Mesmo com produção recorde de 140 milhões de metros cúbicos por dia, limitações na infraestrutura impedem o transporte suficiente durante o frio e deixam mais de 500 fábricas sem fornecimento de gás na Argentina temporariamente
Vaca Muerta concentra recursos equivalentes a cerca de 200 anos do consumo interno argentino, enquanto o país produz quase 140 milhões de metros cúbicos de gás por dia. Apesar da abundância, mais de 500 indústrias enfrentaram cortes após uma massa de ar polar elevar a demanda e expor limitações na rede de transporte.
Vaca Muerta produz em nível recorde, mas gás não chega a todas as regiões
Localizada nas profundezas da Patagônia, a formação de xisto Vaca Muerta está entre as maiores do mundo.
Segundo relatório da organização Fundar, seus recursos poderiam atender ao consumo interno de gás da Argentina por aproximadamente dois séculos.
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A produção nacional também atravessa um período recorde, com extração próxima de 140 milhões de metros cúbicos diários.
O volume, porém, não garante abastecimento contínuo quando as temperaturas caem e a procura residencial aumenta rapidamente.
Na última semana, uma massa de ar polar provocou forte elevação da demanda por aquecimento. Conforme associações empresariais, mais de 500 indústrias foram afetadas por interrupções no fornecimento.
Representantes do setor relataram ainda que mais de 600 fábricas chegaram a ficar paralisadas entre Córdoba e as províncias do norte. Essas regiões estão distantes das áreas produtoras localizadas na Patagônia.
Consumo residencial triplica durante os períodos mais frios
Na Argentina, residências e pequenos estabelecimentos recebem prioridade no abastecimento. O gás é amplamente utilizado para aquecimento, e aproximadamente 55% dos domicílios estão conectados diretamente à rede.
As famílias que não possuem conexão dependem principalmente de gás engarrafado. Durante o inverno, o consumo residencial pode triplicar, reduzindo o volume disponível para atividades industriais.
Para preservar o fornecimento às casas, muitas empresas possuem contratos classificados como “interrompíveis”. Neles, o preço considera previamente a possibilidade de suspensão temporária do serviço durante os momentos de maior demanda.
Sem gás, as fábricas precisam interromper suas linhas de produção, recorrer a revendedores ou substituir o combustível por alternativas mais caras ou poluentes, como diesel e carvão.
Gasoduto de 573 quilômetros ainda precisa de ampliação
O primeiro trecho do Gasoduto Presidente Néstor Kirchner foi inaugurado em 2023. A estrutura possui aproximadamente 573 quilômetros e conecta a área de Vaca Muerta à região central argentina.
Uma ampliação necessária para aumentar a capacidade de transporte, entretanto, ainda não foi concluída.
Juan José Carbajales, ex-subsecretário de Hidrocarbonetos e diretor do Instituto de Gás e Petróleo da Universidade de Buenos Aires, afirmou que a aprovação demorou 16 meses.
Segundo Carbajales, a expansão poderia estar disponível neste inverno, mas deverá ficar pronta somente no próximo.
Até lá, a produção continuará crescendo mais rapidamente do que a capacidade de levar o combustível aos principais centros consumidores.
O país também não possui plantas terrestres de liquefação nem estruturas subterrâneas capazes de guardar grandes volumes para posterior liberação durante os picos de consumo.
A estatal YPF conduz um projeto para instalar unidades flutuantes de liquefação na costa de Río Negro. A iniciativa está voltada principalmente à futura exportação de gás natural liquefeito e não elimina os gargalos internos imediatos.
Gás importado custa quase sete vezes mais
Nos períodos críticos, a Argentina importa gás da Bolívia e cargas de GNL, regaseificadas no terminal portuário de Escobar.
Neste ano, o governo tentou transferir às empresas a contratação antecipada de volumes adicionais.
Muitas indústrias não aderiram porque o combustível importado custava mais de US$ 20 por milhão de BTU. No mercado interno, o valor normalmente praticado fica próximo de US$ 3 por milhão de BTU.
Julio Fazio, presidente da Cerámica Salteña e vice-presidente da União Industrial de Salta, classificou o cenário como um paradoxo.
O país registra produção recorde e excedente energético, mas mantém centenas de fábricas paralisadas por limitações no transporte.
A Argentina possui gás suficiente para atender à demanda interna e exportar excedentes para Chile, Uruguai e Brasil.
Os cortes, portanto, são provocados pela incapacidade de distribuir o recurso em volume suficiente durante os picos do inverno.
Esta matéria foi elaborada com base em informações da Fundar e nas declarações de Juan José Carbajales, Julio Fazio, associações empresariais e YPF apresentadas no material-base, com dados, números e declarações preservados conforme o conteúdo consultado.

