1. Início
  2. / Curiosidades
  3. / Mar Cáspio vira enigma máximo do planeta: híbrido entre mar e lago, com fundo estranho, água roubada por lagoa salina, cidades submersas, caviar, focas e vulcões de lama explosivos ativos
Tempo de leitura 11 min de leitura Comentários 0 comentários

Mar Cáspio vira enigma máximo do planeta: híbrido entre mar e lago, com fundo estranho, água roubada por lagoa salina, cidades submersas, caviar, focas e vulcões de lama explosivos ativos

Escrito por Carla Teles
Publicado em 26/02/2026 às 16:35
Atualizado em 26/02/2026 às 23:33
Assista o vídeoMar Cáspio vira enigma máximo do planeta híbrido entre mar e lago, com fundo estranho, água roubada por lagoa salina, cidades submersas, caviar, focas e vulcões (1)
Mar Cáspio, mar e lago ao mesmo tempo: mar ou lago, híbrido entre mar e lago e mistérios do Mar Cáspio explicados em linguagem simples.
  • Reação
2 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo

Híbrido entre mar e lago, o Mar Cáspio ganhou um status jurídico único, mistura fundo oceânico e continental, tem água roubada por uma lagoa salina, guarda cidades submersas, caviar, focas e vulcões de lama explosivos ainda ativos.

As fronteiras entre mar e lago parecem simples no mapa, mas desmoronam quando olhamos para o Mar Cáspio. À primeira vista, ele é apenas um grande corpo de água cercado de terra, um “lago” gigantesco. Mas, quanto mais se investiga esse híbrido de mar e lago, mais fica claro que ele não se encaixa em nenhuma caixinha conhecida pela ciência ou pelo direito internacional.

Em 2018, um acordo entre os cinco países que o cercam criou para o Cáspio uma definição política que não resolve a pergunta central: afinal, é mar ou lago. Ao mesmo tempo, seu fundo é híbrido, sua água se comporta de forma estranha, seu nível sobe e desce sem seguir padrões óbvios, e seu ecossistema abriga espécies que não existem em nenhum outro lugar do planeta. Para completar, há cidades submersas, navios afundados, reservas gigantes de petróleo e vulcões de lama que podem cuspir fogo para fora d’água.

Mar ou lago: quando nem políticos nem cientistas conseguem decidir

Mar Cáspio, mar e lago ao mesmo tempo: mar ou lago, híbrido entre mar e lago e mistérios do Mar Cáspio explicados em linguagem simples.

Em 12 de agosto de 2018, durante uma cúpula dos cinco países que fazem fronteira com o Mar Cáspio, aconteceu algo inusitado. Em vez de decidir se ele seria tratado como mar ou como lago, os líderes optaram por criar uma terceira categoria.

No tratado internacional, o que todos chamavam de Mar Cáspio passou a ser definido como uma “bacia fechada com regime especial próprio”.

Na prática, a disputa sobre se o Cáspio é mar ou lago continuou em aberto, mas agora travestida de fórmula jurídica que não resolve o enigma original.

Nem os cientistas chegaram a um consenso. Geógrafos tendem a chamá-lo de lago, porque não tem conexão direta com o oceano. Já muitos geólogos preferem o silêncio, e os marinheiros simplesmente o tratam como aquilo que sempre viveram ali: um mar de verdade.

Em termos de tamanho, ele se comporta claramente como mar. O Cáspio é o maior lago do mundo, com cerca de 371.000 km² de superfície, pouco menor que o Mar Negro e o Mar Báltico, e muito maior que o Mar de Azov. Mas tudo complica ainda mais quando olhamos para o que está debaixo da água.

Um fundo híbrido: onde crosta continental e crosta oceânica se misturam

A primeira pista de que o Cáspio é um híbrido de mar e lago está no seu fundo. A crosta terrestre, em geral, é dividida em dois tipos principais: continental, mais espessa e formada por granitos e rochas metamórficas, e oceânica, mais fina e predominantemente basáltica.

