Tragédia marítima de 1888 é desvendada em 2024 por mergulhador britânico que encontrou louça com brasão da Cunard; SS Nantes afundou com 23 tripulantes após colisão no Canal da Mancha
Após mais de um século submerso e envolto em mistério, o navio SS Nantes, que afundou em 1888 com 23 tripulantes a bordo, finalmente teve seu paradeiro confirmado em 2024. A incrível descoberta foi realizada pelo mergulhador britânico Dom Robinson, que encontrou no fundo do Canal da Mancha, próximo à costa de Plymouth, um fragmento de louça com o emblema da Cunard Steamship Company.
De acordo com reportagens da BBC, o achado foi decisivo para a identificação do naufrágio. A embarcação, dada como perdida por quase 136 anos, foi localizada a cerca de 75 metros de profundidade. A descoberta reacendeu o interesse por um dos acidentes navais mais trágicos do final do século XIX e revelou detalhes inéditos sobre as condições do naufrágio e o esforço desesperado da tripulação para salvar o navio.

A tragédia de 1888: colisão e perda total
O SS Nantes era um cargueiro de 14 anos de operação, pertencente à Cunard Steamship Company, quando partiu em novembro de 1888 e colidiu com o veleiro alemão Theodor Ruger em condições climáticas adversas. A colisão abriu um buraco enorme no casco do Nantes, colocando a embarcação à beira do naufrágio.
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Segundo o historiador Dr. Harry Bennett, da Universidade de Plymouth, a tripulação lutou por horas para conter a água, usando colchões para tentar selar a abertura no casco. No entanto, o esforço foi em vão. O navio acabou afundando rapidamente, e apenas três tripulantes conseguiram sobreviver.
A tragédia comoveu moradores locais, especialmente em Cornwall, onde corpos e destroços foram encontrados em praias como Talland Bay e Looe. O impacto foi tão grande que a tragédia passou a fazer parte da memória coletiva da região.
Os botes salva-vidas do Nantes foram destruídos na colisão, o que impediu a maioria da tripulação de escapar. Em contraste, o Theodor Ruger também afundou, mas sua tripulação conseguiu abandonar a embarcação a tempo e foi resgatada.
Com a ausência de tecnologias modernas, como GPS ou sonar, o naufrágio foi considerado “perdido” por décadas. Relatos fragmentados, marés fortes e a falta de registros precisos tornaram o resgate e a localização praticamente impossíveis na época.
O SS Nantes ficou assim congelado no tempo, silencioso no fundo do mar, aguardando por alguém que estivesse disposto a juntar as peças de um quebra-cabeça centenário.

O mergulho que mudou tudo
O responsável por essa descoberta foi Dom Robinson, mergulhador profissional e criador do canal Deep Wreck Diver no YouTube. Com mais de 35 anos de experiência, Robinson recebeu informações da UK Hydrographic Office sobre uma estrutura não identificada no fundo do Canal da Mancha, a cerca de 48 km a sudeste de Plymouth.
Em uma das expedições de 2024, ao final de um mergulho aparentemente infrutífero, Robinson encontrou um fragmento de prato de cerâmica. Ao analisar o objeto em terra firme, identificou o símbolo da Cunard Steamship Company estampado no verso — uma pista que mudaria tudo.
A identificação do naufrágio foi consolidada com um segundo mergulho, onde foi encontrado outro prato com o mesmo brasão, confirmando que a embarcação era realmente o SS Nantes. A descoberta foi validada também pelas dimensões do navio, seu tipo de construção, vestígios da tecnologia a bordo e a natureza da carga encontrada.
Dr. Bennett descreveu o feito como “o equivalente arqueológico subaquático de encontrar uma agulha no palheiro”. Ele também destacou o “trabalho metodológico e minucioso” feito por Robinson e sua equipe.
O mergulhador descreveu a experiência como emocionante e impactante, mencionando o fato de que o prato encontrado pode ter sido usado durante a última refeição de um tripulante, antes do naufrágio.
Cada naufrágio, como destacou Bennett, funciona como uma cápsula do tempo, conservando evidências da vida a bordo e dos últimos momentos de uma tragédia esquecida.
História preservada e o valor dos naufrágios
O redescobrimento do SS Nantes reacende o debate sobre a importância de preservar naufrágios históricos. Além de sua relevância arqueológica, esses locais oferecem um mergulho literal no passado, conectando as gerações atuais com histórias trágicas, heroicas e humanas.
A identificação do SS Nantes trouxe também um senso de homenagem e justiça histórica. Para Robinson, contar essas histórias é garantir que os mortos não sejam esquecidos. Sua motivação é justamente dar voz ao silêncio do fundo do mar, revelando segredos perdidos sob a pressão e o sal.
Segundo a CNN, a profundidade de 75 metros torna o local acessível apenas a mergulhadores técnicos, o que contribui para sua preservação. No entanto, a digitalização de artefatos, fotos subaquáticas e registros compartilhados pela equipe de Robinson permitem que o público tenha acesso à história.
A tecnologia, aliada à paixão de exploradores como Robinson, mostra que ainda existem mistérios a serem resolvidos, mesmo em um mundo cada vez mais mapeado e monitorado. O fundo do mar continua sendo uma última fronteira de descoberta, especialmente no Reino Unido, que concentra milhares de naufrágios ao longo de sua costa.
O SS Nantes agora se junta a outras descobertas emblemáticas da arqueologia subaquática, lembrando que cada objeto, cada casco corroído, e até mesmo um prato quebrado podem contar histórias esquecidas de coragem e perda.

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