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Médico de 75 anos que trocou o consultório pela fazenda recusa proposta de “qualquer preço que você quiser” feita por empresa da Fortune 100 para instalar um data center de IA em sua propriedade e declara: “Não existe esse número”

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 27/02/2026 às 06:32
Atualizado em 27/02/2026 às 09:38
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Médico de 75 anos que trocou o consultório pela fazenda recusa proposta de “qualquer preço que você quiser” feita por empresa da Fortune 100 para instalar um data center de IA em sua propriedade e declara: “Não existe esse número”
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Médico de 75 anos recusa oferta de US$ 10 milhões e proposta em branco para vender fazenda de 250 acres no Kentucky a grupo interessado em construir data center de IA

Em março de 2025, três homens sentaram à mesa com Timothy Grosser e seu filho Andy em Mason County, Kentucky, com uma proposta de US$ 10 milhões pela fazenda de 250 acres que os dois constroem juntos há quase quatro décadas. O valor era 35 vezes superior ao que Timothy pagou pelo terreno em 1988. Mas havia um detalhe que os representantes se recusavam a revelar: quem estava por trás da oferta e qual empreendimento seria instalado ali. Quando Timothy disse não, os homens retornaram com uma proposta ainda mais incomum. Desta vez, sem valor fixo.

“Então eles disseram: ‘Você pode escrever o preço que quiser'”, Grosser relatou. “Eu disse que não estamos interessados.”

Ao jornal The Guardian, foi ainda mais direto: “Não existe número.”

De médico de família a produtor rural no Kentucky

Timothy Grosser não nasceu fazendeiro. Durante décadas, atuou como médico de família no centro de Maysville, Kentucky, atendendo pacientes da região. Seu filho Andy seguiu outra carreira — é engenheiro na fábrica da Mitsubishi Electric local.

Foi Timothy quem comprou os 250 acres às margens do rio Ohio no fim dos anos 1980, inicialmente para caça recreativa. Com o tempo, pai e filho aprenderam juntos a criar gado, começaram com 10 cabeças e hoje mantêm cerca de 40. Andy construiu a própria casa dentro da propriedade. O neto de Timothy percorre horas de estrada para caçar cervo e peru na área.

“É um lugar de paz”, disse Timothy, descrevendo o cheiro de feno recém-cortado. “A gente corta, deixa secar, passa o rastelo, enrola e guarda para alimentar o gado no inverno.”

Não se trata de uma fazenda cenográfica. É um território moldado por trabalho contínuo, decisão deliberada e três gerações que atribuem àquela terra um valor que não se mede apenas em dólares.

A abordagem sigilosa da Fortune 100 e o acordo de confidencialidade

O encontro seguiu um padrão cada vez mais comum na expansão da infraestrutura de inteligência artificial nos Estados Unidos. Os representantes afirmaram agir em nome de uma empresa classificada como “Fortune 100” — uma das 100 maiores corporações do mundo, interessada na aquisição da área para um desenvolvimento industrial não especificado.

Para obter detalhes do projeto tipo de instalação, prazo, impacto ambiental ou consumo energético — Timothy e Andy precisariam assinar um acordo de não divulgação (NDA). O contrato os impediria de compartilhar informações com terceiros.

“Nós nos recusamos a assinar”, disse Timothy. “Não vou vender minha fazenda por nenhuma quantia.”

Meses depois, autoridades locais confirmaram publicamente que Mason County estava sendo avaliada como possível sede de um data center de hiperescala com investimento estimado em mais de US$ 1 bilhão, vinculado a uma empresa Fortune 100 do setor de tecnologia.

Energia e água: por que Mason County virou alvo de data centers de IA

A localização não é aleatória. A poucos quilômetros da propriedade dos Grosser está o Rio Ohio e a usina termelétrica H.L. Spurlock, operada pela East Kentucky Power Cooperative, com capacidade de 1.346 megawatts e em processo de conversão parcial para gás natural.

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Grandes volumes de água para resfriamento e alta disponibilidade energética tornam a região estratégica para data centers de inteligência artificial, que operam 24 horas por dia com sistemas intensivos de refrigeração, backup e transmissão.

“Virar uma ilha”: o temor de isolamento rural em meio à infraestrutura digital

A preocupação de Timothy não é apenas perder a fazenda. É o cenário posterior.

“O que me preocupa mais é que o projeto avance e a gente vire uma ilha”, afirmou.

Se propriedades vizinhas forem vendidas, a fazenda poderá ficar cercada por galpões industriais, sistemas de resfriamento e subestações elétricas. Andy reforçou a inquietação: “Não sei se vamos continuar tendo a vista dessa crista e da paisagem à nossa frente.”

Em condados como Loudoun County, na Virgínia — considerado o maior polo de data centers do mundo — moradores relatam ruído constante proveniente de geradores e sistemas de ventilação.

A falta de transparência na expansão dos data centers de inteligência artificial

O caso evidencia um padrão mais amplo. Investigação da NBC News analisou mais de 30 propostas de data centers em 14 estados e constatou que autoridades locais frequentemente assinam acordos de confidencialidade com empresas intermediárias, muitas vezes estruturadas para ocultar os reais investidores.

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Em Mason County, autoridades do condado também assinaram NDAs, impedindo divulgação do nome da empresa aos moradores.

“Se querem ser bons vizinhos, mostrem quem são”, disse Max Moran, que organizou resistência local ao projeto.

O movimento “We Are Mason County” reuniu quase mil membros online e passou a monitorar cada etapa das negociações.

A corrida bilionária por terras rurais nos EUA

A expansão da infraestrutura de IA elevou os valores das terras rurais a níveis inéditos. Na Virgínia, um investidor pagou US$ 615 milhões por menos de 100 acres em 2024. A Amazon desembolsou US$ 700 milhões por outra área agrícola na mesma região. Na Geórgia, um terreno adquirido por US$ 4 milhões foi revendido por US$ 270 milhões um ano depois.

Outros proprietários também recusaram propostas milionárias. Na Pensilvânia, um agricultor de 86 anos rejeitou US$ 15,7 milhões. No Wisconsin, outro recusou US$ 80 milhões.

Mas o caso de Grosser se destaca pela proposta em branco, a disposição da empresa em pagar qualquer valor. A resposta continuou sendo não.

“O dinheiro não vale abrir mão do seu estilo de vida”, afirmou.

O cálculo que modelos financeiros não fazem

Timothy não é um produtor rural que desconhece o mercado. É um médico treinado para analisar riscos, avaliar consequências e tomar decisões complexas.

Ao avaliar a venda, ele considera variáveis que não entram nos relatórios de valuation corporativo: continuidade familiar, identidade territorial, preservação de modo de vida.

A socióloga rural Mary Hendrickson observa que muitos proprietários veem a manutenção da terra como compromisso intergeracional.

Em Kentucky, Timothy continua dirigindo o caminhão pela pastagem, cortando o feno, armazenando para o inverno e aguardando o neto para a temporada de caça.

A proposta em branco permanece sem resposta porque, segundo ele, realmente não existe número que preencha aquela linha.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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