O problema é que o fundo do Mar Cáspio não se comporta como nenhum dos dois padrões clássicos. Ele combina características das duas crostas, criando uma estrutura híbrida.

No norte e em parte da zona central, o leito marinho tem traços típicos de crosta continental, como se fosse uma extensão afundada da plataforma da Europa Oriental. Isso torna o norte bem raso, com profundidades que mal passam de 15 m.

À medida que nos aproximamos da região central, o fundo despenca por centenas de metros e começa a apresentar traços de crosta oceânica. Ali, a profundidade média alcança cerca de 208 m.

Mais ao sul, a estrutura fica ainda mais complexa, com espessura e composição que lembram muito o fundo de um oceano de verdade, chegando a profundidades próximas de 1.025 m.

Visto assim, o norte e parte do centro se comportam como um lago raso, enquanto o sul se comporta como um mar profundo, com direito a taludes e bacias que lembram ambientes oceânicos. Quanto mais se tenta encaixar o Cáspio em uma definição simples, mais confuso ele fica.

Mar de Tétis: o fósforo geológico que explica por que ainda há sal e água

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Geologicamente, o enigma do Cáspio começa no antigo mar de Tétis, que durante o período Mesozóico se estendia da região da atual Indonésia até a Europa. Com o tempo, esse mar gigante foi se fragmentando em massas de água isoladas, conhecidas como Paratetis.

Há cerca de 5,5 milhões de anos, o que restava desse sistema se dividiu em três grandes corpos: Mar Negro, Mar Cáspio e Mar de Aral. Até aqui, nada tão estranho.

O verdadeiro mistério é outro: se o Mar Cáspio está totalmente isolado do oceano, por que ainda não se secou e como consegue manter água salgada de forma relativamente estável.

A salinidade média do Cáspio gira em torno de 1,2 a 1,3%, cerca de um terço da salinidade média dos oceanos. Em alguns trechos, ele é mais salgado que o centro do Mar Báltico, mesmo recebendo enormes volumes de água doce de rios como o Volga.

Essa combinação de salinidade significativa, origem oceânica e alimentação por rios levou alguns pesquisadores a defenderem que o Cáspio é, na verdade, uma espécie de híbrido: uma bacia de origem oceânica que, ao longo do tempo, passou a se comportar também como lago alimentado por rios.

As flutuações do nível de água reforçam essa ideia. No século XIX, o nível baixou. No século XX, subiu cerca de 2,5 m de forma relativamente rápida.

Já neste século, voltou a mostrar tendência de queda. O detalhe mais espantoso: essas oscilações não acontecem em milhares de anos, mas em períodos bem mais curtos, desafiando as explicações mais simples.

A lagoa que rouba água: Kara-Bogaz-Gol, sal de Glauber e um deserto tóxico

Para entender o comportamento desse mar e lago, é preciso olhar para um “vazamento” curioso: o Golfo de Kara-Bogaz-Gol, uma enorme lagoa rasa na costa oriental do Cáspio, ligada a ele por um canal estreito. A água do mar flui continuamente para essa lagoa e praticamente não volta.

Sob um clima extremamente seco e quente, a água evapora de forma intensa, concentrando sais e formando grandes quantidades de mirabilita, o chamado sal de Glauber.

A lagoa virou uma das maiores reservas de mirabilita do planeta, atraindo exploração industrial em grande escala.

Mas esse negócio lucrativo tinha um custo oculto: o nível do Cáspio começava a cair perigosamente, ameaçando portos, rotas de navegação e ecossistemas.

Cientistas concluíram que os cerca de 18.000 km² da lagoa estavam evaporando dezenas de quilômetros cúbicos de água por ano, literalmente “roubando” água do mar principal.

A solução encontrada foi drástica. Uma represa de concreto foi construída para bloquear o canal. A água parou de correr, a lagoa secou quase por completo e o que restou foi um imenso deserto salino.

As espécies aquáticas desapareceram, aves que nidificavam ali perderam seu habitat, e a extração de mirabilita entrou em colapso.

