Pesquisadores analisaram animais apreendidos em 2023 e identificaram duas espécies nativas que ajudam a reciclar matéria orgânica no fundo do mar. A investigação mostrou como a secagem esconde a origem das cargas e permite transportar centenas de exemplares sem refrigeração.
Uma análise genética realizada por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista identificou duas espécies de pepinos-do-mar em cargas apreendidas no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo. Os animais haviam sido cortados, desidratados e colocados em caixas e malas, condição que impedia o reconhecimento pela aparência.
O estudo foi publicado em 15 de junho de 2026 na revista científica Scientific Reports. A equipe examinou 40 exemplares recolhidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis em 2023 e identificou 18 animais da espécie Holothuria grisea e 22 da Isostichopus badionotus.
As apreensões envolviam duas malas de passageiros e uma caixa enviada de São Paulo para a Itália. Cada recipiente carregava aproximadamente 500 pepinos-do-mar secos, embora apenas uma amostra aleatória tenha sido encaminhada para o sequenciamento genético.
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A comparação com exemplares frescos coletados em Ubatuba, no litoral paulista, confirmou que pelo menos parte dos animais era proveniente da costa brasileira. O resultado enfraquece a hipótese de que o país funcionaria somente como escala logística e indica que a captura começa em áreas costeiras nacionais.
A secagem transforma centenas de animais em uma carga compacta e difícil de reconhecer
O pepino-do-mar fresco pode pesar cerca de 500 gramas, mas perde até 90% do peso durante a desidratação. Sem água, o produto ocupa menos espaço, não exige refrigeração e pode permanecer armazenado durante viagens longas, características que reduzem os custos do tráfico.

A aparência também muda completamente. Depois de cortado e seco, o animal se transforma em uma peça escura e encolhida, sem várias das características externas utilizadas por biólogos para diferenciar uma espécie de outra.
Segundo o Jornal da Unesp, o quilo do produto pode alcançar cerca de 400 euros no mercado internacional, enquanto espécies raras e exemplares valorizados chegam a preços ainda maiores. A combinação entre alto valor, baixo peso e facilidade de armazenamento ajuda a explicar por que centenas de unidades podem ser escondidas em uma única bagagem.
Documentos apresentados à Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção apontam que o produto seco, conhecido como bêche-de-mer, pode ser estocado por longos períodos. Essa característica facilita a formação de estoques, o transporte internacional e a venda distante da região onde ocorreu a captura.
Um fragmento de tecido revelou aquilo que já não podia ser visto por fora
Para identificar os animais, os pesquisadores retiraram pequenos fragmentos da parte interna dos espécimes e extraíram o material genético. Em seguida, utilizaram a técnica de PCR para ampliar uma região do gene mitocondrial conhecido como citocromo c oxidase I, ou COI.
Esse trecho funciona como uma espécie de código de barras biológico. A sequência obtida no laboratório é comparada com registros de animais previamente identificados e armazenados em bancos públicos de dados genéticos.
O método confirmou as 40 identificações mesmo com os corpos secos e descaracterizados. A análise também mostrou que ferramentas moleculares podem servir como prova técnica em investigações sobre pesca irregular, exportação clandestina e comércio de produtos da fauna.
O trabalho encontrou, porém, uma lacuna. Não havia uma sequência adequada da Holothuria grisea nos bancos consultados, obrigando a equipe a coletar três exemplares vivos na Praia do Lamberto, em Ubatuba. As novas sequências foram registradas no GenBank, permitindo comparar os animais paulistas com aqueles retirados das bagagens.
A retirada parece pequena dentro de uma mala, mas altera o funcionamento do fundo do mar
Pepinos-do-mar vivem sobre rochas, areia e sedimentos marinhos, onde ingerem restos orgânicos, microrganismos e pequenas partículas. Ao processar esse material, eles devolvem nutrientes ao ambiente e movimentam as camadas superficiais do solo submerso.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura descreve esses animais como participantes da reciclagem de nutrientes e da manutenção da qualidade dos sedimentos. Algumas espécies também revolvem e oxigenam areia e lama enquanto procuram alimento.
