Trajetória de Belmiro Gomes reúne trabalho na infância, passagem por funções operacionais, entrada pela tecnologia e ascensão no atacarejo, em uma história marcada por adaptação, crescimento empresarial e decisões que mudaram o tamanho do Assaí no varejo brasileiro.
Belmiro Gomes, CEO do Assaí, saiu de trabalhos informais na infância e chegou ao comando de uma das maiores empresas do varejo alimentar do Brasil, depois de passar por funções operacionais, tecnologia e cargos de gestão no atacarejo.
Segundo entrevista publicada pela revista EXAME neste domingo (22), o executivo começou a trabalhar cedo por causa de uma doença do pai e, anos depois, assumiu uma companhia que registrava prejuízo próximo de R$ 70 milhões.
A virada empresarial ganhou força a partir de 2011, quando Gomes assumiu o comando do Assaí em um momento de perdas financeiras, operação menor e necessidade de escala em um mercado competitivo.
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Na época, segundo a entrevista, a rede faturava cerca de R$ 3 bilhões por ano e empregava aproximadamente 6 mil pessoas, número distante do porte alcançado nos anos seguintes.
Já em 2025, a companhia informou faturamento de R$ 84,7 bilhões, mais de 90 mil colaboradores e presença nacional, consolidando-se entre os principais grupos do varejo alimentar brasileiro.
Belmiro Gomes e o início da trajetória no Paraná
Nascido em Santo André, no ABC paulista, Belmiro Gomes se mudou ainda criança para Maringá, no Paraná, depois que a família enfrentou uma mudança brusca provocada pela doença do pai.
A necessidade de ajudar em casa levou o futuro executivo a assumir atividades distantes do ambiente corporativo, muito antes de ocupar salas de reunião e participar de decisões estratégicas no varejo.
Antes de chegar ao setor alimentar, ele carregou sacos de algodão, vendeu sorvetes nas ruas, tentou trabalhar como engraxate e circulou por bancos e cartórios como office boy.
A primeira vaga formal, com carteira assinada, veio em 1985, em uma função administrativa que exigia deslocamento constante, responsabilidade com documentos e contato direto com diferentes áreas das empresas.

Na entrevista à EXAME, Gomes atribuiu esse início precoce à situação familiar e lembrou que ele e a irmã precisaram trabalhar muito cedo para ajudar dentro de casa.
Ao recordar o período em que vendia sorvetes, o executivo contou que o trabalho parecia oferecer carro e comissão, mas o veículo era o carrinho que ele próprio precisava empurrar pelas ruas.
Entrada no atacarejo começou pela tecnologia
O contato de Gomes com o atacarejo não começou diretamente pelas lojas, mas pela tecnologia, em um período no qual a informática começava a ganhar espaço dentro das empresas brasileiras.
Depois de passar por uma rede de eletrodomésticos e por supermercados, ele se interessou por programação e encontrou nesse caminho uma porta de entrada para o setor.
No ano de 1988, Gomes entrou no Atacadão como programador de Cobol, linguagem usada em sistemas corporativos e comum em áreas administrativas e financeiras de grandes companhias.
A partir dessa função técnica, passou por diferentes áreas da empresa, incluindo digitação, finanças, vendas, compras, operação, gerência de loja e cargos de diretoria.
Essa circulação por setores diversos ajudou a formar uma visão operacional do negócio, algo que o próprio executivo relaciona ao aprendizado acumulado ao longo da carreira.
Ao falar sobre esse processo, Gomes resumiu parte da sua filosofia profissional em uma frase direta: “Sempre haverá algo novo para aprender.”
Assaí no prejuízo e a virada sob nova gestão
A mudança mais relevante da carreira ocorreu depois da venda do Atacadão ao Carrefour, em 2007, quando Gomes permaneceu na companhia por mais três anos.

Pouco depois, em 2010, recebeu o convite para assumir o Assaí, rede que ainda enfrentava prejuízo e precisava ganhar escala para competir com mais força no atacarejo brasileiro.
Ao chegar ao comando, em fevereiro de 2011, encontrou uma empresa com faturamento anual de aproximadamente R$ 3 bilhões, 6 mil funcionários e perdas próximas de R$ 70 milhões no ano anterior.
Com a nova gestão, a companhia passou a ampliar presença, fortalecer a operação e ganhar relevância em um segmento que cresceu com consumidores e pequenos comerciantes em busca de preços mais baixos.
Outro movimento importante ocorreu em 2021, quando o Assaí decidiu comprar 66 pontos comerciais do Extra por R$ 7 bilhões, em uma operação de grande impacto para a rede.
A aquisição ampliou a presença física da companhia, mas também veio antes de um ciclo de juros mais altos, que pressionou despesas financeiras e levou a empresa a rever o ritmo de investimentos.
Faturamento do Assaí chega a R$ 84,7 bilhões
Ao divulgar os resultados de 2025, em fevereiro de 2026, o Assaí informou faturamento de R$ 84,7 bilhões, alta de 5,2% sobre 2024, além de geração de caixa livre de R$ 2,8 bilhões.
No mesmo balanço, a companhia afirmou ter reduzido a dívida líquida em R$ 1,2 bilhão e encerrado o ano com alavancagem de 2,56 vezes.
Para 2026, a empresa disse que seguiria com disciplina de capital e crescimento seletivo, com previsão de abertura de 5 novas lojas no período.
A estratégia foi apresentada em meio a um ambiente de juros elevados, consumo pressionado e foco na redução da alavancagem, fatores que passaram a orientar as decisões de expansão.
Atualmente, a rede afirma ter mais de 300 lojas em 24 estados e no Distrito Federal, além de mais de 90 mil colaboradores em sua operação.
A companhia também informa que suas ações são negociadas na B3 sob o código ASAI3, sendo a única empresa de atacarejo listada na bolsa brasileira.
Resiliência e comunicação marcaram a carreira
Ao explicar os fatores que ajudaram na ascensão profissional, Belmiro Gomes destacou resiliência, curiosidade e capacidade de comunicação como características importantes para sua trajetória.
Na avaliação do executivo, a origem em uma família de menor renda contribuiu para manter a conexão com diferentes públicos, dentro e fora da empresa.
Essa capacidade de diálogo aparece associada à forma como Gomes descreve liderança, especialmente em um setor sensível a renda, crédito, inflação de alimentos e custo financeiro.
Durante a entrevista, ele afirmou que talento e experiência não bastam quando o cenário muda rapidamente e exige adaptação constante de empresas e profissionais.
A trajetória, portanto, não é apresentada pelo executivo como uma sequência linear de crescimento, mas como um percurso marcado por aprendizado, reação a imprevistos e leitura das mudanças do mercado.
Entre os primeiros trabalhos em Maringá e a fase de expansão do Assaí, Gomes manteve como eixo a ideia de adaptação, aplicada tanto à carreira pessoal quanto às decisões empresariais.

