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Na Argentina, a economia cresce no papel enquanto milhares de empresas fecham as portas: consumo fraco, indústria pressionada e importações revelam quem está ficando para trás na era Milei

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Escrito por Felipe Alves da Silva Publicado em 03/10/2026 às 13:39 Atualizado em 03/10/2026 às 13:40
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Enquanto milhares de empresas deixam os registros na Argentina, setores ligados à energia, mineração e agronegócio continuam impulsionando parte do crescimento econômico do país.
Enquanto milhares de empresas deixam os registros na Argentina, setores ligados à energia, mineração e agronegócio continuam impulsionando parte do crescimento econômico do país.
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Mais de 31 mil empresas desapareceram dos registros desde o início do atual governo, enquanto mineração, energia e agronegócio avançam e expõem uma economia que cresce em velocidades muito diferentes

A economia da Argentina vive um paradoxo que os grandes números não conseguem explicar sozinhos. O Produto Interno Bruto voltou a apresentar crescimento na comparação anual, a inflação caiu drasticamente em relação aos níveis encontrados no início do governo Javier Milei e setores ligados à exportação avançam. Ao mesmo tempo, mais de 31 mil empresas deixaram os registros, o emprego privado formal perdeu espaço e parte importante da indústria e do comércio enfrenta um cenário bem menos favorável.

Segundo levantamento citado pela BBC News Mundo, com base em informações do Centro de Economia Política Argentina (Cepa), 31.342 empresas fecharam desde que Milei assumiu o governo, em dezembro de 2023, até junho de 2026. O número equivale a aproximadamente 6% do universo considerado no levantamento.

O dado, por si só, poderia sugerir uma economia mergulhada em recessão. Mas é justamente aí que a história argentina se torna mais complexa.

Dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina, o Indec, mostram que o PIB do segundo trimestre de 2026 ficou 2% acima do registrado no mesmo período de 2025. Na comparação dessazonalizada com os três primeiros meses deste ano, porém, houve retração de 0,6%.

O primeiro semestre, portanto, terminou com crescimento na comparação anual, mas acompanhado de sinais claros de perda de força.

PIB cresce, mas nem todos os setores estão participando da recuperação

O desempenho argentino ajuda a explicar por que duas leituras aparentemente contraditórias conseguem conviver.

De um lado estão energia, petróleo e gás, mineração, agricultura e intermediação financeira, setores que vêm apresentando desempenho mais forte e possuem grande capacidade de gerar exportações e entrada de dólares.

Do outro aparecem segmentos muito mais dependentes do mercado interno, especialmente indústria e comércio.

O próprio Banco Central da República Argentina reconheceu essa diferença em seu Informe de Política Monetária referente ao segundo trimestre. Segundo a instituição, energia, agropecuária e intermediação financeira permaneceram entre os setores mais dinâmicos, enquanto indústria e comércio registraram quedas interanuais.

É essa diferença que alimenta a expressão usada por economistas argentinos: uma “economia de duas velocidades”.

Um país pode apresentar expansão do PIB mesmo enquanto milhares de empresas encerram as atividades. Isso acontece porque o PIB mede o valor agregado da economia inteira. Uma forte expansão de petróleo, gás, mineração ou agricultura pode compensar estatisticamente quedas registradas em outros segmentos.

Para quem observa apenas o número final do crescimento, a recuperação existe. Para uma pequena empresa que perdeu clientes, viu suas despesas aumentarem e passou a enfrentar novos concorrentes importados, a experiência pode ser completamente diferente.

O pequeno empresário que passou de cinco funcionários para nenhum negócio

A dimensão dessa diferença aparece na história de Alejandro Marchizotti, relatada pela BBC News Mundo.

Ele administrava uma hamburgueria chamada Hupa San Andrés. O negócio funcionava normalmente até que as vendas começaram a cair no início de 2024.

Primeiro vieram as dificuldades para pagar funcionários. Depois, empréstimos para manter a empresa funcionando. A estrutura encolheu.

Marchizotti contou que passou de cinco funcionários para apenas um.

Não foi suficiente.

