A tecnologia desenvolvida na Alemanha usa laser para transformar a superfície do papel em material de vedação, elimina adesivos sintéticos que prejudicam a reciclagem, foi testada em cerca de três dezenas de tipos de papel e já avança com linha piloto em Dresden até 2026
O uso de papel em embalagens costuma ser apresentado como uma resposta mais sustentável ao plástico, mas essa solução carrega um problema pouco visível: a dependência de colas e adesivos sintéticos nas costuras. Agora, pesquisadores na Alemanha desenvolveram uma alternativa que usa laser para transformar o próprio papel em material de união, eliminando a necessidade de adesivos externos.
A proposta busca corrigir uma limitação que afeta a reciclagem de embalagens de papel. Embora o material seja natural e reciclável, os adesivos empregados nas junções funcionam como contaminantes e, em alguns casos, acabam empurrando o papel para usos de menor reaproveitamento ou até para o descarte.
A pesquisa integra o projeto PAPURE, conduzido por diversos institutos ligados à Sociedade Fraunhofer, organização de pesquisa da Alemanha.
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Em vez de procurar um novo tipo de cola, a equipe decidiu investigar os próprios componentes do papel para entender se eles poderiam cumprir essa função.
A composição do papel e o obstáculo dos adesivos
O ponto de partida foi a estrutura do papel, que está longe de ser uniforme. O material reúne polímeros naturais, como celulose, hemicelulose e lignina, além de cargas como talco e carbonato de cálcio, cuja presença varia conforme o processo de fabricação.
Essa diferença de composição se mostrou decisiva para a capacidade de adesão. Algumas formulações conseguem formar ligações fortes quando tratadas da maneira adequada, enquanto outras apresentam falhas e menor resistência no momento da colagem.
Para mapear esse comportamento, os pesquisadores analisaram cerca de três dezenas de tipos de papel. O trabalho combinou imagens de alta resolução e técnicas químicas para identificar tanto a estrutura quanto a composição química de cada amostra.
Com o avanço dos testes, surgiu um padrão claro. Papéis com grande quantidade de materiais de enchimento inorgânicos tiveram dificuldade para formar selagens resistentes, enquanto papéis mais espessos e com mistura equilibrada de componentes naturais apresentaram desempenho superior.
Robert Protz, pesquisador e cientista do Fraunhofer, resumiu esse resultado ao afirmar que uma proporção excessiva de compostos inorgânicos, como talco e carbonato de cálcio, prejudica as propriedades adesivas e a resistência da colagem das juntas. Ele também destacou que papéis mais grossos são mais adequados para selagem sem aglutinante.
Como o laser transforma o papel em sua própria cola
Depois de identificar os tipos de papel mais promissores, a equipe recorreu a uma ferramenta incomum para o setor de embalagens: um laser de monóxido de carbono, ou CO. Em vez de cortar ou gravar o material, o feixe é aplicado de forma controlada para alterar a composição química da superfície do papel.
O processo ocorre de maneira breve e precisa. O laser aquece a superfície e quebra celulose, hemicelulose e lignina em moléculas menores, que permanecem no papel como “produtos de clivagem fusíveis”.
Esses compostos passam a atuar como uma espécie de cola criada no próprio material. Quando duas camadas de papel tratadas com laser são prensadas com calor e pressão, essas moléculas derretem e se fundem, unindo as superfícies sem a adição de qualquer adesivo externo.
Nesse sistema, o elemento de vedação deixa de ser um insumo aplicado sobre o papel e passa a ser extraído dele. A solução muda a lógica convencional das embalagens, já que o papel não recebe uma substância colante: ele passa a gerar a própria união a partir de sua composição.
Testes de resistência e linha piloto em Dresden
A etapa seguinte foi verificar se a tecnologia funcionava fora do conceito teórico. As vedações obtidas com laser foram submetidas a testes de resistência mecânica, com tração e alongamento, para mostrar em que ponto as juntas poderiam falhar.
Os resultados indicaram desempenho acima do esperado pelos pesquisadores. A partir daí, o projeto avançou para uma fase mais próxima das condições industriais, com a construção de uma unidade piloto de produção na cidade de Dresden.
A instalação foi concebida para simular uma linha de produção real, e não apenas um ambiente controlado de laboratório. Nesse sistema, rolos de papel passam continuamente por um módulo a laser que ativa a superfície antes da etapa de união.
Depois disso, uma segunda camada de papel é adicionada ao processo. As duas camadas são então seladas com calor e pressão e, na sequência, cortadas para formar os sacos finalizados.
A linha piloto também incorpora sensores para acompanhar a qualidade da selagem em tempo real. Quando necessário, o próprio sistema ajusta automaticamente o processo para manter o desempenho da vedação.
Desafios para ampliar a tecnologia do papel com laser
A eliminação dos adesivos pode resolver um dos pontos mais discretos, mas também mais importantes, das embalagens sustentáveis. Sem cola, o papel tende a ficar mais fácil de reciclar, e a qualidade das fibras recicladas pode melhorar, aproximando o material de um modelo mais circular.
Mesmo assim, a aplicação em larga escala ainda enfrenta obstáculos técnicos e econômicos. Um dos principais desafios está na forte dependência da composição exata do papel, que não é padronizada em toda a indústria.
Outro ponto decisivo será ampliar o uso do laser sem elevar os custos do processo. Para que a solução seja adotada em fábricas, o sistema precisará se adaptar às linhas existentes e operar com escala compatível com a produção industrial.
Os pesquisadores já trabalham para superar essas limitações. A meta é alcançar uma velocidade de produção de cerca de dez embalagens por minuto até setembro de 2026, além de reduzir o tamanho do equipamento e facilitar sua integração às fábricas.
Se esse objetivo for atingido, o papel poderá deixar para trás uma de suas contradições mais persistentes. Nesse cenário, o laser não apenas uniria embalagens sem adesivo, mas ajudaria a tornar o próprio papel mais compatível com a promessa de sustentabilidade que acompanha seu uso.

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