Famílias em diferentes estados relatam obras abandonadas, laudos contestados e dívidas altas após financiamentos para construção pela Caixa, em casos que expõem falhas na liberação de recursos e deixam compradores diante do risco de perder imóveis antes mesmo de conseguir morar neles.
Famílias de diferentes estados afirmam ter sido vítimas de fraudes em financiamentos imobiliários da Caixa Econômica Federal, depois que construtoras receberam valores elevados com base em laudos de avanço de obra que, segundo perícias e relatos, não correspondiam ao que havia sido executado nos terrenos.
Revelados em reportagem exibida pelo Fantástico, da TV Globo, os casos envolvem obras abandonadas, casas inacabadas, dívidas superiores a R$ 200 mil e risco de leilão de imóveis usados como garantia nos contratos de financiamento.
Em comum, os compradores relatam que confiaram no sistema de liberação por etapas, mas acabaram sem casa, sem dinheiro recuperado e com o financiamento ainda em aberto junto ao banco.
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No modelo de crédito para construção, os recursos não são liberados de uma só vez, pois a Caixa paga parcelas conforme relatórios técnicos indicam a evolução física do imóvel financiado.
As denúncias apontam falhas justamente nessa etapa, já que documentos teriam informado percentuais de conclusão muito superiores à realidade e permitido que construtoras recebessem dinheiro antes de executar os serviços previstos.
Laudos da Caixa indicavam obra avançada, mas terreno seguia abandonado
Entre os casos relatados está o de Izael Mendes e Marcela Teles, que contrataram financiamento estimado entre R$ 400 mil e R$ 500 mil para construir a casa própria.
Três anos após o início do projeto, a família ainda vivia de aluguel, enquanto o terreno apresentava sinais de abandono e a obra permanecia distante do estágio informado nos documentos enviados ao banco.
Contratada pelo casal, a construtora Âmbar Prumo apresentou relatórios que apontavam mais de 80% da casa concluída, percentual que não foi confirmado pela perícia citada na reportagem.
Segundo a apuração pericial, menos da metade da construção havia sido executada, além de haver falsificação de assinaturas atribuídas a Marcela nos documentos usados durante o processo de liberação dos recursos.
A frustração do casal aparece também nos relatos pessoais, pois Marcela disse ter passado dois anos sem conseguir chegar perto da obra por causa do impacto emocional provocado pela situação.
Já Izael afirmou que aquele seria o espaço onde a filha do casal cresceria, mas o projeto acabou se transformando em uma dívida difícil de administrar e em uma construção sem conclusão.
Após suspeitar das irregularidades, o casal interrompeu o pagamento das parcelas, decisão que trouxe outro problema porque o imóvel está vinculado ao financiamento e pode ser levado a leilão para quitar a dívida.
Financiamento para construção no RS expõe atuação de ex-funcionário
No Rio Grande do Sul, Guilherme Both e Bruna Both financiaram R$ 290 mil em 2022 para construir uma casa em Alvorada, na Região Metropolitana de Porto Alegre.
Durante o processo, segundo o casal, as orientações foram conduzidas por Pedro André Marchese Sessegolo, ligado à construtora Vitruviana e apresentado como funcionário da Caixa.
Também nesse caso, a obra não avançou como os relatórios indicavam, apesar de a construtora ter recebido mais de R$ 200 mil do financiamento contratado pela família.
Nos documentos enviados ao banco, etapas como cobertura, instalações elétricas, instalações hidráulicas e revestimentos apareciam como praticamente concluídas, embora ainda não tivessem sido executadas no imóvel.
Guilherme relatou que a família não dominava os detalhes do financiamento e, por isso, confiou nas orientações recebidas durante o processo de contratação e acompanhamento da construção.
Além da dívida bancária superior a R$ 200 mil, ele afirma ter pago R$ 62 mil diretamente à construtora, valor que ampliou o prejuízo antes da paralisação definitiva da obra.
Após processo administrativo interno, Pedro André foi demitido da Caixa por justa causa, mas ainda não foi condenado na Justiça pelos fatos relatados na reportagem.
O ex-funcionário recorre contra a demissão na Justiça do Trabalho e nega ter causado qualquer prejuízo financeiro ao banco durante a condução dos contratos citados.
Prejuízo em obra financiada também foi reconhecido em Pernambuco
Situação semelhante foi relatada em Pernambuco, onde outro casal denunciou a construtora Multicons por cobrar valores acima do que havia sido executado na obra financiada.
A empresa foi acusada de se apropriar da diferença entre o dinheiro liberado pelo financiamento e o serviço efetivamente realizado no imóvel dos compradores.
