A Kingston nasceu depois de uma perda quase total na Bolsa, passou pelas mãos do SoftBank e voltou para seus fundadores por uma fração do preço
A história da Kingston Technology parece improvável até para os padrões do Vale do Silício. Dois engenheiros imigrantes, John Tu e David Sun, venderam parte majoritária da empresa por US$ 1,5 bilhão em 1996 e, apenas três anos depois, recompraram a mesma fatia por US$ 450 milhões.
Hoje, a companhia continua privada, sem o vaivém de Wall Street, mas ocupa posição de destaque no mercado global de memórias, SSDs, cartões e soluções de armazenamento. Em 2025, a Kingston apareceu na lista da Forbes entre as maiores empresas privadas dos Estados Unidos, com receita anual de cerca de US$ 14,4 bilhões.
O que torna essa trajetória ainda mais rara é que Tu e Sun não apenas recuperaram o controle da empresa. Eles fizeram isso em um setor extremamente cíclico, onde preços de memória sobem e desabam conforme a demanda por computadores, servidores, data centers e, mais recentemente, inteligência artificial.
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Uma amizade nascida no basquete abriu caminho para uma das histórias mais curiosas da tecnologia

John Tu nasceu na China e David Sun nasceu em Taiwan. Os dois chegaram aos Estados Unidos em busca de oportunidades e acabaram se conhecendo em Los Angeles, durante partidas de basquete, antes de virarem sócios em negócios de tecnologia.
Os dois estudaram engenharia elétrica e fundaram uma primeira empresa, a Camintonn, especializada em produtos de memória. O negócio foi vendido em 1986 por cerca de US$ 6 milhões, valor que parecia garantir um futuro tranquilo.
Mas a tranquilidade durou pouco. Após o crash da Bolsa em 1987, conhecido como Black Monday, os dois perderam grande parte do dinheiro investido. Em vez de abandonar o setor, decidiram recomeçar.
Foi nesse contexto que surgiu a Kingston Technology, fundada em 1987, em Orange County, na Califórnia. De acordo com a própria Kingston, o primeiro produto da empresa foi um módulo de memória desenvolvido para computadores, em um momento em que os PCs começavam a se espalhar por escritórios e residências.
O negócio simples que virou uma potência sem fabricar seus próprios chips
A Kingston cresceu com uma estratégia direta. A empresa não se tornou uma fabricante de semicondutores no estilo Samsung, SK Hynix ou Micron. Seu foco foi comprar componentes, montar módulos de memória, testar produtos e entregar soluções confiáveis para consumidores, empresas, fabricantes de computadores e distribuidores.
Esse modelo pode parecer menos glamouroso do que construir fábricas bilionárias de chips, mas funcionou. Em 1988, a Kingston passou a oferecer garantia vitalícia para produtos de DRAM, algo incomum na época. Em 1989, a companhia começou a testar individualmente seus produtos, criando uma reputação forte em qualidade.
Segundo o histórico oficial da Kingston, em 1995 a companhia ultrapassou US$ 1,3 bilhão em vendas. No ano seguinte, a empresa já era vista como uma das grandes histórias de sucesso da tecnologia no sul da Califórnia.
A lógica era simples, mas difícil de executar: entregar memória confiável em escala, com suporte técnico, boa relação com distribuidores e atenção ao mercado corporativo. Esse conjunto colocou a Kingston em posição privilegiada justamente quando computadores pessoais, servidores e dispositivos digitais passaram a exigir cada vez mais memória.
O SoftBank pagou caro no auge e vendeu barato quando o mercado mudou
Em agosto de 1996, o SoftBank, grupo japonês liderado por Masayoshi Son, comprou 80% da Kingston por US$ 1,5 bilhão. Tu e Sun continuaram à frente da gestão e mantiveram uma participação de 20% na companhia.
O negócio chamou atenção não apenas pelo valor. Os fundadores decidiram distribuir US$ 100 milhões em bônus aos funcionários, gesto que virou símbolo da cultura interna da Kingston e reforçou a imagem de uma empresa que crescia sem romper com sua base.
Mas o mercado de memória mudou rapidamente. O setor é conhecido por ciclos de escassez e excesso de oferta. Quando há falta de componentes, os preços sobem e as margens aumentam. Quando a oferta cresce demais, os preços caem com força.
Foi esse ambiente que abriu espaço para uma virada incomum. Em julho de 1999, Tu e Sun comprariam de volta os mesmos 80% da Kingston por US$ 450 milhões, um terço do valor da venda feita três anos antes. O SoftBank, naquele momento, queria concentrar capital em empresas de internet, enquanto a Kingston ainda enfrentava os efeitos da queda nos preços de memória.
