1. Início
  2. / Curiosidades
  3. / Jovens espanhóis largam cidades caras, fogem de aluguéis recordes, compram casas à vista no campo, repovoam vilarejos quase vazios, criam filhos na natureza, viram neorrurais, expõem crise imobiliária urbana e mostram como a Espanha vazia começa lentamente a mudar agora
Tempo de leitura 10 min de leitura Comentários 0 comentários

Jovens espanhóis largam cidades caras, fogem de aluguéis recordes, compram casas à vista no campo, repovoam vilarejos quase vazios, criam filhos na natureza, viram neorrurais, expõem crise imobiliária urbana e mostram como a Espanha vazia começa lentamente a mudar agora

Publicado em 15/01/2026 às 13:19
Na Espanha, jovens viram neorrurais, trocam cidades por vilarejos no campo e enfrentam a crise da moradia que repovoa regiões vazias.
Na Espanha, jovens viram neorrurais, trocam cidades por vilarejos no campo e enfrentam a crise da moradia que repovoa regiões vazias.
  • Reação
  • Reação
  • Reação
4 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo

Na Espanha, a migração de jovens para o campo cresce desde a pandemia. Em Corterrangel, com 15 moradores, um casal saiu de Sevilha e elevou a população em 15%. Com salários pressionados e aluguel em Madri a 22,37 euros por m², vilarejos retomam vida, mas enfrentam escassez de moradia ainda.

Na Espanha, a pressão do custo de vida nas grandes cidades está empurrando uma geração para uma decisão que, até pouco tempo, parecia improvável: trocar centros urbanos caros por vilarejos quase vazios. O impulso mais visível vem do bolso, com aluguéis em níveis históricos e compra de imóvel se tornando distante para quem vive de contratos instáveis, mas a virada também tem uma parte íntima, ligada a silêncio, natureza e criação de filhos.

De acordo com o portal da BBC, essa mudança está sendo chamada de movimento “neorrural”, uma tendência que ganhou força durante a pandemia e seguiu viva mesmo depois do recuo do trabalho remoto para parte das pessoas. Em uma Espanha marcada pela chamada Espanha vazia, onde o despovoamento fechou serviços e enfraqueceu comunidades por décadas, novos moradores começam a repovoar pequenas aldeias, abrindo negócios, retomando casas antigas e reativando vínculos locais.

Corterrangel, 15 moradores e um salto de 15% em uma única decisão

Entre muitas outras coisas, Roger cultiva na horta abóboras Yakteen, uma variedade palestina

No sul da Espanha, na província de Huelva, o vilarejo de Corterrangel virou exemplo prático do que significa repovoar a Espanha vazia em escala real.

A aldeia tinha 15 habitantes quando Ainara e Roger decidiram sair de Sevilha, onde viveram por 15 anos, e se mudar para o campo. O resultado é direto e simbólico: a chegada do casal aumentou a população local em cerca de 15%.

O contraste é gigantesco. De um lado, Sevilha com cerca de 700 mil habitantes, com rotina urbana, aluguel em escalada e ruído constante.

Ainara e Roger estão criando a filha, Irati, no pequeno povoado de Corterrangel, cercados pela natureza e com a cachorra Eska

Do outro, uma aldeia mínima, dentro do parque natural da Serra de Aracena e Picos de Aroche, cercada por bosques de castanheiros, além de azinheiras, espécies típicas do Mediterrâneo e resistentes à aridez, e sobreiros, de onde se extrai cortiça. É um cenário em que a paisagem dita o ritmo, não o trânsito.

A vida cotidiana do casal em Corterrangel é construída em torno do que faltava na cidade: silêncio, contato com a natureza e espaço para criar a filha, Irati, com uma cachorra, Eska, galinhas e horta.

A região ainda abriga aves de rapina e animais como genetas, pequenos mamíferos semelhantes a gatos, e texugos, robustos e de pernas curtas, da mesma família de lontras e doninhas. Para eles, isso não é turismo, é o quintal.

Casa à vista no campo e aluguel caro na cidade como gatilho decisivo

A migração para o interior na Espanha não se explica apenas por romantização da vida rural. Em Corterrangel, o casal resume uma diferença decisiva: a casa foi comprada à vista com o que tinham economizado.

O mesmo plano era praticamente inviável em Sevilha, onde o aluguel se tornara cada vez mais caro e a compra de um imóvel parecia distante.

A trava central aparece na relação com os bancos. Sem contrato de trabalho fixo, o financiamento imobiliário não vinha. Ainara e Roger são cientistas e trabalham no Conselho Superior de Pesquisas Científicas, o Csic, principal instituição pública de pesquisa do país.

É um setor em que contratos frequentemente dependem de financiamento variável e são renovados a cada poucos anos, o que aumenta a instabilidade formal mesmo para profissionais altamente qualificados.

Ainara pesquisa o abutre-do-egito, descrito como a menor espécie de abutre da Europa, enquanto Roger estuda os ácaros que vivem nas asas das aves.

