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Motorista de caminhão com 40 anos de estrada revela o que ninguém quer ouvir: ‘prefiro que meu filho faça qualquer coisa, menos ser caminhoneiro’

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 24/11/2025 às 19:23
Atualizado em 24/11/2025 às 19:24
Caminhoneiro com 40 anos de estrada expõe riscos, pressão e desgaste da profissão de motorista de caminhão
Caminhoneiro com 40 anos de estrada expõe riscos, pressão e desgaste da profissão de motorista de caminhão
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Após quatro décadas enfrentando estradas perigosas, jornadas longas e renda instável, o caminhoneiro relata os sacrifícios e desgastes da profissão porque teme que a rotina atual não ofereça segurança nem futuro para a nova geração

O Brasil está diante de um apagão logístico cada vez mais próximo com a falta de motoristas de caminhão. Os números confirmam a gravidade do cenário: segundo dados apresentados no canal Vida de Estradeiro, o país perdeu 1.200.000 caminhoneiros em apenas 10 anos.

Em 2015, eram 5.600.000 motoristas habilitados nas categorias C e E. Hoje, esse número caiu para 4.400.000, uma redução de 22%.

A tendência é de queda contínua, porque a categoria envelheceu, muitos profissionais deixaram a estrada e as condições atuais afastam quem pensa em ingressar na profissão.

Ao percorrer estradas do país e conversar com motoristas em atividade, é possível entender exatamente por que essa evasão cresce.

O que se repete em praticamente todas as entrevistas é simples: falta valorização. Os motoristas afirmam que o dia a dia envolve jornadas extensas, infraestrutura precária, pouco respeito, baixa remuneração e uma rotina que compromete a convivência familiar.

Salário baixo, custos altos e uma conta que nunca fecha

O levantamento exibido pelo canal mostra que, para quem trabalha como empregado, a média salarial cresceu de R$ 2.291 no primeiro semestre de 2023 para R$ 2.436 no primeiro semestre de 2024, um aumento de 6,3%. No mesmo período, o salário mínimo subiu 8,2%. Na prática, o rendimento do caminhoneiro perdeu força.

Entre os autônomos, a média bruta fica em torno de R$ 10.000. No entanto, esse valor cai drasticamente quando considerados os custos com combustível, pedágios, manutenção, pneus, imprevistos mecânicos e despesas de viagem. Eles explicam que quase não sobra lucro real após os gastos obrigatórios da rotina.

Essa disparidade entre esforço, risco e remuneração aparece com força na fala de motoristas jovens e veteranos. Um deles descreveu o salário como insuficiente, afirmando que “a gente ganha pouco e enfrenta dificuldade em tudo”. Outro explica que só permanece porque nasceu na estrada e não sabe fazer outra coisa.

Jornadas longas e ausência de vida familiar

O modelo atual de comissionamento reforça um problema grave: a pressão para produzir. Muitos caminhoneiros recebem por produtividade, o que os empurra para jornadas longuíssimas, aumentando o risco de acidente, de desgaste físico e de perda de convivência familiar.

Alguns relatos são contundentes. Um motorista contou que já ficou 55 dias consecutivos longe de casa. Outro citou casos de colegas que chegaram a passar seis meses viajando, praticamente sem retorno ao lar.

A frase mais marcante, repetida por diferentes profissionais, resume esse impacto: “você entrou aqui, você perdeu a família”.

A rotina intensa também afeta a saúde mental, porque o motorista se vê sozinho por longos períodos, enfrentando pressão de prazos, riscos na estrada e falta de estrutura adequada.

Falta de infraestrutura e desrespeito constante

Entre os motivos que desestimulam novos profissionais, surgem problemas antigos que nunca foram resolvidos. Estradas esburacadas, postos de apoio insuficientes, falta de segurança e inexistência de condições mínimas para descansar tornam o trabalho ainda mais pesado.