Como se não bastasse, tempestades de sal começaram a varrer a região, danificando agricultura, equipamentos e a saúde da população.

E o mais irônico: o Mar Cáspio pareceu ignorar o sacrifício. O nível continuou caindo por um tempo e só depois voltou a subir gradualmente, como se estivesse seguindo uma lógica própria.

Com o fim da União Soviética e a independência do Turcomenistão, a represa foi demolida em 1992. A água voltou a entrar em Kara-Bogaz-Gol, a extração de mirabilita foi retomada e as tempestades de sal diminuíram.

Mas a recuperação completa do ecossistema ainda é uma conta em aberto, mais um lembrete de como é difícil “corrigir” um sistema tão complexo quanto esse mar e lago.

Caviar, focas e espécies que só existem ali

Além da geologia e da hidrologia estranhas, o Cáspio guarda um enigma biológico. Entre 62% e 66% das espécies de peixes do Mar Cáspio são endêmicas, ou seja, não existem em nenhuma outra parte do planeta. O mesmo vale para muitos moluscos.

Entre os peixes, ganham destaque espécies de arenques e, especialmente, os esturjões. O esturjão do Cáspio é um verdadeiro fóssil vivo, sobrevivente da época dos dinossauros. Várias espécies desse grupo habitam o mar e lago e são responsáveis pela produção de um dos produtos mais luxuosos do mundo: o caviar.

A maior de todas é o esturjão-beluga, que pode chegar a cerca de 7 m de comprimento e pesar mais de 1,5 tonelada. É desse gigante que sai o cobiçado caviar beluga. No século XX, entre 80% e 90% do caviar mundial vinham de três espécies do Cáspio: beluga, esturjão russo e esturjão persa.

Outro símbolo do Cáspio é a foca do Cáspio, um mamífero marinho que vive em uma massa de água completamente fechada, sem contato direto com o oceano.

Cientistas ainda discutem como essa foca chegou ali. Há hipóteses que falam em migração durante a última glaciação, ou em resquício da fauna do antigo mar de Tétis.

Até hoje, o fato de uma foca marinha sobreviver em um ambiente parcialmente doce e isolado segue como um enigma biológico.

A perda desse conjunto de espécies não seria apenas um dano ambiental, mas uma perda irreversível de biodiversidade única, impossível de ser “recriada” em outro lugar.

Mitos, cidades submersas e a Atlântida do Cáspio

Desde que a civilização se estabeleceu em torno do Cáspio, a região virou cenário de histórias, mapas e lendas. O mar e lago aparece em textos de autores da Grécia e Roma antigas, como Heródoto, Estrabão e Ptolomeu. Para muitos povos, ele marcava o limite do mundo habitado, o fim do mapa conhecido.

Persas viam ali seu extremo norte. Povos túrquicos nômades usavam a área como rota de caravanas. Reinos russos enxergavam o Cáspio como palco de comércio e, também, de saques.

Com o tempo, surgiram lendas de cidades submersas, monstros marinhos e caravanas que sumiam nos desertos próximos às margens, especialmente na região de Mangystau.

Nas águas perto da costa iraniana, moradores relatam há séculos criaturas com forma humana chamadas Runan Sha, “senhores da água”.

Em 2005, um barco de pesca do Azerbaijão teria visto algo semelhante nadando em meio a um cardume, segundo relato atribuído ao próprio capitão a um jornalista iraniano. É muito provável que se tratasse de um esturjão gigantesco, mas a lenda ganhou fôlego novo.

Já no campo das evidências concretas, o Cáspio tem sua própria “Atlântida”. Trata-se da fortaleza medieval de Sabayil, construída entre 1232 e 1235 em uma ilha perto de Baku, no Azerbaijão. Em 1306, um terremoto fez a fortaleza afundar.

No século XVII, quando o nível do Cáspio recuou, as torres reapareceram. Entre 1939 e 1969, escavações submarinas descobriram cerca de 700 placas de pedra com inscrições e desenhos. Hoje, as torres estão novamente submersas.

