Pessoas foram presas em Fortaleza por suspeita de fraude em concurso da Polícia Civil, com mini celular, ponto eletrônico e outros aparelhos eletrônicos
Um “chiado” no meio da prova, um lacre violado e mensagens no WhatsApp: foi assim que a história começou. Não foi denúncia anônima nem “sorte do acaso”. A tentativa de fraude no concurso da polícia civil do Ceará apareceu em detalhes bem concretos: comportamento estranho, barulho de interferência, equipamento escondido e celular ligado onde não podia.
Quando a polícia juntou as peças, quatro pessoas acabaram presas em Fortaleza — e os aparelhos eletrônicos apreendidos ajudaram a revelar a ligação entre elas.
O que foi encontrado com o grupo
A investigação apontou uso de ponto eletrônico, transmissor e até mini celular, além de celulares e chips, tudo para tentar receber informações durante a prova.
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E um detalhe importante: os quatro envolvidos são de Juazeiro do Norte, no Cariri cearense.
1) Primeiro preso: Jaime, o lacre rompido e o WhatsApp aberto
O primeiro capturado foi Jaime de Mendonça e Silva Neto. Ele fazia a prova na Universidade Estadual do Ceará (Uece), no bairro Itaperi.
Segundo as informações do caso, ele foi detido com um ponto eletrônico no ouvido. Também estava com dois celulares — um deles em versão “mini celular” — e ambos estavam ligados, com o WhatsApp aberto, sugerindo conversa com outra pessoa durante a prova.
Outro ponto que chamou atenção: Jaime rompeu o lacre do saco plástico onde os candidatos deveriam guardar os objetos pessoais durante o exame.
2) Raphaely: ponto eletrônico no ouvido e transmissor
Logo depois, foi presa a enfermeira Raphaely Leandro da Fonseca. Ela fazia prova no anexo do Instituto Federal de Educação (IFCE), no bairro Benfica, quando a polícia foi acionada para averiguar a conduta dela.
Com Raphaely, foram encontrados um ponto eletrônico (no ouvido) e um transmissor. Ao ser questionada se conhecia Jaime, ela preferiu ficar em silêncio.

3) Cícero: o “chiado” que entregou o ponto eletrônico
O advogado Cícero Leandro dos Santos Belém foi descoberto de um jeito bem direto: um fiscal passou perto e ouviu um barulho parecido com chiado enquanto ele fazia a prova na Universidade Federal do Ceará (UFC), no campus do Pici.
A polícia foi acionada e conseguiu capturar Cícero ainda dentro do campus. Na abordagem, ele tentou descartar num lixo um papel com um número de telefone anotado. Depois, a polícia identificou que o número era do médico Robson Leite Sampaio.
E tem mais: Robson chegou a ligar para Cícero quando o advogado já estava preso.
4) Robson: suspeita como “agente externo” e carro rodando perto dos locais de prova
Com o avanço das apurações, a polícia recebeu a informação de que o médico Robson Leite Sampaio, marido de Raphaely, também estaria envolvido.
A equipe identificou que Robson estava em uma caminhonete trafegando pelas imediações dos locais de prova. Em versões divulgadas sobre o caso, ele apareceu como alguém que não estava fazendo a prova, mas que poderia atuar como suporte externo do grupo.
Em depoimento, Robson negou participação na fraude, mas disse que a esposa dele conhecia a esposa de Jaime. Mesmo assim, a polícia apontou ligação entre os investigados e solicitou à Justiça a quebra de sigilo dos aparelhos telefônicospara aprofundar as investigações.
Audiência de custódia: liberdade com fiança e medidas cautelares
Os quatro suspeitos passaram por audiência de custódia na segunda-feira (4). O Juízo da Vara de Custódia da Comarca de Fortaleza concedeu liberdade mediante pagamento de fiança.
Além disso, eles ficaram obrigados a:
- não se ausentar da comarca onde residem por mais de oito dias sem informar onde podem ser encontrados;
- comunicar eventual mudança de endereço;
- comparecer a todos os atos processuais quando intimados.
O que dizem os suspeitos sobre mini celular, aparelhos eletrônicos, mensagens no WhatsApp
O g1 tentou contato com a defesa de Jaime de Mendonça e Cícero Leandro, mas não recebeu resposta até a publicação da reportagem.
A defesa de Robson e Raphaely divulgou a nota abaixo (mantida integralmente):
“Em resposta às notícias veiculadas acerca dos eventos ocorridos durante o concurso da Polícia Civil do Ceará no último domingo, 03 de agosto, a defesa do médico Dr. Robson Leite Sampaio e de sua esposa, a enfermeira Raphaely Leandro da Fonseca, vem a público esclarecer que a versão dos fatos apresentada até o momento é preliminar, incompleta e não reflete a realidade do que ocorreu. Dr. Robson Sampaio e a Sra. Raphaely da Fonseca são profissionais respeitados em suas comunidades, pais de dois filhos pequenos, e jamais tiveram qualquer envolvimento em atividades ilícitas. As acusações que pesam contra eles são baseadas em interpretações equivocadas e em uma frágil teia de circunstâncias que a defesa demonstrará serem infundadas. É fundamental ressaltar que, em audiência de custódia realizada em 04 de agosto, o Poder Judiciário, após analisar os elementos iniciais da investigação, determinou a imediata liberação de ambos, reconhecendo que não há fundamentos que justifiquem a manutenção de suas prisões. Esta decisão judicial reforça a necessidade de cautela e serenidade na avaliação do caso. A defesa confia plenamente na Justiça e reitera que todos os fatos serão devidamente esclarecidos no foro apropriado, que é o processo judicial. Durante a instrução criminal, quando a defesa terá a oportunidade de apresentar provas e contestações, a verdade virá à tona e a inocência de Dr. Robson Sampaio e da Sra. Raphaely da Fonseca será comprovada. Até lá, apelamos para que a presunção de inocência, um pilar fundamental do nosso Estado de Direito, seja integralmente respeitada”.
Fraude em concurso no Brasil: celular e outros aparelhos eletrônicos seguem no radar
Esse tipo de tentativa não é novidade e continua sendo foco de operações. Em 8 de dezembro de 2025, por exemplo, a própria Polícia Civil do Ceará (PCCE) divulgou a prisão em flagrante de seis pessoas suspeitas de fraudar concurso em Tauá, com apreensão de ponto eletrônico, anotações, smartwatches e celulares.
A SSPDS também reforça canais oficiais para denúncias, como o 181 (Disque-Denúncia) e um número de WhatsApp para envio de informações.
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