Outro ponto recorrente é a relação com embarcadores e destinatários. Motoristas relatam que são cobrados por horários rígidos, enfrentam demora para carregar e descarregar e frequentemente são tratados sem respeito.

Muitos afirmam que “a carga vale mais do que o motorista”. Há também relatos de empresas que descartam o profissional caso não cumpra um prazo considerado impossível.

A cobrança excessiva, aliada à falta de suporte básico, cria um ambiente em que o caminhoneiro se sente abandonado. “A gente paga bem pago e ainda é tratado como se fosse cachorro”, relatou um deles.

Envelhecimento da categoria e menos jovens interessados

A média de idade do motorista brasileiro era de 38 anos em 2014. Hoje é de 46. O envelhecimento, somado à falta de atratividade da carreira, cria um ciclo perigoso: profissionais experientes deixam a estrada, enquanto os jovens não entram na profissão.

Essa combinação reforça a previsão de apagão logístico, porque o país depende dos caminhoneiros para todas as etapas da cadeia produtiva.

Como muitos entrevistados reforçam, tudo que chega às mãos do consumidor, do alimento ao medicamento, passa por um caminhão.

A história que resume o drama da profissão: 40 anos na boleia e um conselho aos filhos – não seja motorista de caminhão

Entre tantos relatos, um comentário publicado por um motorista aposentado chama a atenção e sintetiza décadas de dificuldades enfrentadas nas estradas brasileiras. Ele trabalhou 40 anos como carreteiro e, apesar da experiência e do orgulho pela trajetória, fez questão de alertar seus filhos para não seguirem o mesmo caminho.

O depoimento é direto: “Fui carreteiro por mais de 40 anos e tudo que aprendi na profissão foi pra não deixar meu filho seguir a minha profissão. Conversei com ele pra estudar, tanto ele como minha filha. Hoje dou graças a Deus por eles terem ouvido meus conselhos”.

Esse relato mostra que a decisão não se baseia em desapego à profissão, mas no desejo de oferecer um futuro com melhores condições.

Durante quatro décadas nas estradas, ele enfrentou os mesmos problemas descritos pelos motoristas atuais: jornadas longas, riscos constantes, desvalorização, ausência de infraestrutura e remuneração que não condizia com o esforço.

O conselho que deu aos filhos reflete uma realidade cada vez mais disseminada na categoria: muitos profissionais desejam que a próxima geração siga um caminho menos desgastante e com maior estabilidade. A fala dele ilustra a frustração coletiva de quem dedicou a vida inteira à profissão e não viu, ao longo dos anos, avanços suficientes para torná-la mais justa e humana.

Uma crise anunciada que afeta toda a sociedade

Os depoimentos recolhidos nas estradas mostram que, se nada mudar, o apagão logístico sairá do campo da previsão e se tornará realidade. Insegurança, risco de assalto, mau estado das rodovias, falta de locais adequados para descanso e desrespeito generalizado criam um ambiente que afasta novos profissionais e pressiona os veteranos a abandonar a boleia.

Os caminhoneiros alertam que seus direitos não estão incluídos nas políticas de ESG tão defendidas por grandes empresas. Muitos dizem que embarcadores e contratantes priorizam a carga, ignoram o motorista e não oferecem estrutura mínima para recebê-lo.

O que precisa mudar

A solução exige ação conjunta. Governo, transportadoras, embarcadores, associações e sociedade precisam discutir melhorias reais, desde infraestrutura até remuneração justa.

É necessário rever a política de produtividade, garantir pontos de apoio adequados aos motoristas de caminhão, ampliar a segurança e implementar programas que valorizem os profissionais que mantêm o país funcionando.

Sem isso, cada vez mais histórias como a do carreteiro de 40 anos se repetirão, reforçando o desejo de que filhos e netos não entrem na profissão. Enquanto essa realidade persistir, o apagão logístico continuará se aproximando, silencioso e inevitável, ameaçando toda a cadeia de abastecimento.

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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