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Milhões de formigas-cortadeiras (Atta e Acromyrmex) criam fungos em câmaras que chegam a metros de profundidade, regulam umidade e ventilação e mantêm uma agricultura que antecede a humana em milhões de anos

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Escrito por Débora Araújo Publicado em 20/01/2026 às 14:43 Atualizado em 20/01/2026 às 14:44
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Formigas-cortadeiras (Atta e Acromyrmex) cultivam fungos em câmaras subterrâneas, regulam microclima e praticam agricultura há milhões de anos.

Pouca gente imagina que uma das tecnologias mais antigas de produção de alimentos do planeta não nasceu com humanos, mas com insetos. Muito antes das primeiras plantações de trigo no Crescente Fértil, das primeiras aldeias agrícolas na Ásia ou dos primeiros cultivos de milho nas Américas, formigas dos gêneros Atta e Acromyrmex já conduziam um sistema agrícola completo — com plantio, controle de pragas, manejo de fungos, logística de transporte e engenharia ambiental — dentro de câmaras subterrâneas projetadas com precisão.

Essas formigas-cortadeiras são nativas das Américas e se tornaram uma das sociedades animais mais complexas já descritas pela ciência. Cada colônia abriga milhões de indivíduos, e o formigueiro pode atingir vários metros de profundidade e dezenas de metros de extensão, com túneis, dutos de ventilação e câmaras especializadas. Ali dentro, em condições que lembram estufas agrícolas, elas cultivam fungos mutualistas do gênero Leucoagaricus, sua única fonte de alimento sólido.

Como funciona a agricultura das Atta e Acromyrmex

A base do sistema começa com a coleta de folhas. Enquanto, para nós, as folhas parecem apenas matéria vegetal, para as formigas são “substrato agrícola”. Elas não comem a folha: mastigam, processam e transformam em um leito nutritivo que alimenta o fungo cultivado. Esse fungo cresce em estruturas chamadas “gongilídios”, que são então consumidos pelas formigas.

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Pesquisas publicadas em periódicos como Science, PNAS e Myrmecological News descrevem esse processo como um caso de mutualismo obrigatório: o fungo não sobrevive na natureza sem as formigas e as formigas não sobrevivem sem o fungo. Ou seja, é uma simbiose que evoluiu durante 10 a 15 milhões de anos, muito antes da agricultura humana, que tem pouco mais de 10 mil anos.

Engenharia subterrânea e controle ambiental

A parte mais impressionante não é apenas o cultivo, mas o ambiente construído para ele. As Atta e Acromyrmex cavam sistemas complexos de câmaras e corredores capazes de:

  • Controlar umidade, essencial para o desenvolvimento fúngico
  • Renovar o ar, por meio de dutos de ventilação e diferenças de pressão
  • Regular temperatura, evitando calor excessivo e desidratação
  • Gerenciar CO₂, evitando acúmulo resultante da respiração do fungo

Estudos de biomecânica e ecologia do solo demonstram que algumas câmaras atingem 1 a 3 metros de profundidade, aproveitando a estabilidade térmica do subsolo. Em grandes formigueiros, sensores já registraram redes com dezenas de metros horizontais e estruturas que funcionam como um “condicionador de ar biológico”, ajustando o microclima internamente sem eletricidade, motores ou combustíveis — apenas física e arquitetura.

Controle de pragas e defesas biológicas

Como toda monocultura, fungos cultivados também estão sujeitos a doenças. As cortadeiras enfrentam um inimigo histórico: o fungo parasita Escovopsis. Para enfrentá-lo, as colônias contam com:

  • Bactérias simbióticas do gênero Actinobacteria, que vivem na cutícula das formigas e produzem compostos antibióticos
  • Operárias especializadas em limpar o jardim fúngico
  • Remoção seletiva de partes contaminadas do substrato

O uso de antibióticos naturais é um dos aspectos mais fascinantes desse sistema. Trabalhos publicados em PNAS descrevem compostos produzidos por bactérias nas formigas com efeito similar à penicilina em escala microscópica — um caso notável de biotecnologia natural milhões de anos antes da medicina moderna.

Impacto ecológico e escala industrial

Em regiões de floresta, cerrado e ambientes tropicais, as cortadeiras movimentam quantidades gigantescas de biomassa. Estimativas ecológicas indicam que:

  • Uma única colônia pode cortar centenas de quilos de folhas por ano
  • Colônias grandes podem atingir até 8 milhões de indivíduos
  • Jardins fúngicos podem ocupar centenas de litros de volume interno
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Além de transformar matéria vegetal em biomassa fúngica, as Atta e Acromyrmex:

  • Revolvem o solo, aumentando sua porosidade
  • Alteram a ciclagem de nutrientes, transportando nutrientes do dossel para o subsolo
  • Aumentam a infiltração de água, graças às galerias
  • Influenciam a sucessão ecológica, modificando paisagens ao longo de décadas

Esse impacto é tão significativo que algumas pesquisas consideram as cortadeiras “engenheiras do ecossistema”, categoria compartilhada com castores, cupins e organismos que literalmente remodelam o ambiente.

Uma agricultura que antecede a humana

Enquanto a agricultura humana surgiu há pouco mais de 10 mil anos, com a domesticação de cereais e gramíneas, as Atta e Acromyrmex já realizavam práticas agrícolas na época dos últimos mastodontes, preguiças-gigantes e tigres-dente-de-sabre. Sua tecnologia biológica é estável, duradoura e resiliente ao clima. Sem ferramentas, sem combustíveis, sem armazenamento industrial — apenas simbiose, química e arquitetura subterrânea.

No fim das contas, a pergunta deixa de ser “como as formigas fazem isso?” e passa a ser “quantas outras tecnologias naturais ainda ignoramos?”. Em um mundo que busca soluções sustentáveis para produção de alimentos, antibióticos e controle ambiental, talvez os maiores segredos estejam escondidos em sistemas biológicos que existem há milhões de anos, silenciosos sob nossos pés.

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Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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