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Geleira segurou uma montanha por séculos, mas quando cedeu sem aviso no Alasca criou um tsunami de 481 metros maior que o Burj Khalifa e revelou como o aquecimento global pode transformar fiordes isolados em zonas de catástrofe repentina

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Escrito por Felipe Alves da Silva Publicado em 07/05/2026 às 16:53 Atualizado em 07/05/2026 às 16:56
Fiorde glacial no Alasca com geleira recuada e encostas rochosas, cenário associado ao tsunami de 481 metros em Tracy Arm.
Fiorde no Alasca ilustra o risco de tsunamis provocados por deslizamentos associados ao recuo de geleiras.
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O colapso em Tracy Arm Fjord mostrou que o recuo silencioso do gelo pode liberar encostas inteiras, gerar ondas gigantescas e redefinir a forma como cientistas avaliam riscos climáticos extremos

Uma geleira que durante milênios funcionou como uma espécie de muralha natural acabou recuando o suficiente para expor uma encosta instável no Alasca. Então, na manhã de 10 de agosto de 2025, uma enorme massa de rocha despencou dentro do Tracy Arm Fjord e gerou um tsunami de 481 metros de altura, uma onda maior que o Burj Khalifa, em Dubai, considerado o prédio mais alto do mundo. Segundo informações divulgadas em reportagem sobre o incidente e em estudo publicado na revista Science, o evento foi classificado como o segundo maior tsunami já registrado e o maior já documentado sem ter sido provocado por um terremoto.

O episódio chamou a atenção da comunidade científica porque expôs uma ameaça que costuma avançar de forma lenta, quase imperceptível, mas pode terminar em uma catástrofe súbita. O recuo das geleiras, muitas vezes associado apenas ao aquecimento global, à perda de paisagens congeladas e ao aumento do nível do mar, também pode funcionar como gatilho direto para deslizamentos gigantescos, tsunamis locais e destruição em regiões de fiordes.

Nesse sentido, o desastre de Tracy Arm se tornou um alerta poderoso. Ele mostra que as mudanças climáticas não provocam apenas transformações graduais. Em determinados ambientes, pequenas alterações acumuladas ao longo de meses, anos ou décadas podem desestabilizar montanhas inteiras e liberar uma força devastadora em poucos segundos.

Uma onda mais alta que quase todos os prédios do planeta

Mapa de Tracy Arm, no Alasca, com os principais pontos ligados ao colapso da geleira e ao tsunami de 2025. Crédito: Science

O colapso da montanha foi repentino e violento. De acordo com um artigo publicado na Science e com pesquisas apresentadas na Assembleia Geral da União Europeia de Geociências de 2026, a encosta cedeu durante as primeiras horas da manhã, lançando uma grande quantidade de rochas no estreito fiorde do Alasca. O impacto deslocou um volume imenso de água e formou uma onda que alcançou 481 metros em seu ponto mais alto.

Para dimensionar o tamanho desse fenômeno, basta comparar a altura da onda com a paisagem urbana global. Um tsunami dessa proporção ultrapassaria a altura da maioria absoluta dos edifícios existentes na Terra. Conforme os pesquisadores destacaram, a onda ficou abaixo de apenas 14 construções no mundo, o que ajuda a explicar por que o evento passou a ser visto como uma das manifestações mais impressionantes de perigo geológico associado ao clima.

Além disso, o fiorde não voltou imediatamente ao normal depois do impacto inicial. Durante dias, a água continuou oscilando em um fenômeno conhecido como seiche, uma espécie de onda estacionária que permanece se movimentando dentro de bacias fechadas ou canais estreitos. Imagens feitas por drones mostraram icebergs flutuando em águas turbulentas, paredões de rocha recém-expostos e marcas visíveis deixadas pela força da onda nas margens.

A geografia do Tracy Arm Fjord também agravou o desastre. Diferentemente de tsunamis que se espalham pelo oceano aberto e perdem energia à medida que avançam, a onda ficou comprimida dentro de um canal estreito. Com isso, a energia liberada pelo deslizamento foi direcionada contra as paredes do fiorde, intensificando o impacto e aumentando o potencial destrutivo.

Apesar da escala impressionante, o tsunami não deixou mortos. Para Daniel Shugar, geomorfólogo da Universidade de Calgary e líder do estudo, esse desfecho teve relação direta com o horário em que o colapso aconteceu. Segundo ele, o risco para um navio de cruzeiro específico em um dia específico é baixo, mas a região teve uma sorte extraordinária porque o tsunami ocorreu naquele momento e não cinco horas depois, quando poderia haver maior presença humana nas proximidades.

Shugar também alertou que esse risco pode crescer à medida que novas estruturas forem instaladas em áreas vulneráveis. Assentamentos, campos de mineração, operações de petróleo e gás, além do tráfego turístico em fiordes do Alasca, podem ampliar a exposição humana a eventos desse tipo.

A geleira que segurava a montanha perdeu força

Para entender por que a montanha desabou, é preciso observar o papel da geleira South Sawyer. Durante muito tempo, ela funcionou como um apoio natural para a encosta. A massa de gelo pressionava a base da montanha e ajudava a manter as rochas estáveis. No entanto, à medida que a geleira foi afinando e recuando, esse suporte desapareceu.

O dado mais impressionante é que a South Sawyer Glacier recuou cerca de 500 metros apenas na primavera de 2025. Esse recuo acelerado deixou parte da encosta exposta e vulnerável. Sem a pressão estabilizadora do gelo, a rocha perdeu sustentação e ficou mais propensa a desmoronar.

