Na cidade dos gatos da Malásia, a OMS usou DDT contra a malária, criou um desastre ecológico e precisou de gatos de paraquedas para controlar ratos.
Em plena selva da Malásia, a cidade de Kuching ficou conhecida como a cidade dos gatos, um lugar onde felinos aparecem em estátuas, museus, moedas e até festivais. Para muitos moradores, os gatos não são apenas animais de estimação, mas símbolos de proteção que merecem respeito absoluto. Pouca gente imagina que essa devoção também carrega a marca de um dos episódios mais estranhos da história da saúde pública.
Foi ali, em torno da famosa cidade dos gatos e das regiões vizinhas de Bornéu, que uma campanha da Organização Mundial da Saúde contra a malária terminou em um desastre ecológico. Ao tentar matar mosquitos com DDT, a humanidade matou gatos, deu espaço para uma explosão de ratos e precisou lançar felinos de paraquedas para corrigir o problema que ela mesma havia criado.
A cidade dos gatos que virou palco de uma guerra contra a malária
Kuching, a chamada cidade dos gatos, é hoje um dos centros urbanos mais modernos da Malásia, à beira do rio Sarawak. Turistas chegam esperando ver gatos por toda parte, e não é exagero: há museu do gato, festival do gato, estátuas gigantes de gatos, cafés temáticos e até moedas com felinos estampados. Na cultura local, maltratar um gato é visto quase como uma ofensa sagrada.
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Por trás dessa devoção existe uma hipótese curiosa: ela estaria ligada a uma campanha sanitária que mudou para sempre a relação entre o povo e os felinos. Em meados do século 20, a malária infectava centenas de milhões de pessoas e matava milhões de vidas por ano, mais do que muitas guerras.
A OMS decidiu que era hora de erradicar a doença globalmente e escolheu áreas da então colônia britânica na Malásia, próximas à cidade dos gatos, como laboratório de um experimento ousado.
Quando o DDT parecia um milagre científico
Antes da era do DDT, o combate aos mosquitos era feito com métodos primitivos, como compostos à base de arsênico ou querosene jogado em lagoas e pântanos.
Os resultados eram frágeis e perigosos. Tudo mudou quando o químico suíço Paul Müller descobriu o DDT, um inseticida capaz de matar mosquitos em baixíssimas concentrações e que lhe rendeu o Prêmio Nobel.
Depois da Segunda Guerra Mundial, o DDT virou símbolo de progresso científico. Era barato, fácil de produzir e parecia inofensivo para humanos.
Em 1955, a OMS lançou uma campanha global de erradicação da malária. Soldados e equipes de saúde passaram a pulverizar DDT em tudo: paredes, telhados de palha, camas e longhouses que abrigavam dezenas de famílias.
No início, os resultados pareciam espetaculares. Em menos de dois anos, a taxa de mosquitos infectados despencou, e a cidade dos gatos e outras comunidades próximas respiraram aliviadas. Só que o sucesso aparente escondia uma conta ecológica que logo viria à tona.
O efeito dominó: telhados destruídos, gatos mortos e ratos em todos os cantos
Com o tempo, os mosquitos começaram a desenvolver resistência ao DDT. As equipes de controle foram aumentando a dose e, em alguns lugares, passaram a usar produtos ainda mais tóxicos. Aos poucos, efeitos colaterais surgiram em pontos inesperados.
Primeiro, as mariposas e seus ovos tomaram conta dos campos de capim, destruindo telhados de palha que antes duravam anos. As vespas que controlavam essas pragas haviam sido dizimadas pelo DDT. Os moradores começaram a reclamar: não bastava ainda existirem mosquitos, agora os telhados também apodreciam.
Logo depois veio um sinal muito mais preocupante: gatos começaram a morrer em massa em Bornéu e em outros países onde o DDT era pulverizado em excesso.
O veneno impregnava paredes, pisos e também o pelo dos animais. E gatos, como se sabe, passam boa parte do tempo se lambendo.
Ao ingerirem pequenas doses de DDT acumuladas no corpo, muitos apresentavam convulsões, paralisia e morte. Com menos gatos, o que parecia apenas um detalhe doméstico virou uma crise de saúde pública.
Os ratos, inimigos naturais dos felinos, tomaram conta das vilas. Sacos de arroz foram rasgados, estoques destruídos e doenças como tifo e peste voltaram a assustar a população.
Em poucos meses, comunidades que tinham medo da malária passaram a ter pavor dos roedores. Não à toa, as equipes que pulverizavam DDT ganharam o apelido irônico de “matadores de gatos”.
A operação bizarra que lançou gatos de paraquedas

Quando os surtos de tifo e peste bubônica começaram a explodir em Bornéu, a OMS percebeu que havia ido longe demais. Era preciso restaurar rapidamente o equilíbrio ecológico destruído pelos pesticidas. E a solução encontrada parece até roteiro de filme: lançar gatos de paraquedas sobre as aldeias.
