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Material visto como coisa de pobre volta como aposta climática, com barro vermelho substituindo parte do concreto cinza em prédios modernos, hospitais, casas e centro cultural que transforma tradição em solução contra calor urbano

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 16/05/2026 às 16:13
Atualizado em 16/05/2026 às 16:15
Assista o vídeoMaterial de terra volta à África com barro vermelho no Goethe-Institut, desafiando concreto cinza em cidades quentes e projetos modernos sustentáveis.
Material de terra volta à África com barro vermelho no Goethe-Institut, desafiando concreto cinza em cidades quentes e projetos modernos sustentáveis.
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Documentário da DW acompanha Francis Kéré, Worofila e Elementerre no Senegal, onde material de terra ganha forma em tijolos de barro vermelho, reduz dependência do concreto cinza e reacende debate sobre arquitetura bioclimática, calor urbano, custo, tradição, escala e futuro das cidades africanas em rápido crescimento até 2026 no continente.

O material que por décadas foi associado à pobreza na construção africana voltou ao centro do debate arquitetônico em 2026 no documentário “A Matéria Vermelha e a Matéria Cinzenta”, da DW História e Cultura. A produção acompanha o novo Goethe-Institut em Dakar, projetado por Diébédo Francis Kéré, primeiro arquiteto da África Subsaariana a receber o Prêmio Pritzker.

A mudança acontece porque cidades como Dakar e Accra crescem sob calor intenso, falta de infraestrutura, pressão habitacional e expansão do concreto cinza. Em resposta, arquitetos como Nzinga Mboup, Nicolas Rondet, do escritório Worofila, e o engenheiro Amadou Doudou Deme, da Elementerre, retomam o barro vermelho como solução técnica, climática e cultural. O que parecia atraso virou disputa pelo futuro das cidades africanas.

Barro vermelho deixa de ser símbolo de pobreza e volta como tecnologia climática

Material de terra volta à África com barro vermelho no Goethe-Institut, desafiando concreto cinza em cidades quentes e projetos modernos sustentáveis.

O barro vermelho usado no Senegal vem da laterita, solo abundante na África Ocidental, marcado pela presença de óxidos que dão sua cor característica. Esse material pode ser extraído localmente, misturado com areia e pequenas quantidades de cimento, prensado em tijolos e usado em edifícios modernos.

A virada está na percepção. Durante muito tempo, construir com terra foi visto como sinal de falta de recursos. Doudou Deme, fundador da Elementerre, tenta inverter essa leitura há 15 anos. A tese dele é direta: a terra não é um material pobre; pobre é desperdiçar energia em prédios quentes que depois dependem de ar-condicionado.

Goethe-Institut em Dakar virou vitrine de uma nova arquitetura africana

Material de terra volta à África com barro vermelho no Goethe-Institut, desafiando concreto cinza em cidades quentes e projetos modernos sustentáveis.

O novo Goethe-Institut em Dakar foi pensado como centro cultural, espaço de encontro, educação e cooperação internacional. Francis Kéré escolheu usar terra estabilizada e tijolos produzidos localmente para dar ao edifício uma conexão direta com a África Ocidental.

O projeto ganhou peso simbólico porque uma instituição alemã no Senegal decidiu erguer sua sede com barro vermelho, e não apenas com concreto cinza. A mensagem arquitetônica é forte: tradição local pode entrar no prédio institucional sem parecer improviso, nostalgia ou solução de segunda classe.

Francis Kéré transformou conhecimento tradicional em linguagem contemporânea

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Francis Kéré nasceu em Burkina Faso e construiu sua carreira entre África, Europa e Estados Unidos. Seu trabalho ficou conhecido por recuperar técnicas locais, envolver comunidades e usar soluções simples de ventilação, sombra e massa térmica.

A escola primária de Gando, em Burkina Faso, é um dos exemplos mais citados dessa trajetória. Ali, tijolos de terra, ventilação natural e áreas sombreadas foram usados para criar conforto em salas de aula. Kéré não tenta copiar a arquitetura tradicional; ele atualiza esse conhecimento para responder ao calor, ao custo e à falta de infraestrutura.