Ainda mais famosa é a cidade de Itil, capital do antigo Caganato Hazar. Ela aparece em vários documentos históricos, incluindo uma carta conservada na Espanha, escrita pelo próprio Cagan ao califado de Córdoba.

Arqueólogos buscam Itil há gerações, sem sucesso definitivo, mas viajantes relatam há muito tempo estruturas de pedra submersas que podem ser restos dessa cidade perdida.

Tesouros afundados, petróleo, gás e vulcões de lama que cuspem fogo

No fundo do Mar Cáspio não repousam apenas cidades e lendas. Há também os restos de incontáveis navios naufragados ao longo de milênios de navegação. Em tempos modernos, talvez a perda mais famosa seja a da frota do czar russo Pedro, o Grande.

Em 1722, ele desceu o Volga com 274 embarcações em direção ao Cáspio para abrir um caminho rumo à Ásia. Uma tempestade caiu sobre a frota, e muitos navios afundaram. Seus restos ainda estão na baía de Derbent.

E esses naufrágios talvez nem sejam o tesouro mais valioso. Estimativas geológicas indicam que sob o leito do Cáspio podem existir até 50 bilhões de barris de petróleo e 8,3 trilhões de metros cúbicos de gás natural.

Mesmo representando apenas uma fração das reservas mundiais, essas jazidas têm importância estratégica enorme para diversificar o fornecimento de energia, especialmente em direção à Europa.

Mas o Cáspio guarda outro espetáculo ainda mais dramático: os vulcões de lama. Apenas nas águas do Azerbaijão, mais de 140 vulcões submarinos desse tipo já foram identificados.

Não é raro que colunas de água, gás e lama surjam de repente do fundo, alcançando a altura de um prédio de cinco andares.

Às vezes, essas erupções formam pequenas ilhas de lama que aparecem e desaparecem em poucos anos. Em 2023, por exemplo, surgiu perto da costa do Azerbaijão uma ilha de cerca de 400 m de largura, batizada de Kumani Bank. Ela apareceu em fevereiro e, até o fim de 2024, já havia sido destruída pela erosão.

O gás expelido pelos vulcões contém metano e, quando inflama, produz colunas de fogo que parecem brotar diretamente do mar, alimentando a ideia de que ali, debaixo daquele mar e lago, a própria Terra continua em ebulição.

O enigma continua: o que fazer com um lugar que é mar e lago ao mesmo tempo

Depois de olhar para a geologia híbrida, a origem ligada ao mar de Tétis, a lagoa que rouba água, as espécies endêmicas, as cidades submersas, o petróleo, o gás e os vulcões de lama, uma coisa fica clara: o Mar Cáspio é, de fato, um enigma máximo do planeta, um verdadeiro mar e lago ao mesmo tempo.

Ele não cabe nas definições tradicionais, escapa às categorias do direito internacional e continua desafiando cientistas de várias áreas.

Ao mesmo tempo, está sob pressão ambiental, climática e econômica, com ecossistemas frágeis, espécies únicas e recursos naturais disputados por vários países.

Talvez, no fim das contas, o maior desafio não seja decidir se o Cáspio é mar ou lago, mas entender como conviver com esse corpo de água único sem destruí-lo, respeitando seus limites, sua história e seus mistérios ainda não resolvidos.

E você, olhando para tudo isso, acha que o Mar Cáspio deveria ser tratado mais como mar, mais como lago, ou como uma terceira categoria totalmente nova?

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Carla Teles

Produzo conteúdos diários sobre economia, curiosidades, setor automotivo, tecnologia, inovação, construção e setor de petróleo e gás, com foco no que realmente importa para o mercado brasileiro. Aqui, você encontra oportunidades de trabalho atualizadas e as principais movimentações da indústria. Tem uma sugestão de pauta ou quer divulgar sua vaga? Fale comigo: carlatdl016@gmail.com

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
Ir para o vídeo em destaque
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x