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Marrocos aposta em árvores adaptadas ao clima árido para estabilizar o solo e favorecer a infiltração da água da chuva, buscando reduzir a erosão e recuperar os oásis

Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 02/03/2026 às 21:07
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O argan, típico do sudoeste marroquino, está virando peça central contra a desertificação: suas raízes profundas seguram o chão, ajudam a manter umidade no subsolo e abrem caminho para sistemas agroflorestais em áreas degradadas

Um cinturão de árvores no meio do deserto pode parecer um detalhe na paisagem. Mas, no sul de Marrocos, plantar arganeiras e acácias virou uma das principais apostas para salvar oásis em retração e recuperar solos que já não servem mais para a agricultura intensiva.

Onde o deserto avança e o oásis recua

Nas últimas décadas, o avanço da desertificação, a falta de água e o êxodo rural enfraqueceram muitos oásis marroquinos.

Essas paisagens, que durante séculos garantiram comida e sombra no meio do semiárido, começaram a perder palmeiras, água subterrânea e gente.

Quando o oásis recua, o solo fica exposto ao vento e à erosão, formando crostas secas em que quase nada cresce.

Terras que antes eram cultivadas passam a ser classificadas como degradadas e pouco atrativas para jovens agricultores, que migram para as cidades.

É nesse contexto que entram os cinturões de arganeiras e acácias. Em vez de tentar repetir o modelo de agricultura intensiva, o país está apostando em árvores adaptadas ao clima árido, com raízes profundas e múltiplos usos para as comunidades locais.

Como funcionam os cinturões de arganeiras e acácias

A arganeira virou peça-chave em Marrocos para frear a desertificação: plantada em cinturões com acácias, ajuda a estabilizar o solo, reduzir a erosão do vento e criar microclimas que permitem recuperar áreas antes consideradas “perdidas”, ao mesmo tempo em que fortalece a renda local com a cadeia do óleo de argan.

O argan é uma árvore típica do sudoeste de Marrocos, com raízes profundas que ajudam a estabilizar o solo, reduzir a erosão do vento e manter um pouco mais de umidade no subsolo.

A acácia, por sua vez, cresce bem em condições áridas, faz sombra, protege culturas menores e contribui para melhorar a estrutura do solo.

Em vários projetos recentes, as árvores não são plantadas de forma isolada, mas em faixas ou cinturões estratégicos.

Esses corredores verdes são instalados em torno de áreas agrícolas, estradas ou nas bordas de oásis, funcionando como barreiras contra o avanço da areia e do deserto.

O objetivo é duplo: proteger o que ainda existe e, ao mesmo tempo, criar condições para recuperar terras consideradas perdidas.

Com o tempo, o cinturão de árvores reduz o vento, retém matéria orgânica, favorece a infiltração de água da chuva e cria microclimas mais frescos, onde outras plantas conseguem voltar a crescer.

Vários programas nacionais se articulam em torno dessa lógica. O Plano Marrocos Verde e a estratégia florestal do país incluem metas de plantio de argan em dezenas de milhares de hectares, justamente em zonas degradadas e vulneráveis à desertificação.

Projetos como o DARED, financiado pelo Fundo Verde para o Clima, são desenhados para desenvolver pomares de argan em ambientes degradados, combinando recuperação ecológica e geração de renda.

Recuperar solos e fortalecer comunidades

A recuperação do solo começa devagar. No início, as mudas precisam de proteção, rega mínima e manejo cuidadoso para sobreviver em regiões com pouca chuva.

Mesmo assim, o país assume metas ambiciosas, como plantar dezenas de milhares de hectares com arganeiras agrícolas até 2030, incluindo áreas antes vistas como inviáveis.

À medida que o cinturão de árvores se estabelece, o solo ganha matéria orgânica, fica mais fértil e menos sujeito a tempestades de areia.

Isso abre espaço para sistemas agroflorestais: entre as linhas de argan e acácia, pequenos agricultores podem plantar culturas alimentares ou forrageiras, adaptadas ao clima local.

O projeto não é apenas ambiental. A cadeia do argan gera trabalho e renda, especialmente para cooperativas de mulheres que produzem e beneficiam o óleo.

Com mais árvores, mais pomares e mais valor agregado, aumenta a chance de as famílias permanecerem na região, em vez de abandonar o oásis.

Essa combinação, cinturões de árvores resistentes, recuperação de solos degradados, uso múltiplo do território e inclusão econômica, transforma o que parecia ser só fim de linha em uma paisagem em transição.

Em Marrocos, cada faixa de arganeiras e acácias plantada é uma tentativa concreta de segurar o deserto, revitalizar os oásis e mostrar que adaptação climática passa, necessariamente, pelas mãos de quem vive na terra.

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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