Mesmo com carreiras científicas, o desenho contratual e o custo urbano apertaram a equação. No campo, o custo do imóvel ficou ao alcance do que foi acumulado ao longo do tempo.

Trabalho na cidade, vida no campo e a rotina de deslocamento que vale a pena

Uma parte crucial desse novo padrão na Espanha é a combinação entre residência rural e vínculo profissional ainda urbano.

Há oito anos, desde a mudança, Ainara e Roger percorrem pouco mais de uma hora de carro até o escritório em Sevilha. É um custo de tempo assumido como troca por um ganho de qualidade de vida.

Essa rotina ajuda a explicar por que o movimento “neorrural” não é apenas fuga, mas também adaptação. A casa muda, mas o trabalho nem sempre muda junto.

Para muitas pessoas, a migração para o interior depende da capacidade de manter renda, mesmo que isso signifique deslocamentos longos e uma logística semanal mais complexa. No caso do casal, a avaliação é clara: viver no campo oferece paz, e o deslocamento compensa.

Neorrurais: pandemia, intenção de ficar e a decisão que vira identidade

O termo “neorrurais” passou a nomear a tendência na Espanha justamente por refletir uma escolha que vai além do improviso.

O movimento começou a ganhar forma durante a pandemia, quando a busca por espaço e tranquilidade cresceu, e embora parte das pessoas tenha retornado às cidades com a redução do trabalho remoto, outra parte já construiu vida no campo ou planeja se estabelecer de forma definitiva.

Roger se identifica diretamente com o rótulo e trata a mudança como algo consciente e desejado. Essa autodefinição é relevante porque mostra que o movimento não é apenas reação ao preço, mas também mudança de valores.

A ideia de progresso deixa de estar amarrada ao endereço urbano e passa a se conectar com rotina, comunidade e natureza.

Preços em níveis históricos e o descompasso com salários na Espanha

A base econômica do fenômeno é a crise de moradia. Na Espanha, os valores de imóveis já superaram os da bolha imobiliária que estourou em 2008, enquanto os aluguéis subiram em muitas comunidades autônomas a taxas de dois dígitos.

O resultado é o que muitos descrevem como um descompasso entre remuneração e custo de moradia.

Os números ajudam a dimensionar a pressão. Em 2024, o salário médio bruto na Espanha foi de 2.385 euros por mês. Entre menores de 25 anos, o valor ficou em 1.372,8 euros mensais.

Esse recorte por idade é central, porque é exatamente a faixa que tenta se emancipar e sente mais o choque do aluguel.

Em Madri, capital e cidade mais populosa do país, o aluguel médio por metro quadrado chegou a 22,37 euros. Em um imóvel padrão de 80 m², isso leva a um custo médio mensal de 1.789,60 euros, um peso enorme quando comparado ao salário médio e ainda mais duro para jovens com renda menor.

A comparação com São Paulo, apresentada para dar escala do choque, também mostra o tamanho do abismo. Em dezembro de 2024, o aluguel médio por metro quadrado na capital paulista foi de R$ 57,59, ou R$ 4.607,20 para 80 m².

No mesmo mês, o salário médio de admissão no Brasil foi de R$ 2.162. A comparação evidencia um ponto comum: quando a moradia dispara e a renda não acompanha, a geografia de vida muda.

Pesquisa: 63% querem área rural e 70% dos jovens sonham com o campo

O desejo de ir para o interior na Espanha aparece como aspiração majoritária entre quem busca moradia. Uma pesquisa de verão apontou que 63% das pessoas que procuravam imóvel, para alugar ou comprar, gostariam de se mudar para uma área rural.

O desejo foi mais acentuado entre pessoas de baixa renda e grupos mais vulneráveis, incluindo jovens, que enxergam o campo como esperança de emancipação.

No recorte de 18 a 24 anos, o número sobe: 70% desejam viver no campo. Ao mesmo tempo, muitos reconhecem a dificuldade de concretizar a mudança por causa do tipo de emprego, que não permite flexibilidade.

Esse detalhe reforça que a migração neorrural na Espanha não é só vontade, é também possibilidade prática, e por isso tende a avançar mais rápido onde o trabalho permite deslocamento, contrato híbrido ou alguma autonomia.

Madri como limite: despejo indireto, Airbnb e a ruptura que vira recomeço

A história de Anaí Meléndez ilustra a face urbana da crise na Espanha. Natural de Valladolid, ela trabalhou por anos em grandes agências de publicidade em Madri, com salários descritos como irrisórios diante de aluguéis cada vez mais altos.

O ponto de ruptura veio quando precisou deixar um apartamento porque o proprietário alegou precisar do imóvel para um filho, justificativa prevista na legislação espanhola para encerrar um contrato.

Depois, ela constatou que o mesmo apartamento estava sendo anunciado no Airbnb. Para ela, isso sintetizou uma sensação de expulsão indireta, em que a moradia de longo prazo perde espaço para aluguel por temporada.

