Objeto vindo de fora do Sistema Solar chamou atenção dos cientistas por reunir idade extrema, água com composição rara e sinais químicos de um ambiente de formação muito frio, preservando pistas sobre sistemas planetários antigos que surgiram bilhões de anos antes do Sol.
O cometa interestelar 3I/ATLAS pode estar entre os objetos mais antigos já observados em passagem pelo Sistema Solar, com origem estimada em até 12 bilhões de anos, segundo estudo publicado em 22 de junho de 2026 na revista Nature.
Pela análise dos pesquisadores, sua composição química não corresponde à de cometas conhecidos do Sistema Solar, o que indica uma formação em um ambiente extremamente frio, antigo e pobre em metais, muito diferente daquele que deu origem ao Sol e aos planetas.
As medições foram realizadas com o Telescópio Espacial James Webb, por meio do instrumento NIRSpec, que mapeou componentes químicos do 3I/ATLAS enquanto o cometa se afastava do Sol, em dezembro de 2025.
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Para a NASA, os dados oferecem uma oportunidade rara de estudar diretamente material preservado de um sistema planetário formado muito antes do Sol, em uma etapa remota da história da galáxia.
O principal indício apareceu na água presente no cometa, cuja composição revelou uma assinatura química considerada incomum pelos cientistas responsáveis pela análise.
Com o Webb, a equipe detectou níveis excepcionalmente altos de deutério, conhecido como hidrogênio pesado, em proporção cerca de 30 vezes maior do que a observada em cometas originados no Sistema Solar.
Essa assinatura sugere que o material do 3I/ATLAS se formou em temperaturas de até cerca de 30 kelvin, valor equivalente a aproximadamente -243°C, em uma região muito mais fria do que os ambientes associados aos cometas locais.
Na Nature, os pesquisadores informam que a água do 3I/ATLAS tem razão D/H de 0,98%, com margem de erro de 0,06%, valor mais de uma ordem de grandeza superior ao encontrado em cometas conhecidos.
Também foram identificadas proporções incomuns entre carbono-12 e carbono-13, fora dos padrões típicos do Sistema Solar, de nuvens interestelares próximas e de discos protoplanetários já analisados.
Cometa interestelar 3I/ATLAS tem composição rara

Classificado como objeto interestelar, o 3I/ATLAS se formou fora do Sistema Solar e atravessou a região dominada pela gravidade do Sol durante sua passagem pelo nosso sistema.
De acordo com a NASA, o nome reúne a condição de terceiro objeto interestelar confirmado e a identificação do sistema ATLAS, sigla de Asteroid Terrestrial-impact Last Alert System, responsável pela detecção.
A composição medida pelo Webb levou os pesquisadores a relacionar o cometa a uma fase muito antiga da história galáctica, marcada por ambientes de formação planetária diferentes daqueles observados perto do Sistema Solar.
Segundo o artigo da Nature, os dados isotópicos de carbono, interpretados com modelos de evolução química da Via Láctea, indicam que o corpo pode ter se agregado há até 12 bilhões de anos, após um período inicial de intensa formação de estrelas.
Martin Cordiner, astroquímico do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA, em Greenbelt, no estado americano de Maryland, lidera o estudo e afirmou que a observação abre uma janela para um tempo e um lugar distantes.
“Esta foi uma oportunidade única de estudar um objeto antigo da galáxia distante, provavelmente anterior ao nosso Sol e ao Sistema Solar”, disse ele, em comunicado da agência espacial.
A comparação com o Sistema Solar ajuda a dimensionar a diferença entre o 3I/ATLAS e os objetos formados na vizinhança da Terra, especialmente quando se observa a idade estimada e a composição isotópica.
Enquanto o Sol e os planetas se formaram há cerca de 4,5 bilhões de anos, o 3I/ATLAS pode ter surgido em uma fase anterior, quando a galáxia ainda passava por intensa formação estelar.
