Lançamento realizado em 12 de junho marcou a volta do principal foguete japonês e testou uma configuração criada para reduzir custos e ampliar a competitividade do país no mercado espacial
O Japão conseguiu colocar novamente seu principal foguete em voo após meses de incerteza provocados por uma falha que impediu um satélite de navegação de alcançar a órbita planejada. O H3 decolou com sucesso em 12 de junho de 2026, levando seis pequenos satélites e uma carga destinada a avaliar o desempenho do veículo.
A decolagem ocorreu às 9h53min59s no horário do Japão, a partir do Centro Espacial de Tanegashima, no sul do país. De acordo com a Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial, a JAXA, o foguete seguiu a trajetória prevista e seu segundo estágio chegou à órbita determinada para a missão.
Cerca de 16 minutos depois da partida, foram confirmadas as separações dos satélites PETREL e STARS-X. O sistema também enviou os comandos de liberação para as outras quatro cargas, chamadas BRO-22, VERTECS, HORN-L e HORN-R.
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O resultado tem peso maior do que um lançamento rotineiro. O voo marcou a estreia da configuração H3-30, considerada uma alternativa mais simples e econômica, e representou uma reação do programa espacial japonês depois da perda de uma missão importante em dezembro de 2025.
H3 voltou a voar depois de uma falha no segundo estágio
O lançamento anterior mais problemático aconteceu em 22 de dezembro de 2025, quando outro foguete H3 transportava o Michibiki 5, satélite integrante do sistema japonês de posicionamento e navegação. O motor do segundo estágio não conseguiu realizar corretamente uma nova ignição e encerrou seu funcionamento antes do previsto.
Com isso, o satélite não foi colocado na órbita planejada. Segundo informações divulgadas pela AFP, a falha interrompeu uma sequência de avanços do programa e aumentou a pressão sobre os responsáveis pelo desenvolvimento do novo foguete japonês.
Após o acidente, técnicos realizaram verificações adicionais no veículo e em componentes ligados à sustentação das cargas. A missão de junho também foi usada para coletar novos dados de voo, necessários para elevar a confiabilidade das próximas operações.
O problema de 2025 não havia sido o primeiro enfrentado pelo H3. Em março de 2023, durante o voo inaugural, o segundo estágio também apresentou uma falha, levando os controladores a destruírem o foguete e causando a perda do satélite de observação terrestre ALOS-3.
Nova configuração troca propulsores laterais por três motores principais
A grande novidade do voo foi a configuração conhecida como H3-30. Ela utiliza três motores líquidos LE-9 no primeiro estágio e não depende dos grandes propulsores sólidos instalados nas laterais em outras versões da família H3.
Essa estrutura foi planejada para missões que não exigem a potência máxima oferecida pelas configurações mais pesadas. Ao retirar os propulsores laterais, os engenheiros buscam simplificar o veículo, diminuir o número de componentes e reduzir o preço do lançamento.
Segundo a Associated Press, o H3-30 foi criado como uma versão de menor custo capaz de ajudar o Japão a competir em um mercado dominado por empresas que lançam foguetes com alta frequência. O modelo oferece capacidade superior a quatro toneladas para determinadas órbitas sincronizadas com o Sol, utilizadas principalmente por satélites de observação da Terra.
Os motores LE-9 queimam hidrogênio e oxigênio líquidos e foram desenvolvidos com uma arquitetura que procura reduzir a quantidade de peças. Algumas partes também empregam técnicas de fabricação avançadas, incluindo impressão 3D, com o objetivo de tornar a produção menos complexa.
A família H3 foi projetada para aceitar diferentes combinações. Dependendo da missão, o foguete pode usar dois ou três motores principais, além de nenhum, dois ou quatro propulsores sólidos, permitindo adaptar capacidade, preço e desempenho às necessidades de cada cliente.
Seis satélites testarão observação da Terra e combate ao lixo espacial

Apesar de a principal carga do voo ser um equipamento de avaliação do próprio foguete, a capacidade restante foi aproveitada para transportar seis pequenos satélites de universidades, empresas e centros de pesquisa. As cargas possuem objetivos científicos, ambientais e comerciais bastante diferentes.
O PETREL, também chamado de Umitsubame, foi desenvolvido pelo Instituto de Ciência de Tóquio. Com aproximadamente 65 quilos, ele leva câmeras multiespectrais e hiperespectrais para observar oceanos e áreas terrestres, além de um telescópio ultravioleta destinado ao estudo de objetos astronômicos.
A documentação técnica da missão informa que os dados de imagem poderão ser usados em pesquisas e aplicações comerciais. Sensores desse tipo conseguem identificar características que não são facilmente percebidas em fotografias comuns, como diferenças na vegetação, na água e nos materiais presentes na superfície.
O STARS-X, da Universidade de Shizuoka, realizará um experimento mais incomum. O satélite tentará estender no espaço um cabo de aproximadamente um quilômetro, sobre o qual um pequeno robô poderá se deslocar para controlar o sistema.