Os cientistas chamam esse processo de debuttressing, termo usado para descrever a remoção do efeito de suporte exercido por uma geleira. Em outras palavras, quando o gelo recua, ele deixa de funcionar como uma “escora” natural. O resultado pode ser uma encosta aparentemente intacta, mas internamente fragilizada.

Imagens de satélite indicam que esse fenômeno não está restrito ao Tracy Arm Fjord. Diversas encostas no Alasca apresentam movimentação acima de geleiras em processo de afinamento. Portanto, o caso de 2025 pode não ser uma exceção isolada, mas parte de um padrão mais amplo em regiões montanhosas e glaciais.

Embora chuvas intensas possam ter contribuído para acionar o colapso, a equipe de Shugar considera que o recuo da geleira foi a causa principal. A chuva, nesse cenário, teria funcionado como o empurrão final em uma encosta que já havia sido desestabilizada pelo desaparecimento gradual do gelo.

Esse ponto é essencial para compreender a gravidade do problema. O tsunami não surgiu apenas de um evento meteorológico pontual ou de uma falha geológica inesperada. Ele foi resultado de um processo climático prolongado que alterou o equilíbrio físico da paisagem até que a montanha não resistisse mais.

Imagens mostram o colapso da geleira em Tracy Arm, no Alasca, entre os dias 7 e 13 de agosto de 2025. Crédito: Science

Mudança climática pode transformar riscos lentos em desastres repentinos

O tsunami de Tracy Arm representa um tipo cada vez mais preocupante de desastre climático: aquele que nasce de mudanças lentas, mas se manifesta de forma abrupta e violenta. Diferentemente de terremotos, que podem gerar sinais sísmicos claros, ou furacões, que costumam ser monitorados por dias antes de atingir uma região, o recuo de uma geleira pode parecer apenas uma transformação gradual da paisagem.

No entanto, como mostrou o episódio no Alasca, essa mudança silenciosa pode preparar o terreno para um colapso catastrófico. Quando a geleira perde massa, a montanha perde sustentação. Quando a encosta perde estabilidade, o risco deixa de ser teórico. E quando milhões de toneladas de rocha caem dentro de um fiorde estreito, a consequência pode ser uma onda gigantesca.

Eventos semelhantes já foram observados em lugares como Taan Fiord, também no Alasca, e Dixon Fjord, na Groenlândia. Em ambos os casos, deslizamentos de terra provocaram tsunamis em ambientes glaciais, reforçando a ligação entre aquecimento global, recuo de geleiras e riscos geológicos em cadeia.

A glaciologista Leigh Stearns, da Universidade da Pensilvânia, que não participou do estudo sobre Tracy Arm, destacou que a percepção pública sobre geleiras pode ser enganosa. Segundo ela, muitas vezes o recuo glacial é visto como um processo longo e contínuo, mas ele pode desencadear eventos catastróficos repentinos.

Essa constatação muda a forma como governos, cientistas e empresas precisam olhar para regiões congeladas. Não se trata apenas de medir quanto gelo foi perdido ou quantos metros uma geleira recuou. É necessário avaliar quais encostas ficaram expostas, quais fiordes podem amplificar ondas, quais áreas recebem turistas e quais projetos de infraestrutura estão sendo planejados em zonas de risco.

Conforme publicado pelos pesquisadores, o caso de Tracy Arm também serve como alerta para outras regiões costeiras e montanhosas, incluindo áreas do Canadá, como a Colúmbia Britânica, onde fiordes, geleiras e ocupação humana podem formar uma combinação delicada. A expressão “tsunami de 481 metros no Alasca é um aviso para B.C.” resume justamente essa preocupação: o fenômeno não deve ser tratado como uma curiosidade remota, mas como um sinal de risco climático ampliado.

Para Shugar, embora a chance de um navio específico ser atingido em um dia específico continue baixa, a exposição tende a aumentar conforme mais pessoas, embarcações e empreendimentos entram nessas regiões. Isso significa que o perigo não depende apenas da natureza, mas também das escolhas humanas sobre ocupação, turismo e exploração econômica.

Stearns resume o problema com uma ideia central: o clima funciona como um multiplicador de ameaças. Ele não cria todos os riscos do zero, mas pode intensificar perigos já existentes e conectar processos que antes eram analisados separadamente. No caso de Tracy Arm, uma mudança gradual no gelo desencadeou um colapso rochoso, que por sua vez gerou um tsunami monumental.

O alerta final é claro. Pequenas mudanças, quando acumuladas em ambientes frágeis, podem produzir consequências enormes. E, se o mundo esperar por novos desastres para agir, o próximo tsunami gerado por uma geleira em retirada pode não ocorrer em uma área vazia, nem em um horário tão improvavelmente favorável.

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Felipe Alves da Silva

Sou Felipe Alves, com experiência na produção de conteúdo sobre segurança nacional, geopolítica, tecnologia e temas estratégicos que impactam diretamente o cenário contemporâneo. Ao longo da minha trajetória, busco oferecer análises claras, confiáveis e atualizadas, voltadas a especialistas, entusiastas e profissionais da área de segurança e geopolítica. Meu compromisso é contribuir para uma compreensão acessível e qualificada dos desafios e transformações no campo estratégico global. Sugestões de pauta, dúvidas ou contato institucional: fa06279@gmail.com

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