A combinação entre menor movimento, custos de eletricidade e gás e despesas com aluguel acabou tornando a operação inviável. A hamburgueria fechou no fim de maio de 2026. Aos 63 anos, o antigo empresário passou a trabalhar como motorista de aplicativo.

A história individual ajuda a enxergar algo que uma estatística nacional não mostra: uma empresa pode desaparecer não porque o país inteiro esteja encolhendo, mas porque o dinheiro está circulando de maneira diferente entre setores e consumidores.

Menos consumo, tarifas maiores e mais importados

Economistas ouvidos pela BBC apontam uma combinação de fatores para explicar a pressão sofrida por parte das empresas argentinas.

Um deles é o consumo interno.

Quando famílias têm menor renda disponível ou reduzem compras para reorganizar o orçamento, bares, restaurantes, lojas e pequenos negócios sentem rapidamente o efeito.

Outro fator é o custo dos serviços públicos. A redução dos subsídios implementada durante o programa de ajuste elevou despesas como eletricidade e gás para famílias e empresas.

Há ainda uma transformação estrutural importante: a abertura maior da economia às importações.

Durante décadas, a Argentina protegeu parte significativa de sua indústria com barreiras à entrada de mercadorias estrangeiras. A mudança desse modelo colocou produtores locais diante de concorrentes externos capazes, em alguns casos, de colocar produtos no mercado argentino a preços inferiores.

Hernán Letcher, diretor do Cepa, resumiu à BBC a pressão enfrentada pelas empresas como uma combinação de consumo menor, salários reais pressionados, aumento das tarifas de serviços e maior concorrência das importações.

Para setores pouco competitivos ou dependentes quase integralmente do mercado doméstico, a adaptação pode significar redução de produção, demissões ou encerramento das atividades.

A indústria aparece no centro da pressão

Os dados mais recentes reforçam o sinal de alerta vindo das fábricas.

O Indec informou que o índice de produção industrial manufatureira caiu 5% em julho de 2026 na comparação correspondente divulgada pelo instituto. O estimador mensal da atividade econômica também registrou queda de 2,9% naquele mês.

A União Industrial Argentina tem reconhecido os avanços relacionados à estabilização macroeconômica, mas também vem alertando para as dificuldades enfrentadas pelo setor industrial, segundo a reportagem da BBC.

Entre os problemas apontados estão carga tributária elevada, financiamento caro e dificuldades para competir em uma economia mais aberta.

Esse detalhe é importante porque indústria e comércio possuem peso relevante na geração de empregos espalhados pelo território, enquanto atividades de alta produtividade e exportação podem aumentar fortemente sua produção sem necessariamente criar empregos na mesma proporção.

A questão, portanto, deixou de ser simplesmente saber se a Argentina cresce.

Passou a ser também onde esse crescimento acontece e que tipo de emprego ele produz.

Emprego aumenta em algumas estatísticas, mas o trabalho formal perde espaço

O mercado de trabalho argentino fornece talvez o exemplo mais claro dessa transformação.

No segundo trimestre de 2026, a taxa oficial de desemprego ficou em 7,9%, segundo o Indec.

Uma análise do próprio Banco Central mostra outra camada do problema. No primeiro trimestre, o emprego total havia avançado 1,7% na comparação anual, mas esse crescimento estava concentrado principalmente no trabalho autônomo e informal, enquanto o emprego privado formal apresentava contração de 4,1%.

O próprio Milei reconheceu publicamente essa mudança ao dizer, durante sua passagem por Nova York, que empregos estavam sendo criados no setor informal enquanto havia contração no setor formal. A avaliação do presidente é que, no resultado líquido, o emprego estaria se expandindo.

Esse movimento ajuda a entender por que números aparentemente positivos podem coexistir com insegurança econômica para parte das famílias.

Uma pessoa deixa de ocupar um posto formal e passa a trabalhar por conta própria. Estatisticamente, continua empregada. Do ponto de vista da renda, estabilidade e proteção trabalhista, porém, a mudança pode ser significativa.