Nesse caso, o dono da Multicons foi condenado por estelionato, e o prejuízo apontado ultrapassou R$ 126 mil, conforme os elementos mencionados na reportagem.
A defesa, por outro lado, afirma que os valores recebidos foram aplicados integralmente na construção e recorre da decisão judicial que reconheceu a prática criminosa.
A repetição dos relatos em estados diferentes reforça a fragilidade percebida pelas vítimas, especialmente porque os contratos dependiam de medições técnicas para autorizar novas liberações financeiras.
Sem condições de verificar sozinhos cada percentual informado ao banco, os compradores afirmam que confiaram em documentos que não refletiam a evolução real das obras contratadas.
Famílias questionam fiscalização em financiamento imobiliário
Conforme a reportagem, a Caixa informou que contratos desse tipo colocam o cliente como responsável por administrar os pagamentos da construção e acompanhar a execução da obra.
Pela interpretação do banco, quando há fraude praticada por construtora, o problema costuma ser tratado como uma relação entre o contratante e a empresa responsável pelos serviços.
Ainda assim, a Caixa declarou que apura eventuais irregularidades cometidas por empregados e ex-empregados, como ocorreu no caso ligado à obra no Rio Grande do Sul.
Na situação gaúcha, houve processo interno e demissão por justa causa, embora a responsabilização judicial ainda dependa do andamento das ações relacionadas aos fatos narrados.
Especialistas ouvidos na reportagem apontaram que inconsistências em laudos, como assinaturas falsas ou percentuais incompatíveis com o estágio físico da obra, poderiam ter sido identificadas antes da liberação de novas parcelas.
Para as famílias, a falta de uma conferência mais rigorosa permitiu que o dinheiro fosse liberado sem que a construção acompanhasse, na prática, o ritmo dos pagamentos autorizados.
O efeito prático recaiu sobre compradores que buscavam sair do aluguel ou erguer uma casa para a família, mas passaram a enfrentar cobranças e incerteza sobre o imóvel.
Além de permanecerem sem a moradia prometida, eles passaram a lidar com parcelas vencidas, risco de perda do terreno e dificuldade para contratar novos empréstimos.
Casas inacabadas só avançaram com novos empréstimos e ajuda da família
Mesmo diante dos prejuízos, nem todas as vítimas desistiram das construções, embora a retomada das obras tenha exigido novos recursos e apoio de parentes.
Renata e Michel, por exemplo, investiram mais de R$ 386 mil antes de perceber irregularidades no andamento da obra e precisaram buscar alternativas para concluir o imóvel.
Para finalizar a casa, o casal recorreu a novos empréstimos e à ajuda de familiares, assumindo compromissos financeiros adicionais para tentar preservar o projeto inicial.
A conclusão da obra não eliminou as dificuldades, já que o rombo deixado durante o processo continuou pesando no orçamento e manteve a família sob pressão financeira.
A situação mostra que, mesmo quando a casa é entregue, o prejuízo não desaparece com as chaves, pois a dívida original permanece e novos compromissos costumam ser assumidos.
Enquanto alguns compradores tentam acordos com o banco, outros buscam responsabilização na Justiça para evitar a perda dos imóveis ou recuperar parte dos valores pagos.
Nessa disputa, casas que deveriam representar estabilidade passaram a simbolizar incerteza, com estruturas incompletas, contratos em aberto e cobranças ligadas a obras não entregues como prometido.
Construtoras citadas negam irregularidades e recorrem na Justiça
A construtora Âmbar Prumo afirmou, em nota, que todas as obras foram conduzidas dentro das normas da Caixa e que eventuais acusações serão respondidas na Justiça.
Segundo a empresa, não houve irregularidade nos procedimentos adotados durante a execução das construções citadas pelos clientes e pela reportagem exibida pela TV Globo.
Pedro André Marchese Sessegolo, apontado como responsável pela Vitruviana e ex-funcionário da Caixa, nega ter causado prejuízo financeiro ao banco nos contratos mencionados.
Ele também contesta a demissão por justa causa na Justiça do Trabalho, enquanto os fatos relatados seguem sem condenação judicial definitiva informada contra ele.
O dono da Multicons, condenado por estelionato, sustenta que os valores recebidos foram integralmente aplicados na obra e recorre da decisão judicial.
Nos demais casos citados, não há condenação definitiva informada, e as famílias continuam buscando responsabilização e alternativas para evitar a perda dos imóveis financiados.
Em boa parte dos relatos, o financiamento que deveria viabilizar a casa própria passou a representar uma dívida de longo prazo, sem a contrapartida de uma construção entregue no prazo e nas condições prometidas.

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