A BYD está erguendo em Camaçari, na Bahia, um dos maiores complexos industriais do Brasil, com 4,6 km² de área e capacidade para produzir até 600 mil veículos por ano. Mas fiscalizações entre 2024 e 2025 encontraram 163 trabalhadores em condições análogas à escravidão no canteiro de obras, expondo falhas graves no projeto bilionário.
A montadora chinesa BYD está construindo em Camaçari, na região metropolitana de Salvador, um complexo industrial que ocupa 4,6 km² área maior do que municípios inteiros do Brasil, como Águas de São Pedro em São Paulo ou Santa Cruz de Minas em Minas Gerais. O projeto prevê investimento de aproximadamente R$ 5,5 bilhões e capacidade inicial de 150 mil veículos por ano, podendo chegar a 600 mil unidades anuais em fases futuras, com promessa de gerar até 20 mil empregos diretos e indiretos.
Mas o que deveria ser apenas uma história de reindustrialização ganhou contornos muito mais complexos. Fiscalizações realizadas entre 2024 e 2025 identificaram 471 trabalhadores chineses trazidos de forma irregular, dos quais 163 foram encontrados em condições classificadas como análogas à escravidão com jornadas exaustivas, condições degradantes de alojamento e restrições de liberdade. O episódio abalou a percepção pública sobre o projeto da BYD e abriu um debate que vai além da engenharia: sobre como grandes obras devem ser executadas e para quem seus benefícios são direcionados.
O que a BYD está construindo no lugar da antiga Ford
O complexo da BYD ocupa exatamente o espaço onde funcionava a antiga fábrica da Ford em Camaçari, estrutura que durante décadas sustentou a economia local e cuja saída deixou um vazio industrial significativo.
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A montadora chinesa entrou nesse vazio com a promessa de três pilares: reindustrialização da região, inserção da Bahia na cadeia global de veículos elétricos e reposicionamento do estado em um setor de alta tecnologia.
A antiga estrutura da Ford está sendo profundamente reconfigurada. Galpões são adaptados para novas linhas de montagem, acessos logísticos são reorganizados e a infraestrutura energética é recalibrada para suportar uma produção baseada em eletrificação e automação.
A fase inicial da operação da BYD foi estruturada em regime SKD, no qual os veículos chegam parcialmente montados e passam por finalização no Brasil, modelo que permite acelerar o início das atividades enquanto áreas mais complexas estamparia, soldagem robotizada, pintura automotiva e montagem de baterias são preparadas.
Um complexo da BYD maior que cidades brasileiras
Para dimensionar a escala do projeto, basta comparar: os 4,6 km² do complexo da BYD superam a área total de municípios como Águas de São Pedro, em São Paulo, com aproximadamente 3,6 km², e Santa Cruz de Minas, em Minas Gerais, com cerca de 3,5 km².
Não se trata de uma fábrica convencional, mas de uma estrutura industrial de escala territorial, com sistemas viários internos, áreas de carga e descarga, redes de energia elétrica, água industrial e telecomunicações.
Quando estiver em plena operação, a planta da BYD poderá atingir até 600 mil veículos por ano — mais de 1.600 unidades produzidas por dia. O investimento estimado em R$ 5,5 bilhões seria suficiente para adquirir aproximadamente 73 mil carros populares.
O projeto também incorpora um ecossistema industrial interno, com estruturas herdadas da Ford sendo destinadas a fornecedores que passam a operar dentro do mesmo perímetro produtivo, reduzindo custos logísticos e acelerando o ritmo de produção.
A “cidade chinesa” que gerou polêmica em Camaçari
Durante a fase de construção, a BYD estruturou áreas de moradia dentro do próprio complexo para abrigar trabalhadores diretamente envolvidos nas obras.
Módulos habitacionais, áreas de alimentação, logística interna e rotinas organizadas em turnos criaram uma dinâmica que parte da população local interpretou como algo além de um canteiro de obras convencional surgiu então a expressão “cidade chinesa de Camaçari”.
Nas redes sociais, circulou amplamente a alegação de que cerca de 10 mil chineses seriam trazidos para ocupar vagas no projeto informação posteriormente desmentida por dados oficiais que mostram predominância de trabalhadores brasileiros e exigência contratual de mão de obra local majoritária.
Ainda assim, a concentração de alojamentos dentro de um mesmo perímetro, associada à presença de trabalhadores estrangeiros e à falta de comunicação clara por parte da BYD, alimentou a percepção de um núcleo isolado dentro da cidade.
Os 163 trabalhadores em condições análogas à escravidão
O ponto mais grave do projeto veio à tona com as fiscalizações. Entre 2024 e 2025, foram identificados 471 trabalhadores chineses trazidos de forma irregular para o canteiro de obras da BYD em Camaçari, dos quais 163 estavam em condições classificadas como análogas à escravidão.
Os relatórios apontaram jornadas exaustivas, condições degradantes de alojamento e restrições de liberdade.
O episódio estava diretamente ligado à pressão por prazos nas frentes de implantação da obra, onde a necessidade de mão de obra especializada contribuiu para falhas de governança.
Mais de 60 autos de infração foram aplicados, parte das atividades foi temporariamente interrompida e contratos com empresas envolvidas foram encerrados.
Medidas corretivas foram adotadas pela BYD, mas o caso expôs uma fragilidade que ultrapassa o projeto em si: a velocidade de execução de grandes obras pode ampliar riscos quando não acompanhada por mecanismos robustos de controle trabalhista.
O que está em jogo para Camaçari e para a Bahia
Apesar das controvérsias, o projeto da BYD continua sendo estratégico para a região. A expectativa é que o complexo reposicione Camaçari como polo relevante na produção de veículos eletrificados, atraindo fornecedores, ampliando a cadeia produtiva regional e reativando uma estrutura industrial que havia perdido protagonismo após a saída da Ford. Isso pode significar retomada econômica e geração de milhares de empregos.
Mas o avanço não acontece em linha reta. O caso dos trabalhadores em condições análogas à escravidão, a percepção de um núcleo isolado dentro da cidade e as dúvidas sobre a distribuição real dos benefícios criaram um cenário de expectativa misturada com cautela na população local.
A chamada “cidade chinesa de Camaçari” não é de fato uma cidade, mas um complexo industrial de grande escala com forte influência internacional.
O que vai definir o legado desse projeto da BYD na Bahia não é apenas o que está sendo construído é como e para quem isso está sendo construído.
Com informações do Canal Construction Time
O que você acha do projeto da BYD em Camaçari? Acredita que ele representa desenvolvimento real para a região ou os problemas trabalhistas revelam um modelo que precisa ser repensado? Deixe sua opinião nos comentários.

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