Mais de 30 mil empresas fechadas: o próprio número está no centro de uma disputa

Existe também uma discussão sobre como interpretar as 31.342 empresas que deixaram os registros.

O levantamento utiliza dados da Superintendência de Riscos Ocupacionais e do sistema previdenciário porque não existe uma estatística oficial única dedicada exclusivamente a contar empresas abertas e fechadas no país, segundo a BBC.

Economistas críticos ao atual modelo veem o número como sinal de uma forte deterioração da estrutura empresarial, sobretudo entre pequenas e médias empresas.

Outros contestam essa leitura.

Miguel Boggiano, fundador da CDI Capital, afirmou à BBC que o número pode transmitir uma impressão exagerada porque muitas das empresas que desapareceram possuíam apenas um ou dois funcionários. Na visão do economista, a Argentina passa por uma transformação na qual setores exportadores e mais competitivos ganham importância enquanto atividades sustentadas pelo modelo econômico anterior perdem espaço.

São interpretações diferentes do mesmo fenômeno.

O fechamento de dezenas de milhares de empregadores é um dado. Se ele representa principalmente destruição produtiva ou uma reorganização necessária da economia é justamente um dos pontos centrais do debate argentino.

Energia, mineração e agronegócio puxam a outra Argentina

Enquanto pequenas empresas, comércio e parte da manufatura enfrentam dificuldades, existe outro lado dessa economia.

Vaca Muerta, uma das maiores formações de petróleo e gás não convencional do mundo, tornou-se peça central da estratégia de geração de divisas do país.

Mineração, lítio, minerais críticos e agricultura completam esse grupo de setores ligados mais diretamente ao mercado internacional.

O governo Milei aposta fortemente nessa frente, inclusive por meio de incentivos destinados a grandes investimentos.

O raciocínio econômico é claro: ampliar exportações, gerar dólares, estabilizar as contas externas e criar uma base produtiva que não dependa de emissão monetária para sustentar a atividade.

O Banco Central defende que a atual fase de expansão possui uma característica diferente de ciclos anteriores justamente por ser mais vinculada às exportações e ocorrer em um ambiente de equilíbrio fiscal e monetário. Essa é a interpretação institucional do BCRA sobre o programa econômico.

O desafio é saber quanto tempo levará para a expansão desses setores chegar ao restante da economia.

A inflação caiu fortemente — e isso também faz parte da história

Ignorar a melhora da inflação produziria uma fotografia incompleta da Argentina.

Quando Milei assumiu, o país enfrentava inflação anual superior a 200%. A taxa acumulada em 12 meses havia recuado para 33,5% em agosto de 2026, segundo os dados citados pela BBC e pela Agência Brasil.

Essa queda representa uma transformação relevante em uma economia que passou anos convivendo com reajustes permanentes e perda acelerada do valor da moeda.

É justamente por isso que o momento argentino não cabe facilmente em uma narrativa de sucesso ou fracasso absoluto.

A estabilização de preços avançou. Setores exportadores cresceram. O PIB permanece maior do que um ano antes.

Ao mesmo tempo, empresas desapareceram, o emprego formal privado perdeu espaço e segmentos importantes da indústria e do comércio continuam pressionados.

A grande questão para os próximos meses será verificar se a expansão de energia, mineração, agricultura e outros setores conseguirá transbordar para consumo, indústria e empregos formais, ou se a distância entre as duas velocidades da economia argentina continuará aumentando.

Os próximos indicadores de atividade, produção industrial, emprego e renda mostrarão qual dessas forças está ganhando terreno.

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Felipe Alves da Silva

Sou Felipe Alves, com experiência na produção de conteúdo sobre segurança nacional, geopolítica, tecnologia e temas estratégicos que impactam diretamente o cenário contemporâneo. Ao longo da minha trajetória, busco oferecer análises claras, confiáveis e atualizadas, voltadas a especialistas, entusiastas e profissionais da área de segurança e geopolítica. Meu compromisso é contribuir para uma compreensão acessível e qualificada dos desafios e transformações no campo estratégico global. Sugestões de pauta, dúvidas ou contato institucional: fa06279@gmail.com

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