Produção ambiciosa transforma trajetória lendária em narrativa superficial ao apostar em uma fórmula previsível, evitar polêmicas delicadas e deixar lacunas importantes na história de um dos maiores artistas da música mundial, levantando questionamentos inevitáveis sobre tudo aquilo que ficou de fora da cinebiografia
A cinebiografia de Michael Jackson dirigida por Antoine Fuqua chega cercada de expectativa, mas rapidamente revela uma abordagem que privilegia estética e conveniência em detrimento da profundidade. Com duração de 127 minutos, o longa se apresenta quase como uma sequência de clipes interligados, reunindo praticamente todos os clichês típicos de filmes sobre música: sessões de gravação com produtores impressionados, viagens em ônibus de turnê, ascensão nos rankings e reuniões com executivos corporativos.
A informação foi divulgada por “The Guardian”, que destacou, conforme análise crítica, o caráter superficial da produção e a dificuldade do filme em explorar aspectos mais complexos da vida do artista. Nesse sentido, o longa percorre rapidamente desde os tempos do Jackson Five, quando Michael era ainda uma criança submetida ao rígido controle do pai Joe Jackson, até o auge de sua carreira solo, culminando no grandioso show no Wembley Stadium em 1988, quando o cantor tinha apenas 30 anos.
No entanto, apesar dessa linha do tempo aparentemente completa, a narrativa termina de forma abrupta com a frase “The story continues”, sugerindo uma possível continuação. Esse detalhe levanta especulações sobre um eventual “Michael 2”, que, segundo relatos, estaria sendo considerado pelo produtor Graham King em parceria com o espólio da família Jackson. Ainda assim, caso essa sequência se concretize, será necessário um estilo completamente diferente para abordar os momentos mais controversos da vida do artista.
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Além disso, o filme apresenta Jaafar Jackson, sobrinho de Michael e filho de Jermaine Jackson, no papel principal. O ator, de 29 anos, entrega uma performance convincente nos palcos, reproduzindo com precisão os movimentos e o estilo vocal icônico do cantor. Inclusive, as cenas musicais conseguem transmitir parte da energia que consagrou Michael mundialmente.
Por outro lado, quando a narrativa se afasta dos palcos, surgem as principais fragilidades da produção. O Michael retratado fora dos holofotes é apresentado de maneira excessivamente simplificada, com uma personalidade quase infantil, marcada por sorrisos constantes e pouca profundidade emocional. Consequentemente, o filme deixa de explorar as complexidades psicológicas e os conflitos internos do artista.
Outro ponto que chama atenção é o tratamento dado aos personagens secundários. Com exceção de Joe Jackson, interpretado por Colman Domingo, que assume o papel de antagonista com intensidade, a maioria dos coadjuvantes tem participação praticamente silenciosa. Nia Long, como Katherine Jackson, apresenta uma atuação limitada por um roteiro pouco desenvolvido, enquanto outros membros da família aparecem de forma quase decorativa.
Da mesma forma, figuras importantes na carreira de Michael, como Quincy Jones, interpretado por Kendrick Sampson, recebem pouco destaque. Em contraste, personagens como o segurança Bill Bray ganham uma atenção desproporcional, o que levanta questionamentos sobre as escolhas narrativas do roteiro.
Ainda assim, há momentos pontuais que conseguem se destacar. Um exemplo é a recriação da produção do clipe “Thriller”, em que Michael interage com o diretor John Landis de forma leve e até bem-humorada. Curiosamente, essa sequência curta consegue transmitir mais autenticidade e energia do que grande parte do filme.
Entretanto, o maior problema da obra está na sua recusa em abordar temas mais delicados. O longa evita aprofundar o impacto dos abusos sofridos por Michael na infância, bem como ignora completamente as controvérsias que marcaram sua vida adulta, incluindo comportamentos considerados estranhos e acusações graves. Dessa forma, a narrativa se mantém em uma zona segura, mas perde relevância e credibilidade.
Consequentemente, o resultado é um filme que mais se aproxima de um entretenimento superficial, comparável a um espetáculo de cruzeiro, do que de uma análise biográfica consistente. Apesar do potencial dramático e histórico da trajetória de Michael Jackson, a produção opta por uma abordagem polida, que agrada visualmente, mas falha em provocar reflexão.

