A Rússia propôs criar reservas conjuntas de alimentos com países do BRICS e da União Econômica Eurasiática para enfrentar os riscos à segurança alimentar provocados pela guerra no Oriente Médio. Com o Estreito de Ormuz praticamente fechado, um terço do comércio global de fertilizantes está bloqueado, e autoridades russas alertam que a produtividade agrícola pode cair pela metade.
A Rússia, maior exportadora de trigo do planeta, quer criar reservas conjuntas de alimentos com os países do BRICS para se proteger contra uma crise de fome que a guerra no Oriente Médio pode desencadear. A proposta foi apresentada por Alexander Maslennikov, vice-secretário do Conselho de Segurança da Rússia, que alertou que o bloqueio do Estreito de Ormuz já interrompeu rotas por onde passava um terço do comércio global de fertilizantes. “Para garantir a segurança alimentar, é muito importante expandir a cooperação com países amigos, principalmente os Estados membros da União Econômica Eurasiática e do BRICS, inclusive por meio da criação de reservas conjuntas de alimentos”, declarou Maslennikov nesta segunda-feira.
A urgência da proposta se justifica pelos números. Cerca de metade dos alimentos do mundo é cultivada com uso de fertilizantes, e se a escassez global desses insumos persistir até o início do verão, a produtividade das principais culturas poderá cair pela metade, segundo Maslennikov. O Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e o Programa Mundial de Alimentos da ONU já alertaram na semana passada que os aumentos nos preços de petróleo, gás natural e fertilizantes provocados pela guerra inevitavelmente elevarão os preços dos alimentos e agravarão a insegurança alimentar. O número de pessoas famintas no mundo pode atingir um recorde de 673 milhões, de acordo com as estimativas russas.
O que a Rússia propõe ao BRICS para enfrentar a crise alimentar
Segundo informações do portal da Forbes, a proposta russa vai além de um acordo comercial convencional. A criação de reservas conjuntas de alimentos entre os países do BRICS funcionaria como um estoque estratégico coletivo, semelhante às reservas de petróleo que alguns países mantêm para situações de emergência. A ideia é que cada membro contribua com produção agrícola e armazene volumes suficientes para suprir demandas emergenciais do bloco, evitando que crises externas como a guerra no Oriente Médio transformem escassez temporária em fome generalizada.
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O escopo da proposta inclui também a União Econômica Eurasiática, liderada pela Rússia, que reúne Cazaquistão, país também exportador de grãos, além de Belarus, Armênia e Quirguistão. Com o BRICS incluindo gigantes agrícolas como Brasil, China e Índia, a reserva conjunta teria potencial para cobrir uma fatia significativa da demanda global de alimentos, criando um colchão contra choques de oferta que afetam países importadores vulneráveis. O Egito, membro do BRICS e maior importador de trigo russo, seria um dos principais beneficiários de um sistema como esse.
Por que a guerra no Oriente Médio ameaça a segurança alimentar do BRICS
O elo entre a guerra e a comida está nos fertilizantes. O Estreito de Ormuz, estreita via de navegação ao longo da costa do Irã, está praticamente fechado desde o início do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, e por essa rota passava aproximadamente um terço do comércio global de fertilizantes. Com o canal bloqueado, os insumos que alimentam as lavouras de dezenas de países simplesmente não estão chegando ao destino, e os que chegam por rotas alternativas custam significativamente mais.
O impacto não é teórico. Sem fertilizantes adequados, a produtividade agrícola pode cair pela metade nas próximas safras, segundo as estimativas apresentadas por Maslennikov ao Conselho de Segurança russo. Para países do BRICS que são grandes importadores de alimentos, como Egito e Etiópia, uma queda dessa magnitude na produção global significaria preços mais altos, menor disponibilidade e aumento da fome. Para exportadores como Brasil e Argentina, a escassez de fertilizantes importados poderia comprometer a produção que alimenta não apenas suas populações, mas dezenas de mercados ao redor do mundo.
A posição estratégica da Rússia dentro do BRICS na crise alimentar

A Rússia não é apenas proponente das reservas conjuntas, ela é peça central do quebra-cabeça. O país é o maior exportador de trigo do mundo e um dos maiores produtores de fertilizantes, dois ativos que ganham valor extraordinário em um cenário de crise alimentar global. Maslennikov reconheceu que a situação representa riscos para a segurança alimentar da própria Rússia, mas também “criou oportunidades de longo prazo para os produtores agrícolas do país”.
A declaração revela a dupla dimensão da proposta ao BRICS. Por um lado, a Rússia quer proteger seus aliados contra a fome e fortalecer laços dentro do bloco. Por outro, quer consolidar sua posição como fornecedor indispensável de alimentos e fertilizantes para mercados que dependem cada vez mais de suas exportações. “A Rússia está em uma posição forte para aumentar as exportações de alimentos para os países do Oriente Médio, bem como para a Ásia, África e América Latina”, afirmou Maslennikov. A proposta de reservas conjuntas do BRICS é, simultaneamente, solidariedade e estratégia.
O que o bloqueio do Estreito de Ormuz significa para o BRICS e o mundo
O fechamento do Estreito de Ormuz não afeta apenas fertilizantes. A rota é vital para o comércio de petróleo e gás natural, e seu bloqueio já provocou aumentos acentuados nos preços de energia que se propagam para toda a cadeia alimentar, desde o combustível dos tratores até o transporte de grãos dos campos aos portos. Os alertas do Banco Mundial e do FMI na semana passada confirmaram que o impacto nos preços dos alimentos é inevitável e será sentido com mais força pelos países mais pobres.
Para o BRICS, que reúne tanto produtores quanto consumidores de alimentos em grande escala, a crise no Ormuz expõe uma vulnerabilidade que as reservas conjuntas tentam endereçar: a dependência de rotas marítimas controladas por conflitos geopolíticos sobre os quais o bloco tem pouca influência. A China e a Índia, as duas maiores economias do BRICS, são grandes importadoras de alimentos e fertilizantes, e qualquer interrupção prolongada nas cadeias de suprimento afeta centenas de milhões de pessoas nesses países.
O que a proposta de reservas do BRICS significa para o Brasil
Para o Brasil, a proposta russa ao BRICS tem implicações diretas. O país é um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo, mas depende pesadamente de fertilizantes importados, com a Rússia sendo um dos principais fornecedores. Uma reserva conjunta do BRICS que inclua fertilizantes além de alimentos poderia dar ao Brasil mais previsibilidade de suprimento em momentos de crise, reduzindo a vulnerabilidade que o setor agrícola nacional enfrenta quando as cadeias globais são interrompidas.
Ao mesmo tempo, o Brasil seria um dos maiores contribuidores de uma reserva alimentar do BRICS por sua capacidade produtiva. A participação brasileira em um sistema de estoques estratégicos do bloco poderia fortalecer a posição do país como garantidor da segurança alimentar global, mas também exigiria compromissos de fornecimento que precisariam ser cuidadosamente negociados para não comprometer o abastecimento interno. O presidente Putin deve discutir o tema com o presidente da Indonésia, Prabowo Subianto, nesta segunda-feira, sinalizando que a proposta está ganhando tração diplomática dentro do BRICS.
A Rússia quer criar reservas de alimentos com o BRICS enquanto a guerra no Oriente Médio ameaça disparar os preços e cortar fertilizantes. Você acha que o Brasil deveria participar? Essa proposta protege ou cria dependência? Deixe sua opinião nos comentários.
