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Em regiões áridas dos EUA, lagartos-de-manchas-laterais sobrevivem graças a um sistema evolutivo curioso que mistura cores, genes e táticas de reprodução

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Escrito por Andriely Medeiros de Araújo Publicado em 07/01/2026 às 07:39
Estudo revela que os lagartos-de-manchas-laterais seguem um sistema parecido com “pedra, papel e tesoura”, baseado em genética, cor e comportamento reprodutivo.
Estudo revela que os lagartos-de-manchas-laterais seguem um sistema parecido com “pedra, papel e tesoura”, baseado em genética, cor e comportamento reprodutivo. Foto: Amon Corl
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Estudo revela que os lagartos-de-manchas-laterais seguem um sistema parecido com “pedra, papel e tesoura”, baseado em genética, cor e comportamento reprodutivo.

A sobrevivência e a reprodução na natureza nem sempre seguem a regra do mais forte. No caso dos lagartos-de-manchas-laterais (Uta stansburiana), o sucesso reprodutivo depende de um sistema surpreendente que lembra o jogo “pedra, papel e tesoura”.

A descoberta foi feita por cientistas americanos e detalhada em um estudo publicado na revista Science, revelando como cores, genes e comportamento se combinam para determinar quem deixa mais descendentes ao longo das gerações.

Esses lagartos vivem principalmente em regiões áridas do oeste dos Estados Unidos e do norte do México.

Durante o período de acasalamento, os machos exibem cores distintas na garganta, e essas diferenças visuais definem estratégias completamente diferentes de reprodução.

Lagartos-de-manchas-laterais: Um enigma observado por décadas

O fenômeno começou a chamar atenção científica há cerca de 30 anos, quando o biólogo Barry Sinervo, da Universidade da Califórnia, Santa Cruz, passou a estudar populações de lagartos-de-manchas-laterais nas colinas próximas a Merced, na Califórnia.

Ao longo de anos de observação em campo, ele percebeu que os machos se dividiam em três grupos bem definidos, identificados pelas cores laranja, azul e amarela na garganta.

Cada cor representava um estilo de vida reprodutivo específico. Os machos de garganta laranja são os mais agressivos.

Eles ocupam grandes territórios e controlam várias fêmeas ao mesmo tempo, usando a força para afastar rivais.

Já os machos azuis seguem uma lógica diferente. Eles defendem áreas menores, geralmente permanecem fiéis a uma ou duas fêmeas e investem mais em cooperação do que em confronto direto.

Por outro lado, os machos amarelos adotam uma estratégia oportunista. Sem território fixo, eles se infiltram silenciosamente em áreas dominadas por outros machos para tentar acasalar sem serem percebidos.

Por que isso parece pedra, papel e tesoura?

O interessante é que nenhuma dessas estratégias é superior de forma permanente.

Os machos laranja dominam os azuis pela força. Os azuis conseguem expulsar os amarelos graças à vigilância constante.

Já os amarelos levam vantagem sobre os laranjas ao explorar suas grandes áreas de território sem chamar atenção.

Esse ciclo cria um equilíbrio dinâmico. Quando uma estratégia se torna muito comum, outra passa a ser mais vantajosa, fazendo com que a população oscile ao longo do tempo.

Do comportamento ao código genético

Durante muitos anos, os cientistas suspeitaram que esse sistema estivesse ligado à genética, mas não conseguiam comprovar.

Foi apenas mais de uma década depois que o biólogo Ammon Corl, da Universidade da Califórnia, Berkeley, conseguiu avançar nessa questão.

Foto: Amon Corl

Como os lagartos-de-manchas-laterais não desenvolvem as cores típicas em cativeiro, a equipe precisou capturar indivíduos na natureza.

Os pesquisadores coletaram sangue, registraram o comportamento e sequenciaram os genomas dos animais.

Uma pequena mudança com grande impacto

A análise genética mostrou que uma variação mínima no DNA é suficiente para diferenciar os machos laranja dos azuis.

A coloração laranja é recessiva e só aparece quando o lagarto herda duas cópias dessa variante.

Essa mudança afeta a produção da proteína SPR, ligada tanto à coloração quanto à atividade de neurotransmissores, o que conecta diretamente aparência física e comportamento agressivo.

“Potencialmente, esse único gene poderia ligar mudanças na coloração a mudanças no comportamento”, disse Corl, ao The New York Times.

“É incrível que algo assim possa funcionar.”

O mistério dos machos amarelos

Os machos amarelos trouxeram um desafio extra para os cientistas. Geneticamente, eles são quase idênticos aos azuis, sem diferenças claras no DNA.

Isso sugere que fatores ambientais e sociais influenciam a manifestação dessa estratégia. Em outras palavras, nem tudo está escrito nos genes: o contexto também molda o comportamento.

O estudo mostra que a evolução não é uma corrida linear rumo ao domínio absoluto.

No caso dos lagartos-de-manchas-laterais, a diversidade se mantém justamente porque nenhuma estratégia vence para sempre.

Esse “jogo” natural ajuda a explicar como múltiplos comportamentos conseguem coexistir por longos períodos, oferecendo uma nova perspectiva sobre equilíbrio, adaptação e sobrevivência na natureza.

Com informações da Revista Galileu.

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Andriely Medeiros de Araújo

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