Finlandesa de 28 anos troca carreira estável na Europa pelo sonho brasileiro, viraliza nas redes e expõe diferenças de ambição, acolhimento e qualidade de vida
Siina Matihaldi, 28, trocou a carreira no setor financeiro europeu pela tentativa de construir no Brasil uma nova vida após ser demitida durante férias em Salvador, decisão que viralizou ao expor contrastes entre estabilidade, ambição, acolhimento e qualidade de vida.
Demissão durante férias mudou o rumo
A finlandesa Siina Matihaldi recebeu por email o aviso oficial de demissão no primeiro dia das férias em Salvador, enquanto trabalhava no setor financeiro de uma multinacional norte-americana sediada na Europa.
A dispensa inesperada provocou um choque profundo que durou uma semana. Depois desse período, ela foi à praia, olhou o mar e concluiu que aquele momento funcionava como um sinal para não retornar.
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A escolha transformou em realidade uma brincadeira repetida entre colegas de trabalho. Antes da demissão, Siina costumava dizer, em tom de riso, que iria morar na praia no Brasil caso perdesse o emprego.
A frase, antes tratada como piada, virou decisão concreta. Ela resumiu a virada em vídeo publicado nas redes sociais, no qual se apresentou como uma finlandesa com CPF que decidiu perseguir o sonho brasileiro.
O relato rapidamente abriu discussões sobre prioridades, trabalho e bem-estar. A publicação destacou que ela havia perdido o emprego em finanças na Europa havia dois meses, enquanto passava férias no Brasil.
Busca por trabalho e residência no Brasil
Agora, Siina tenta conseguir uma vaga formal no mercado financeiro brasileiro para se estabelecer de maneira definitiva.
O objetivo é trabalhar no Rio ou em São Paulo, receber em reais e formalizar a residência permanente.
Ela afirma ter quatro anos de experiência na área financeira e um diploma de mestrado obtido na Holanda.
Com essa base, procura uma oportunidade que permita transformar a permanência no país em projeto duradouro.
A preparação para essa nova etapa inclui estudo intenso e diário da língua portuguesa. Siina se dedica ao exame de proficiência em português para estrangeiros como parte do processo de adaptação profissional e pessoal.
A rotina de aprendizado aparece como parte central da tentativa de construir o sonho brasileiro com estabilidade. Para ela, dominar o idioma é passo essencial para atuar no mercado e se comunicar sem barreiras.
O contraste entre Finlândia e Brasil
“Lá é tudo perfeito no papel: segurança, pouca corrupção, governo que apoia. Mas é difícil fazer amigos. O povo é muito tímido, fala pouco“, diz Siina Matihaldi.
A repercussão da história cresceu também por envolver a Finlândia, país que ocupa o primeiro lugar no Relatório Mundial da Felicidade publicado no mês passado, pela nona vez consecutiva, com base em pesquisa global e na escala de Cantril.
Nesse mesmo ranking, o Brasil aparece na 32ª posição. O relatório indica diferenças entre as bases dessa satisfação, destacando estabilidade institucional nos países nórdicos e suporte social e afeto entre os latino-americanos.
Siina reconhece que a Finlândia oferece estrutura de excelência. Filha de pai soldador e mãe que atua na área social, ela diz ter sido a primeira da família a conquistar um diploma universitário, feito atribuído ao suporte estatal finlandês.
Ainda assim, descreve dificuldades nas relações sociais e no acolhimento emocional. Para ela, embora o país seja seguro, tenha pouca corrupção e conte com apoio do governo, fazer amigos por lá é muito difícil.
A jovem também diz que a cultura finlandesa desencoraja ambição pessoal e destaque individual. Com personalidade vibrante e expansiva, sentia necessidade constante de se reduzir para conseguir se encaixar na sociedade local.
Segundo seu relato, vitórias pessoais e conquistas profissionais costumam ser escondidas para evitar ciúmes ou sentimentos negativos nos outros. No Brasil, ela enxerga espaço para ser ambiciosa, vibrante e visível sem medo.
O que a finlandesa chama de sonho brasileiro
Para Siina, o sonho brasileiro inverte a lógica do sonho americano. Em vez de concentrar a vida na acumulação de bens materiais, a ideia seria trabalhar para preservar tempo de qualidade e aproveitar o cotidiano.
Na visão dela, esse modelo aparece em hábitos simples, como ir à praia, fazer churrasco e tomar um suco com amigos. O valor central estaria menos na posse e mais no uso do tempo.
Ela afirma que, na Europa, as pessoas vivem apenas nas férias. No Brasil, tenta aproveitar dias comuns, inclusive com mergulhos no mar antes de começar a rotina, algo que considera luxo de verdade.
Esse ritmo inclui banhos nas águas da capital fluminense às 4h30. A rotina reforça a imagem que ela construiu do sonho brasileiro, baseada na possibilidade de viver momentos cotidianos com leveza.
Adaptação, privilégio e senso de comunidade
Siina afirma que o Brasil está longe de ser ideal. Ela cita burocracia, segurança e desigualdade social, reconhecendo também os comentários sobre privilégio e admitindo que a vida muda conforme a condição financeira.
Mesmo assim, diz que o que mais valoriza no país não depende de renda. Prefere concentrar atenção na positividade, nas oportunidades e no futuro econômico que acredita enxergar no Brasil, onde, afirma, todos os olhos estão voltados.
A ligação com a cultura latino-americana começou aos 17 anos, durante um intercâmbio no Equador. Em 2019, morou em São Carlos para estudar na UFSCar e estagiou em uma organização não governamental em Curitiba.
Esse vínculo continuou ao longo dos anos. Ela participava de um grupo de dança de funk e preparava pratos típicos brasileiros para se sentir mais próxima da cultura que admirava mesmo à distãncia.
A adaptação ganhou novo impulso no esporte. Inscrita no triatlo para competir no Ironman Florianópolis, ela percebeu em Santa Catarina uma rede de apoio que, diz, não exsite na Finlândia.
Depois de faltar a treinos por doença sem avisar, voltou e encontrou cerca de vinte pessoas querendo saber onde estava e se estava bem.
O gesto, somado a cumprimentos individuais, fez com que se sentisse importante, acolhida e parte de uma comunidade.
Nas redes, a rotina de gringa no Brasil também atrai seguidores com vídeos sobre comida. Entre as reações mais vistas estão pastel de pizza, coxinha com catupiry, vitamina de abacate, caldo de cana e suco de graviola.
Com informações de UOL.