Entre baixos salários, aluguel caro e uma ruptura pessoal, decidiu mudar radicalmente: saiu do emprego e recomeçou no interior.

Nava del Rey, menos de 2 mil habitantes e o empreendedorismo como motor do retorno

O retorno de Anaí não foi apenas residencial, foi econômico. Com o dinheiro do seguro-desemprego, ela passou dois anos percorrendo a região de sua cidade, Nava del Rey, um município com menos de 2 mil habitantes, buscando fornecedores, criando redes, conhecendo o território e conectando pessoas com a mesma filosofia.

O ponto final foi a abertura do restaurante Caín, especializado em carnes na brasa, com uso de produtos locais e sazonais.

A trajetória revela um padrão importante: morar no campo exige criar trabalho, não apenas encontrar trabalho. Em vilarejos, a demanda existe, mas muitas vezes precisa ser organizada, ativada e transformada em negócio.

Anaí afirma que não foi a única. Ela cita jovens que voltaram para abrir uma clínica de fisioterapia e outros que assumiram vinhas antigas dos avós, passando a produzir vinho com novas técnicas e aprimorando a produção herdada.

Esse tipo de retorno cria uma economia de reocupação, que mistura tradição e inovação.

Espanha vazia: o círculo vicioso do despovoamento e o esforço para reativar serviços

A chamada Espanha vazia é descrita como o conjunto de áreas rurais marcadas por forte despovoamento, sobretudo pelo êxodo para as cidades nas décadas de 1950 e 1960.

O efeito acumulado é profundo: perda de serviços públicos e desequilíbrios no desenvolvimento social, econômico e cultural.

O mecanismo é conhecido e cruel. A perda populacional fecha serviços, comércios, bares e restaurantes, criando um círculo vicioso que torna a região menos atraente e incentiva novas partidas.

É por isso que a chegada de famílias, mesmo poucas, pode ter impacto desproporcional, não apenas por população, mas por manter escola, justificar transporte, sustentar comércio e reativar vida comunitária.

Extremadura e o Vale de Ambroz: como organizações tentam destravar a mudança

Para enfrentar o problema, iniciativas locais buscam revitalizar territórios na Espanha, gerar empregos e atrair moradores.

No Vale de Ambroz, em Extremadura, uma associação voltada ao desenvolvimento integral trabalha para tornar a mudança viável na prática.

Entre as medidas, aparecem um banco de imóveis e terras disponíveis para aluguel e a oferta de informações sobre serviços existentes, como hospitais, postos de saúde, escolas e creches.

Esse tipo de suporte reduz a insegurança de quem pensa em migrar, porque a mudança não depende apenas de casa, mas de infraestrutura básica, especialmente para famílias com filhos.

O movimento também atrai perfis novos. A associação passou a ser procurada por famílias latino-americanas interessadas em oportunidades de trabalho na região.

Muitos relatam que estão há anos em Madri ou Valência e gostariam de mudar, o que cria um cruzamento entre migração internacional e repovoamento rural dentro da Espanha.

As barreiras: falta de moradia, estereótipos e o choque com a vida sem conveniências

Mesmo com preços mais baixos do que nas grandes cidades, a moradia no interior da Espanha nem sempre é abundante.

Em muitos vilarejos, há escassez, e isso limita o potencial de repovoamento. A avaliação é direta: a falta de habitação é uma das razões pelas quais mais pessoas não se mudam.

Soma-se a isso uma crítica recorrente: projetos de moradia pública quase sempre se concentram em cidades ou grandes centros urbanos.

A pressão demográfica aumenta o problema. A Espanha recebeu mais de 500 mil pessoas no último ano e há um déficit de quase 150 mil moradias por ano, que se acumula e amplia a demanda. Esse déficit empurra preços em toda a Espanha e torna a disputa por moradia um fator estruturante.

Além disso, existe a barreira cultural. Estereótipos sobre o campo afastam pessoas que poderiam se adaptar bem. Ainara descreve que muitos viam a vida rural como retrocesso, mas ela relata ter encontrado pessoas com vidas diferentes e interessantes.

Ainda assim, há sacrifícios reais: não existe a lógica de “tudo a qualquer hora”, não dá para ir às 2h a um minimercado como um Carrefour Express, não há Glovo, e abrir mão desse padrão urbano é difícil para muitos.

Ao mesmo tempo, é justamente aí que os neorrurais apontam ganhos: mais tranquilidade, vínculos sociais mais fortes, rotina menos ruidosa e criação de filhos com natureza por perto, em vez de um cotidiano dominado por trânsito e pressão imobiliária.

A Espanha vazia começa a mudar quando poucos decidem ficar, mas você acha que o maior freio desse movimento na Espanha é o preço do aluguel nas cidades ou a falta de moradia disponível nos vilarejos?

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Fonte
Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x