Governo federal anuncia leilão inédito de armazenamento de energia para integrar a energia solar e eólica, reduzir desperdícios e aumentar a segurança do sistema elétrico nacional.
O avanço acelerado da energia solar no Brasil começa a exigir soluções estruturais capazes de garantir equilíbrio entre oferta e demanda.
Diante desse cenário, o governo federal prepara um leilão inédito voltado à contratação de sistemas de armazenamento de energia elétrica em larga escala, com foco em grandes parques de baterias.
A iniciativa, prevista para ocorrer no próximo ano, permitirá que empresas explorem o serviço de armazenamento por um período de dez anos, com início da operação a partir de 2028.
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Trata-se de uma medida estratégica para acompanhar o crescimento das fontes renováveis e evitar perdas expressivas de geração limpa.
Desperdício de energia limpa pressiona planejamento do setor
Atualmente, o sistema elétrico nacional enfrenta um paradoxo. Embora o Brasil disponha de elevada produção de energia solar, eólica e hidrelétrica, parte relevante desse potencial não é aproveitada.
Em determinados horários do dia, a geração supera a demanda, o que obriga o Operador Nacional do Sistema (ONS) a determinar cortes para evitar sobrecarga na rede.
Segundo estimativas oficiais, cerca de 20% de todo o potencial de geração renovável foi desperdiçado neste ano.
Esse volume inclui eletricidade produzida por usinas solares e parques eólicos que operam com maior intensidade durante o período diurno, quando o consumo ainda é relativamente menor.
Leilão busca equilibrar oferta e demanda ao longo do dia
Para enfrentar esse desequilíbrio, o novo leilão prevê a instalação de grandes sistemas de baterias, capazes de armazenar a eletricidade gerada em excesso e liberá-la nos momentos de maior consumo. Assim, a energia solar produzida ao longo do dia poderá ser redistribuída nos horários de pico.
A principal janela de uso desse armazenamento ocorre entre 18h e 21h, período em que a demanda cresce de forma significativa, sobretudo nas regiões Sul e Sudeste. Nessa faixa, o consumo residencial se intensifica, enquanto a geração solar já diminuiu.
De acordo com Paulo Godoy, diretor de Relações Institucionais de uma empresa do setor, a função essencial do armazenamento é garantir o equilíbrio da rede elétrica. Ao permitir a transferência de energia entre diferentes horários, os sistemas de baterias reduzem a volatilidade da oferta e aumentam a confiabilidade do fornecimento.
Além disso, a tecnologia contribui para minimizar falhas e interrupções. Para Mateus Henrique Balan, especialista em energia, o consumidor final tende a ser diretamente beneficiado.
Segundo ele, o uso de baterias reduz o risco de apagões e melhora a qualidade do serviço prestado pelas distribuidoras.
Experiências práticas já mostram resultados positivos
Embora o leilão represente um marco regulatório, o uso de armazenamento já está presente em algumas regiões do país. Um exemplo ocorre no Litoral Sul de São Paulo, onde uma empresa opera sistemas de baterias para atender a concessionária local.
Nesse caso, a energia armazenada é liberada nos momentos de maior demanda, garantindo o abastecimento de 21 municípios.
A experiência demonstra que o modelo é tecnicamente viável e pode ser ampliado em escala nacional com apoio regulatório e contratos de longo prazo.
O impacto do armazenamento vai além da estabilidade da rede. No médio prazo, a tecnologia tende a contribuir para a redução da conta de luz, especialmente ao diminuir a dependência das usinas termelétricas, tradicionalmente mais caras e poluentes.
O CEO de uma empresa do setor, Giorgio A M de Saint Seigne, afirma que a substituição de geradores a diesel por sistemas baseados em energia solar combinada com baterias já é uma alternativa técnica e economicamente viável, com preços competitivos no mercado atual.
Ganhos ambientais e econômicos entram na conta
A transição do uso intensivo de termelétricas para soluções de armazenamento associadas à energia solar representa ganhos ambientais relevantes. Menores emissões e maior previsibilidade operacional passam a fazer parte do planejamento energético.
Nesse contexto, Talita Porto, diretora técnico-regulatória da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR), ressalta o impacto econômico positivo da mudança.
Segundo ela, a substituição das termelétricas mais poluentes por baterias, no período entre 2028 e 2030, pode gerar uma redução no Custo de Operação do Sistema superior a R$ 2 bilhões.
Vale destacar que o movimento brasileiro segue uma tendência internacional. Nos últimos anos, a expressiva redução dos custos das baterias ampliou seu uso em diversos países, tanto para serviços ao sistema quanto para reforço da estabilidade da rede elétrica.
Consequentemente, o armazenamento passou a ser adotado para múltiplas finalidades, incluindo melhoria da qualidade do fornecimento, integração de fontes renováveis intermitentes e reforço da segurança energética.
Nesse cenário, a energia solar assume papel central, impulsionando investimentos e exigindo soluções cada vez mais sofisticadas para garantir seu pleno aproveitamento.