A estrutura inclui uma rede destinada a demonstrar a captura de um objeto que simula um detrito espacial. O teste não significa que o satélite começará imediatamente a retirar lixo real da órbita, mas poderá ajudar no desenvolvimento de futuras tecnologias para lidar com equipamentos abandonados ao redor da Terra.
O BRO-22 integra uma constelação comercial especializada na detecção de sinais de rádio emitidos por embarcações. A tecnologia pode ser utilizada para acompanhar o tráfego marítimo e identificar atividades suspeitas, incluindo possíveis operações ilegais em áreas oceânicas.
Satélite investigará uma luz misteriosa presente no Universo
Outra carga transportada foi o VERTECS, um pequeno satélite desenvolvido com participação de universidades japonesas, instituições de Taiwan e pesquisadores ligados ao setor espacial. Seu objetivo é observar a chamada radiação de fundo extragaláctica em diferentes faixas de luz visível.
Essa radiação reúne sinais luminosos produzidos ao longo da história do Universo. Algumas medições indicam que o brilho observado pode ser maior do que o explicado apenas pela soma das galáxias conhecidas, levantando dúvidas sobre a existência de fontes ainda não identificadas.
O VERTECS deverá observar uma ampla região do céu com um telescópio de grande campo de visão. Os cientistas esperam que as informações ajudem a investigar a formação das primeiras estruturas cósmicas, estrelas dispersas ao redor de galáxias e outras possíveis origens dessa “luz misteriosa”.
Os satélites HORN-L e HORN-R, por sua vez, testarão dispositivos desenvolvidos para acelerar a retirada de equipamentos que já encerraram suas atividades. Cada unidade poderá abrir uma membrana para aumentar o contato com as camadas mais externas da atmosfera.
Esse aumento da resistência do ar tende a reduzir gradualmente a altitude do objeto, fazendo com que ele reentre na atmosfera mais rapidamente. A proposta é evitar que pequenos satélites permaneçam durante muitos anos como lixo espacial e aumentem o risco de colisões.
Sucesso alivia pressão sobre o programa espacial japonês
O H3 foi desenvolvido pela JAXA em parceria com a Mitsubishi Heavy Industries para substituir o H-IIA, foguete que acumulou um histórico de alta confiabilidade. O novo veículo precisa oferecer não apenas segurança, mas também preços e prazos capazes de atrair missões comerciais.
A pressão é grande porque empresas de satélites podem contratar lançamentos nos Estados Unidos ou em outros países. A Reuters informou que o Japão tenta ampliar sua capacidade nacional de lançamento para atender projetos científicos, comerciais e de segurança sem depender excessivamente de foguetes estrangeiros.
A missão bem-sucedida não apaga os problemas anteriores, mas mostra que o programa conseguiu retomar as operações após a falha de dezembro. Cada novo voo será decisivo para demonstrar que o H3 pode funcionar regularmente, e não apenas completar missões isoladas.
A meta de longo prazo envolve aumentar a frequência de lançamentos e transformar o H3 em uma opção competitiva internacionalmente. Para isso, o Japão precisará reduzir custos, cumprir calendários e construir um histórico consistente de missões bem-sucedidas.
Mercado espacial exige foguetes mais baratos e lançamentos frequentes
O mercado de lançamentos mudou rapidamente com o avanço de foguetes parcialmente reutilizáveis e serviços compartilhados para pequenos satélites. Universidades e empresas passaram a buscar viagens mais baratas, mesmo quando precisam dividir o foguete com diversas cargas.
Nesse cenário, a flexibilidade do H3 pode ser uma vantagem. O Japão poderá utilizar versões mais simples para cargas menores e configurações com propulsores sólidos para satélites pesados ou missões que exigem maior energia.
O lançamento de seis satélites secundários também demonstra como um voo experimental pode ser aproveitado para atender diferentes projetos. Essa prática reduz o desperdício de capacidade e permite que instituições menores cheguem ao espaço sem contratar um foguete inteiro.
Entretanto, preço e capacidade não são suficientes. Operadores comerciais precisam saber que o foguete estará disponível na data prevista e que a carga terá uma probabilidade elevada de chegar à órbita correta.
Próximos voos mostrarão se a recuperação será duradoura
Os dados coletados durante a estreia do H3-30 serão analisados para confirmar o desempenho dos motores, do segundo estágio e dos sistemas responsáveis pela separação das cargas. Os satélites também precisarão estabelecer comunicação e iniciar suas operações para que seus objetivos sejam efetivamente cumpridos.
O lançamento representa uma vitória importante para o Japão, mas o verdadeiro teste será a repetição desse desempenho nos próximos anos. O país conseguiu voltar ao espaço com uma versão potencialmente mais barata, porém ainda terá de provar que o H3 pode combinar confiabilidade, frequência e custo competitivo diante dos líderes do setor.


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