Worofila leva arquitetura bioclimática para casas e prédios em Dakar

Em Dakar, Nzinga Mboup e Nicolas Rondet conduzem o escritório Worofila com foco em arquitetura bioclimática. O objetivo é projetar edifícios que funcionem melhor no clima local, usando ventilação cruzada, pátios internos, sombra, materiais regionais e menos dependência de sistemas mecânicos.

Um prédio de cinco andares no bairro de Ngor, construído com tijolos de barro, mostra essa proposta em escala urbana. A fachada cria sombra e os pátios internos levam ar e luz aos ambientes. O edifício prova que o barro vermelho não precisa ficar restrito a casas rurais ou construções pequenas.

Elementerre tenta tirar o tijolo de barro do nicho

A Elementerre, empresa de Doudou Deme, produz tijolos de barro comprimido em Gandigal, no interior da região metropolitana de Dakar. Com prensas manuais, a produção pode chegar a 1.000 tijolos por dia; com prensas hidráulicas, a capacidade sobe e permite reduzir a proporção de cimento usada na estabilização.

Esse detalhe é importante porque o próprio tijolo de terra pode conter cimento em alguma medida. Ao reduzir essa quantidade, a empresa tenta tornar o material ainda mais coerente com a proposta climática. A ambição é substituir parte do concreto cinza sem criar uma nova dependência escondida dentro do tijolo vermelho.

Concreto cinza segue dominante porque virou símbolo social e econômico

O documentário também mostra por que o concreto cinza domina tantas cidades africanas. A pesquisadora Armelle Choplin, baseada em Genebra, analisa como cimento e concreto passaram de símbolos coloniais e ocidentais para produtos cotidianos, ligados à ideia de permanência, segurança e ascensão social.

Em muitas cidades da África Ocidental, construir com cimento significa afirmar posse, estabilidade e direito de permanecer. Casas são erguidas aos poucos, saco por saco, conforme a renda permite. O concreto cinza não é apenas um material de obra; ele virou linguagem social de conquista e sobrevivência urbana.

Custo climático do cimento pressiona cidades em crescimento acelerado

O problema é que não existe concreto sem cimento, e a produção de cimento está associada a uma parcela relevante das emissões globais de gases de efeito estufa. Além disso, a extração de areia para construção ameaça litorais e ecossistemas, especialmente quando ocorre de forma ilegal ou predatória.

Esse cenário pesa em cidades que crescem rapidamente. Dakar, Accra e o corredor urbano entre Lagos e Abidjan enfrentam expansão demográfica, déficit habitacional e calor crescente. Se a urbanização africana repetir apenas o modelo do concreto cinza, o custo climático pode ser imenso.

Lesley Lokko colocou a África no centro da Bienal de Veneza

A arquiteta e escritora Lesley Lokko, ganesa-escocesa, fundou o African Futures Institute em Accra em 2021 e foi curadora da Bienal de Arquitetura de Veneza em 2023. Ela levou à mostra quase 90 arquitetos e artistas, com forte presença da África e da diáspora africana.

A escolha ajudou a mudar a vitrine internacional. Em vez de tratar a África como periferia da arquitetura, Lokko colocou o continente como laboratório do futuro. A discussão deixou de ser apenas estética e passou a envolver clima, urbanização, colonialismo, educação, escala e soberania construtiva.

Material de terra também aparece em hospitais e edifícios comerciais

A retomada do material de terra não fica limitada a centros culturais. O arquiteto David Adjaye, radicado em Accra depois de carreira internacional, trabalha com soluções híbridas em argila e concreto, incluindo hospitais regionais em Gana e projetos comerciais.

Essas experiências indicam uma etapa mais difícil: sair da casa experimental e entrar em programas públicos, comerciais e institucionais. O desafio já não é provar que o barro vermelho funciona; é mostrar que ele pode ganhar escala, orçamento, licenciamento e confiança política.

Mariam Issoufou defende a terra como lógica, não folclore

A arquiteta Mariam Issoufou, do Níger, também aparece no debate com uma posição pragmática. Para ela, o valor da terra não está apenas na identidade cultural, mas na massa térmica, no conforto interno, na economia de energia e na saúde dos ambientes.

