Recuperação dos pântanos históricos do Iraque devolve água a regiões abandonadas, impulsiona o retorno de moradores e faz biodiversidade reaparecer após anos de seca extrema. Alta no volume dos rios Tigre e Eufrates também amplia reservas hídricas do país e fortalece áreas associadas à antiga Mesopotâmia.
Os pântanos históricos do sul do Iraque voltaram a receber água depois de anos de seca severa, em uma recuperação que elevou a área submersa para algo entre 32% e 36%, ante no máximo 8% nos últimos cinco anos.
A mudança ocorre nas regiões de Chibayish e Ishan Hallab, abastecidas pelos rios Tigre e Eufrates, onde canoas, búfalos e pastagens reaparecem em áreas que haviam sido abandonadas por criadores e pescadores.
Retorno da água transforma cenário nos pântanos do Iraque
Na província de Dhi Qar, os canais que permaneceram secos durante anos voltaram a receber embarcações, enquanto búfalos atravessam áreas alagadas e novas manchas de vegetação começam a alterar a paisagem que havia sido abandonada por parte dos moradores.
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“Há algum tempo, todo o nosso gado morreu e não havia água nenhuma”, disse Haidar Qassem, criador de búfalos no pântano central, ao relatar que muitas famílias deixaram a região durante o período mais severo da estiagem.
Com a recuperação gradual do nível da água ao longo deste ano, parte dos rebanhos começou a ser recomposta, o que também incentivou o retorno de moradores que dependem diretamente da pesca, da criação de búfalos e das áreas alagadas para sobreviver.
Chuvas fortes e gestão hídrica ajudam recuperação dos rios
De acordo com autoridades iraquianas de recursos hídricos, chuvas sazonais mais intensas, aliadas a uma gestão mais eficiente das barragens, contribuíram para elevar os reservatórios e melhorar o abastecimento das áreas pantanosas no sul do país.
Com mais água armazenada, o governo passou a ampliar as liberações para os pântanos, aumentando o fluxo nos rios Tigre e Eufrates e permitindo que a água voltasse a alcançar regiões que haviam secado completamente nos últimos anos.
Segundo o Ministério de Recursos Hídricos, as reservas estratégicas do Iraque cresceram cerca de 6 bilhões de metros cúbicos neste ano, cenário que amplia a capacidade do país de administrar o abastecimento durante os meses mais quentes.
Região ligada ao Jardim do Éden volta a ganhar vida

A área de Ishan Hallab, que integra os pântanos iraquianos, secou completamente entre 2021 e 2025, segundo o especialista Jassim al-Assadi, forçando criadores a deixar o local.
A região faz parte dos Ahwar do Sul do Iraque, conjunto reconhecido pela Unesco em 2016 como Patrimônio Mundial, formado por quatro áreas pantanosas e três sítios arqueológicos ligados à antiga Mesopotâmia.
Alguns associam esses pântanos ao Jardim do Éden bíblico, embora essa identificação pertença ao campo histórico-cultural e religioso, não a uma confirmação científica.
Biodiversidade reaparece após anos de seca extrema
Além da recuperação do volume de água, a biodiversidade da região também começa a apresentar sinais graduais de retomada, especialmente em áreas onde a vegetação havia praticamente desaparecido por causa da estiagem prolongada.
O aumento dos níveis favorece a reprodução de peixes, o crescimento de plantas nativas e a expansão dos juncos utilizados por moradores na construção de casas tradicionais erguidas ao longo das áreas alagadas.
Há milhares de anos, os chamados Árabes dos Pântanos mantêm modos de vida ligados à pesca, à criação de búfalos e ao uso direto dos recursos naturais presentes nos alagados do sul iraquiano.
Mesmo com a melhora recente, moradores ainda cobram novas liberações de água, já que os efeitos acumulados de anos de seca, represamento dos rios e pressão climática continuam afetando parte da região.

Drenagem histórica reduziu áreas alagadas no sul do Iraque
Durante décadas, os pântanos iraquianos chegaram a ocupar uma área superior a 9.500 km², mas sofreram uma ampla drenagem nos anos 1990, período em que o governo de Saddam Hussein promoveu intervenções que alteraram profundamente a região.
Depois da queda de Saddam, em 2003, parte das áreas úmidas passou por um processo gradual de reinundação conduzido pelo governo iraquiano, permitindo o retorno progressivo de cerca de 250 mil Árabes dos Pântanos.
Para moradores como o criador de búfalos Raheem Abdul Zahra, a recuperação recente mudou novamente a rotina de comunidades que conviviam havia anos com canais secos, perda de vegetação e dificuldade para manter os rebanhos. “A terra estava seca, mas agora está viva novamente”, afirmou.

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