cidade inteira e transformar bairros vivos em território de ausência. No fim, a tragédia da Braskem não deixou apenas imóveis vazios. Deixou uma pergunta pública sobre quanto custa, de verdade, perder o chão onde uma vida foi construída.