Projetos em Dandaji e Niamey mostram como o material pode ganhar formas contemporâneas, com mercados, mesquitas, habitações e escritórios. A tradição entra como base, mas o argumento principal é técnico: se o clima é quente, o edifício precisa trabalhar com o calor, não contra ele.

Typha amplia o repertório de materiais locais

No Senegal, outro elemento entra na discussão: a Typha, uma planta invasora de junco do delta do rio Senegal. Usada em isolamento, telhados e painéis de barro, ela pode ajudar a criar ambientes internos mais frescos e ainda aproveitar uma biomassa local abundante.

Doudou Deme e outros construtores veem nesse uso uma forma de ampliar o repertório da construção sustentável. A Typha filtra água, armazena carbono e pode virar componente de paredes e coberturas. A lógica é transformar problema ambiental em insumo de construção.

Construção híbrida mostra que o barro não elimina o concreto

O novo Goethe-Institut de Dakar não abandona totalmente o concreto. O projeto usa uma solução híbrida porque há cargas estruturais e exigências técnicas que ainda demandam concreto armado em determinados pontos.

Essa ressalva torna a discussão mais séria. A proposta não é trocar todo material moderno por terra de forma romântica. O caminho realista é combinar barro vermelho, concreto, madeira, sombra, ventilação e engenharia para reduzir impacto sem comprometer segurança.

Conhecimento perdido volta como resposta ao ar-condicionado

Jean Charles Tall, arquiteto e professor senegalês, aponta que parte do conhecimento climático tradicional se perdeu quando o ar-condicionado se tornou padrão urbano nos anos 1980. A partir daí, muitos edifícios passaram a depender de máquinas para corrigir problemas que a arquitetura poderia evitar desde o desenho.

Essa crítica é central. A arquitetura bioclimática não rejeita tecnologia, mas questiona a dependência total dela. Um edifício que precisa gastar energia o dia inteiro para suportar o próprio clima talvez tenha falhado antes mesmo de ser ligado à rede elétrica.

Dakar mostra como a cidade pode aprender com seus pátios e árvores

Nzinga Mboup e a arquiteta Carole Diop investigam formas urbanas anteriores à colonização francesa em Dakar, especialmente os espaços comunitários organizados em torno de pátios, árvores, mesquitas e áreas de encontro.

Esses elementos ajudam a pensar cidades mais habitáveis. Pátios levam ar e sombra. Árvores criam memória e permanência. Espaços comuns sustentam vida comunitária. A inovação, nesse caso, não vem de apagar o passado, mas de reconhecer soluções que a cidade já conhecia.

O futuro da arquitetura pode nascer da escassez

Ao final da construção, o Goethe-Institut de Dakar aparece como símbolo de um novo ciclo. A obra levou anos, envolveu cooperação entre Senegal e Alemanha, enfrentou desafios técnicos e mostrou que o material de terra pode ocupar um programa cultural internacional.

A ideia mais forte deixada por Francis Kéré é que a pressão pode gerar inovação. Quando recursos ficam caros, calor aumenta e cidades crescem rápido, soluções locais ganham urgência. A África não aparece apenas como lugar que precisa de respostas; aparece como lugar capaz de produzi-las.

O material antes visto como coisa de pobre voltou ao centro da arquitetura africana porque responde a problemas concretos: calor urbano, custo, emissões, escassez de infraestrutura e perda de conhecimento local. O barro vermelho não substitui sozinho o concreto cinza, mas desafia sua hegemonia e abre caminho para soluções híbridas.

Francis Kéré, Worofila, Elementerre, Lesley Lokko, David Adjaye e Mariam Issoufou mostram que a tradição pode ser técnica, contemporânea e escalável. A pergunta agora é se cidades africanas, e também brasileiras, terão coragem de tratar materiais locais como inovação. Você moraria ou trabalharia em um prédio moderno feito com terra, barro vermelho e menos concreto cinza? Comente sua opinião.

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Neilor Oliveira
Neilor Oliveira
18/05/2026 17:52

Não podemos nos esquecer que temos um problema muito sério no Brasil que está ligado com a utilização do barro na construção,o Barbeiro e consegue temente a doença de chagas.Tem que se pensar bem sobre todas as questões ???

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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