No início dos anos 1960, a OMS, em parceria com a Força Aérea britânica, organizou a chamada “Operation Cat Drop”. Cerca de 23 gatos prenhes foram recolhidos em cidades costeiras de Sarawak, muitas delas ligadas à cidade dos gatos. Eram felinos nativos, adaptados ao clima úmido, ágeis na caça de ratos e considerados perfeitos “guerreiros biológicos”.
Os gatos foram colocados em cestos de bambu, forrados com palha, presos a pequenos paraquedas brancos. Em um dos voos, um enorme avião de transporte decolou carregando toneladas de ajuda humanitária e cerca de duas dúzias de gatos paraquedistas.
Durante o trajeto, a aeronave enfrentou tempestade, fez pouso de emergência e a própria tripulação teve de acalmar os animais antes do lançamento.
Quando o céu clareou, o avião sobrevoou o planalto de Bario, uma região isolada sem estradas. Às 11h15, os paraquedas se abriram.
Moradores viram, atônitos, gatos literalmente caindo do céu, pousando suavemente sobre campos de arroz e áreas abertas. Relatórios oficiais registram que todos aterrissaram sem ferimentos, e os aldeões correram para recebê-los como se fossem um presente do destino.
No mesmo dia, jornais locais estampavam manchetes pedindo “gatos voadores” para expulsar ratos. Em Kuching, a cidade dos gatos, a população sentiu orgulho ao saber que seus animais haviam sido enviados como reforço aéreo para salvar outras comunidades.
Quando os gatos voadores vencem os ratos

O mais surpreendente é que a ideia funcionou. Cerca de um mês depois da operação, a densidade de ratos despencou nas aldeias. Os felinos começaram a caçar intensamente, os estoques de arroz deixaram de ser destruídos e os casos de tifo praticamente desapareceram.
Os “gatos paraquedistas” viraram lenda local. Em um ano, a população felina da região havia se multiplicado e se estabelecido como parte permanente do ecossistema. Relatos apontam que a presença de gatos reduziu em mais de 90% a quantidade de roedores em algumas áreas críticas.
Não por acaso, essa história ajudou a consolidar ainda mais o imaginário em torno da cidade dos gatos. Para muita gente, os felinos deixaram de ser apenas símbolos de sorte e passaram a ser heróis práticos, capazes de salvar colheitas e vidas humanas.
Experimentos, fracassos e heróis improváveis de quatro patas
A operação de lançamento de gatos em Bario não ficou isolada. Outras experiências menores foram testadas na Malásia nas décadas de 1950 e 1960.
Em algumas bases militares, um único gato lançado de baixa altitude passou a controlar ratos que destruíam rações e fios elétricos, ganhando apelidos carinhosos entre os soldados.
Nem todas as tentativas tiveram final feliz. Em certo caso, gatos levados para enfrentar ratos gigantes em armazéns de arroz acabaram sendo mortos pelos próprios roedores em poucos dias.
Em outras regiões, chegou a se cogitar o uso de pitons como controle biológico, o que trouxe outro problema: as serpentes também atacavam galinhas e animais domésticos.
Apesar desses tropeços, algumas histórias se destacam, como a de uma gata levada de helicóptero com filhotes para outra aldeia, que em poucas semanas eliminou centenas de ratos e salvou os estoques locais.
Esses episódios reforçaram a ideia de que, em muitos casos, a natureza oferece soluções mais eficientes do que qualquer química pesada.
As lições ecológicas da cidade dos gatos para o século 21
Ao final dos anos 1960, os paraquedas brancos pararam de cruzar o céu de Bornéu. Estradas foram abertas, novas tecnologias de controle de pragas surgiram e o DDT começou a ser proibido em diversos países, após denúncias sobre seus efeitos em aves, mamíferos e até na saúde humana.
A história da operação com gatos, porém, não foi esquecida. Ela passou a figurar em materiais educativos ambientais como um caso clássico de efeito cascata: um pesticida pensado para matar mosquitos acaba destruindo predadores naturais, abrindo espaço para pragas ainda piores e obrigando governos a recorrerem a soluções improváveis para restaurar o equilíbrio.
Na prática, o que a cidade dos gatos ajuda a mostrar é simples e ao mesmo tempo profundo. Toda intervenção brusca em ecossistemas complexos cobra uma conta mais tarde. Quando subestimamos as relações entre espécies e ignoramos ciclos naturais, acabamos criando problemas que não sabemos resolver.
Hoje, o mundo volta a apostar em tecnologias de alto impacto, como insetos modificados, controles biológicos radicais e novas químicas.
A lembrança da cidade dos gatos e da operação de lançamento de felinos de paraquedas funciona como um aviso silencioso: nem sempre o que parece solução rápida deixa de ser uma nova armadilha.
E você, depois de conhecer a história da cidade dos gatos e dos felinos lançados de paraquedas, acha que estamos realmente aprendendo com esses erros ou apenas preparando o próximo desastre ecológico em outra parte do mundo?