Essa diferença aparece registrada na própria química do cometa, sobretudo na relação entre isótopos de hidrogênio e carbono, que funciona como uma espécie de arquivo das condições do ambiente onde o corpo se formou.
Água pesada revela origem extremamente fria
Entre as pistas reunidas pelos cientistas, o excesso de deutério ganhou destaque porque esse isótopo tende a se acumular com mais facilidade em moléculas formadas em ambientes muito frios.

Para os pesquisadores, o material incorporado ao 3I/ATLAS provavelmente ficou exposto a bastante radiação, mas não passou por aquecimento prolongado capaz de transformar sua água pesada em uma composição semelhante à encontrada na Terra.
A NASA afirma que essa combinação aponta para um sistema de origem frio, denso e muito antigo, com características químicas preservadas ao longo de bilhões de anos de viagem pelo espaço interestelar.
No artigo da Nature, as assinaturas isotópicas extremas também são associadas a um ambiente relativamente pobre em metais, expressão usada em astronomia para descrever regiões com menor presença de elementos mais pesados do que hidrogênio e hélio.
Além da água, o Webb mediu relações químicas ligadas ao carbono em moléculas como monóxido e dióxido de carbono, ampliando a base usada pelos pesquisadores para reconstruir a origem do objeto.
Com esses dados, a equipe conseguiu recuperar parte das condições do sistema planetário em que o cometa nasceu, antes de ser lançado ao espaço interestelar e seguir uma trajetória independente entre as estrelas.
James Webb analisou material de outro sistema planetário
A interpretação apresentada pelos pesquisadores trata o 3I/ATLAS como um fragmento preservado de um sistema planetário antigo, formado ao redor de uma estrela diferente do Sol.
Esse tipo de objeto interessa à astronomia porque funciona como uma amostra natural de material vindo de outro sistema, algo que telescópios só conseguem analisar quando corpos interestelares entram no alcance de observatórios terrestres ou espaciais.
Cordiner afirmou que o cometa oferece informações sobre como o Sistema Solar pode ser incomum em comparação com outros sistemas, especialmente quando sua química é confrontada com a de objetos formados em regiões mais antigas.
A NASA também destacou que a análise desses corpos ajuda a avaliar a diversidade de ambientes químicos em que planetas e pequenos objetos gelados se formam ao longo da história da galáxia.
Outro ponto observado pela equipe foi a presença de moléculas associadas à química prebiótica, grupo de compostos que ajuda cientistas a investigar como ingredientes ligados à vida podem se distribuir em ambientes distantes.
Stefanie Milam, coautora do estudo e pesquisadora da NASA Goddard, afirmou que a busca por isótopos raros é relevante não apenas pelo dado químico, mas pelo que revela sobre a origem desses ingredientes na galáxia.
NASA trata 3I/ATLAS como objeto natural
Embora teorias sem comprovação tenham associado o 3I/ATLAS a hipóteses artificiais, as observações disponíveis sustentam a interpretação de que se trata de um corpo natural com comportamento cometário.
A NASA descreve o objeto como um cometa interestelar e informa que o aquecimento pelo Sol transformou parte de seus gelos antigos em uma coma brilhante de gás, adequada para análise espectroscópica.
Além da composição, a classificação se apoia na trajetória observada e nos dados coletados pelo James Webb, que reforçam a leitura de um objeto gelado formado fora do Sistema Solar.
O conjunto de informações apresentado na Nature aponta para um planetesimal antigo, preservado por bilhões de anos desde sua formação em outro sistema até sua passagem pela região observável do Sistema Solar.
O estudo ainda passa por etapa editorial final na Nature, que informou ter disponibilizado uma versão não editada do manuscrito para acesso antecipado às descobertas.
Mesmo nessa fase, os resultados já formam uma das análises mais detalhadas de um objeto interestelar e ajudam a comparar a química do Sistema Solar com a de ambientes planetários muito mais antigos.