A recompra devolveu aos fundadores o controle de uma empresa que continuou crescendo
A recompra da Kingston virou um caso raro de “vender caro e comprar barato” no mundo da tecnologia. Tu e Sun receberam uma fortuna na venda, mantiveram influência na operação e, depois, retomaram o controle por um valor muito menor.
A diferença é que a Kingston não desapareceu após a transação. Pelo contrário. A empresa ampliou sua atuação em cartões de memória, pen drives, SSDs, módulos DRAM, produtos para gamers, soluções criptografadas e armazenamento corporativo.
De acordo com a Kingston, a companhia entrou no mercado de cartões flash em 1999, lançou seus primeiros USB drives em 2001 e criou a divisão Kingston Digital em 2003. Essas decisões ajudaram a empresa a acompanhar a mudança do mercado, que saiu do computador de mesa tradicional e avançou para câmeras digitais, notebooks, celulares, servidores, data centers e dispositivos conectados.
Esse ponto explica por que a história da Kingston não é apenas uma curiosidade financeira. A empresa atravessou várias fases da tecnologia mantendo a estrutura privada e o controle nas mãos dos fundadores.
A inteligência artificial colocou memória e armazenamento no centro da nova corrida tecnológica
O crescimento recente da inteligência artificial voltou a colocar memória e armazenamento no centro da indústria. Modelos de IA, data centers e serviços em nuvem exigem enormes volumes de DRAM, NAND, SSDs e soluções de alta velocidade.
Em relatório citado pela Kingston em outubro de 2025, a Kingston manteve a liderança global entre fornecedores terceirizados de módulos DRAM em 2024, com 66% de participação estimada por receita. O mesmo levantamento apontou que o mercado de módulos DRAM cresceu 7% em 2024, após queda no ano anterior.
A própria dinâmica do setor ajuda a explicar o novo valor estratégico da empresa. Quando fabricantes priorizam memórias de alta largura de banda e DDR5 para servidores, outros tipos de memória podem ficar mais apertados, pressionando preços e aumentando a importância de empresas capazes de distribuir produtos em escala.
Em 2026, Tu e Sun viram suas fortunas crescerem com a onda de demanda por memória ligada à IA. A publicação apontou que os dois continuam donos da Kingston em partes iguais, um detalhe raro em uma indústria marcada por aberturas de capital, fundos, fusões e aquisições.
A Kingston mostra como uma empresa discreta virou gigante sem abrir capital
A Kingston não tem a mesma visibilidade de gigantes como Nvidia, Microsoft ou Apple, mas seus produtos estão presentes em computadores, notebooks, servidores, câmeras, celulares, dispositivos IoT e sistemas corporativos. É o tipo de empresa que trabalha nos bastidores da tecnologia, mas sustenta uma parte essencial da infraestrutura digital.
Em janeiro de 2026, a Kingston anunciou que subiu para a 28ª posição na lista Forbes de maiores empresas privadas dos Estados Unidos em 2025. A companhia também afirmou permanecer como a principal empresa da categoria de hardware e equipamentos de tecnologia dentro do ranking.
O caso chama atenção porque Tu e Sun seguiram um caminho diferente do roteiro tradicional do Vale do Silício. Eles não abriram capital, não entregaram o controle a investidores externos e não transformaram a companhia em uma máquina de aquisições barulhentas.
A Kingston cresceu de maneira mais silenciosa, baseada em produto, distribuição, qualidade e relacionamento com clientes. E, justamente por isso, virou um exemplo de como uma empresa pode se tornar gigante sem estar diariamente no centro das manchetes.
Uma perda quase total virou o começo de uma fortuna ainda maior
A trajetória de John Tu e David Sun reúne crise, timing, disciplina e uma dose rara de paciência empresarial. Eles perderam dinheiro no crash de 1987, fundaram uma empresa no mesmo ano, venderam a maior parte dela em 1996 e recompraram o controle em 1999 por um valor muito menor.
Mais de três décadas depois, a Kingston continua relevante porque atua em um dos pontos mais sensíveis da economia digital: memória e armazenamento. Sem esses componentes, computadores, celulares, servidores, nuvem e inteligência artificial simplesmente não funcionam na escala exigida pelo mercado atual.
A história também mostra que nem toda gigante da tecnologia nasce de aplicativos, redes sociais ou carros elétricos. Às vezes, o império está em peças pequenas, quase invisíveis para o consumidor comum, mas indispensáveis para fazer o mundo digital continuar rodando.
Você acha que a recompra da Kingston foi genialidade, sorte ou uma mistura das duas coisas? Deixe sua opinião nos comentários e conte se já conhecia a história de John Tu, David Sun e da empresa por trás de tantas memórias e SSDs usados no mundo.

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