A Farmácias São João, maior rede do setor no Sul do país, começou a testar a escala 5×2 em algumas lojas. O objetivo é se preparar para uma eventual mudança na jornada de trabalho, enquanto o Senado decide o futuro da escala 6×1 após a Câmara aprovar a redução da carga horária.
A Farmácias São João, maior rede de farmácias do Rio Grande do Sul, começou no início de maio a testar a escala 5×2, que garante duas folgas por semana, em parte das suas lojas. A medida é uma forma de se antecipar a possíveis mudanças na legislação trabalhista, num momento em que o Congresso discute o fim da escala 6×1 no Brasil.
Com cerca de 25 mil funcionários e mais de mil lojas espalhadas pelo Sul do país, a empresa trata a iniciativa como um projeto piloto, restrito a algumas unidades. Segundo o presidente da rede, Pedro Henrique Brair, a ideia é observar de perto, ao lado dos próprios colaboradores e do RH, como a operação e as equipes se adaptam ao novo modelo antes de qualquer decisão definitiva do Senado.
Por que a Farmácias São João adotou a escala 5×2 agora

Segundo informações divulgadas pelo portal do ndmais, a explicação da empresa é direta: não quer ser pega de surpresa. Brair afirma que a rede preferiu começar os testes com a escala 5×2 antes mesmo de uma definição oficial sobre as novas regras trabalhistas, justamente para sentir, na prática, como a empresa e os colaboradores reagem a duas folgas semanais. A leitura interna é que sair na frente reduz o risco de transtornos caso a proposta em discussão no Congresso seja aprovada.
-
A inflação de alimentos subiu 302% em 20 anos no Brasil, mas o supermercado mudou: o poder de compra rendeu 87% mais mortadela e 31% menos fruta, e os ultraprocessados tomaram o carrinho
-
Gigante do agro foca no Brasil e anuncia fábrica colossal automatizada de R$ 100 milhões no interior de SP
-
Petrobras coloca petróleo de lado e foca na soja ao produzir combustível de aviação com certificação inédita no mundo; lote de 3,8 mil m³ promete cortar até 70% das emissões e acelerar a transição energética
-
Brasil sancionou piso nacional de professores em R$ 5.130 para jornada de 40 horas, elevou salário mínimo da educação básica após reajuste de 5,4% e criou regra que impede aumentos abaixo da inflação nos próximos anos em todo o país
O diretor jurídico da rede, Sérgio Ferraz, faz questão de frisar que tudo ainda está no começo. Trata-se de um projeto piloto, aplicado apenas a algumas unidades selecionadas para medir os impactos antes de uma eventual expansão. Os primeiros resultados, segundo Brair, estão sendo acompanhados junto com as equipes e o setor de recursos humanos, com atenção tanto ao bem-estar dos funcionários quanto à rotina das lojas.
Uma rede gigante do Sul do país
O peso da decisão vem do tamanho da São João. Fundada em Passo Fundo, no norte gaúcho, a rede se tornou uma das maiores do setor farmacêutico no Brasil, com mais de mil lojas distribuídas por Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná e um quadro de cerca de 25 mil colaboradores. Em qualquer empresa desse porte, mexer na jornada de trabalho exige planejamento e tempo de adaptação.
Por isso, a companhia avalia que o mercado já começou a se movimentar diante da possibilidade de redução da carga horária semanal. Testar a escala 5×2 em parte da operação funciona como um laboratório controlado: permite entender custos, organização das equipes e satisfação dos funcionários sem comprometer toda a rede de uma só vez.
Como a escala 5×2 pode funcionar na prática
Vale entender o que muda. A escala 5×2 prevê cinco dias de trabalho e dois de folga por semana, que não precisam ser necessariamente seguidos. É um modelo diferente da escala 6×1, em que o trabalhador folga apenas um dia após seis de expediente.
Um ponto importante, destacado por especialistas em direito do trabalho, é que a escala 5×2 pode ser adotada mesmo sem aumentar o número de funcionários, desde que a empresa mantenha as 44 horas semanais por meio de acordos de compensação, com jornadas diárias um pouco mais longas. No varejo, esse formato também vem sendo usado como estratégia para atrair profissionais e reduzir a alta rotatividade, especialmente de farmacêuticos e lideranças de loja.
O que a Câmara aprovou sobre o fim da escala 6×1
A iniciativa da rede ocorre poucos dias depois de a Câmara dos Deputados aprovar, na quarta-feira 27 de maio, em dois turnos, a PEC que muda as regras da jornada de trabalho no país. O texto, um substitutivo do deputado Leo Prates, reduz a carga máxima de 44 para 40 horas semanais e foi aprovado por ampla maioria.
A mudança seria gradual. Pelo texto, cerca de 60 dias após a promulgação da emenda, a jornada cairia para 42 horas, já com dois dias de descanso remunerado por semana, um deles preferencialmente no domingo. Somente após um período de transição de 14 meses é que a carga semanal passaria definitivamente para 40 horas, sem que haja redução de salário. É esse desenho que, na prática, enterraria a escala 6×1.
Agora a decisão final é do Senado
Depois da Câmara, o tema chegou ao Senado, que terá a palavra final. Lá, há mais de uma proposta em disputa: além da PEC vinda dos deputados, os senadores também têm em mãos uma alternativa apresentada pela oposição e um texto mais antigo do senador Paulo Paim. A definição de qual projeto terá prioridade caberá ao presidente da Casa, Davi Alcolumbre, em articulação com os líderes partidários.
Essa escolha vai pesar tanto na velocidade da tramitação quanto no formato final das novas regras. Até o fim de maio, a PEC aprovada pelos deputados ainda não havia sido encaminhada à Comissão de Constituição e Justiça do Senado, mas a expectativa é que o assunto avance nas próximas semanas, mantendo aceso o debate sobre o futuro da escala 6×1 e o eventual avanço da escala 5×2 no Brasil.
Outras redes também testam o modelo
A Farmácias São João não está sozinha nesse movimento. Outras grandes redes do varejo farmacêutico, como as do grupo dono da Pacheco e da Drogaria São Paulo, e também a empresa que controla Raia e Drogasil, já passaram a adotar a escala 5×2 em parte das lojas, em geral associando a mudança à retenção de talentos e à redução da rotatividade.
Esse comportamento mostra que parte das empresas prefere se antecipar à legislação a esperar uma decisão definitiva do Congresso. No varejo, o tema é ainda mais sensível porque envolve lojas abertas por muitas horas, inclusive em domingos e feriados, o que torna o ajuste da jornada de trabalho mais complexo do que em escritórios.
O teste da São João coloca em jogo uma pergunta que interessa a milhões de trabalhadores: a escala 5×2 deveria virar regra no Brasil, ou o fim da escala 6×1 pode pesar nos custos e nos preços?
Conte nos comentários se você troca de emprego por duas folgas semanais e se acredita que o Senado vai mesmo aprovar a redução da jornada de trabalho.

-
1 pessoa reagiu a isso.