Quando muitos exemplares são retirados de uma mesma região, restos orgânicos podem se acumular e a dinâmica do substrato muda. O impacto não se limita ao desaparecimento de uma espécie comercializada, porque alcança bactérias, algas e outros organismos que dependem das condições físicas e químicas do fundo marinho.
A baixa mobilidade aumenta a vulnerabilidade. Muitos pepinos-do-mar podem ser recolhidos manualmente durante a maré baixa ou por mergulhadores, sem a necessidade de embarcações e equipamentos complexos.
Há ainda um problema reprodutivo. Em várias espécies, machos e fêmeas liberam gametas diretamente na água, e a fecundação depende da proximidade entre os indivíduos. Quando a população fica muito dispersa, encontrar parceiros se torna mais difícil, retardando a recuperação mesmo após o fim da captura.
A pressão já deixou sinais no litoral brasileiro antes da descoberta em Guarulhos
O Brasil possui aproximadamente 40 espécies de pepinos-do-mar, entre cerca de 1.250 registradas no mundo. As duas identificadas no aeroporto aparecem globalmente na categoria de “Menor Preocupação”, mas essa classificação não mede necessariamente reduções concentradas em praias ou municípios específicos.
Uma espécie pode manter ampla distribuição geográfica e, ao mesmo tempo, desaparecer de determinados costões. Sem dados sobre quantidade capturada, idade dos animais, local de retirada e destino das cargas, a redução pode avançar antes de ser percebida pelos órgãos ambientais.
Um levantamento sobre a exploração brasileira, disponibilizado em 2025, reuniu registros de apreensões, observações de campo e dados populacionais. O trabalho aponta captura sem controle ao longo da costa, envio principalmente para Hong Kong e presença de indivíduos jovens em quase 40% do material confiscado.
No Ceará, um estudo publicado em 2019 estimou a retirada anual de quase 400 mil exemplares de Holothuria grisea em áreas de Camocim e do distrito de Bitupitá, então chamado de Xavier em registros anteriores. Os pesquisadores encontraram uma atividade não declarada e sem regulamentação suficiente para calcular a reposição natural da população.
Em Ubatuba, integrantes da pesquisa relataram perceber menos animais nos costões rochosos, mas essa observação ainda não representa uma estimativa populacional consolidada. Para demonstrar uma queda, seriam necessários levantamentos periódicos, com áreas fixas, contagem padronizada e comparação entre diferentes anos.
O DNA pode fechar uma das brechas usadas pelo comércio clandestino
A identificação visual costuma funcionar quando o animal está vivo e preserva sua coloração, textura e estruturas externas. No produto seco, a fiscalização pode encontrar centenas de peças parecidas sem saber quais espécies estão envolvidas ou em qual região foram capturadas.
O próprio Ibama já classificou a captura e o comércio ilegais de pepinos-do-mar como delito ambiental encontrado em municípios litorâneos e associado ao tráfico internacional. O diagnóstico produzido pelo órgão também indica que caixas, bagagens e encomendas comerciais podem servir como meios de transporte dessas cargas.
A Lei de Crimes Ambientais proíbe apanhar, utilizar, vender, transportar ou exportar espécimes da fauna silvestre sem permissão, licença ou autorização válida. A irregularidade pode gerar apreensão, multas administrativas e responsabilização criminal, conforme as circunstâncias do caso.
O sequenciamento genético não substitui a inspeção nos aeroportos, mas permite determinar exatamente qual animal foi encontrado. Com bancos de DNA mais completos, uma amostra retirada de uma peça seca pode ligar a mercadoria a uma espécie brasileira e fornecer elementos para investigar o local de captura, os remetentes e o destino internacional.
A descoberta de centenas de pepinos-do-mar em malas mostra um comércio que permanece quase invisível até a abertura da bagagem. Você acredita que aeroportos e regiões costeiras brasileiras estão preparados para fiscalizar esse tipo de tráfico? Deixe sua opinião nos comentários e conte quais medidas poderiam dificultar a retirada ilegal desses animais.
