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Fim da cola: esse novo laser usa a própria composição do papel para unir camadas sem cola externa e pode resolver um dos problemas mais escondidos da reciclagem de embalagens

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 11/04/2026 às 15:43
Atualizado em 11/04/2026 às 21:34
Laser transforma o próprio papel em vedação sem cola e pode melhorar a reciclagem de embalagens com testes avançando na Alemanha.
Laser transforma o próprio papel em vedação sem cola e pode melhorar a reciclagem de embalagens com testes avançando na Alemanha.
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A tecnologia desenvolvida na Alemanha usa laser para transformar a superfície do papel em material de vedação, elimina adesivos sintéticos que prejudicam a reciclagem, foi testada em cerca de três dezenas de tipos de papel e já avança com linha piloto em Dresden até 2026

O uso de papel em embalagens costuma ser apresentado como uma resposta mais sustentável ao plástico, mas essa solução carrega um problema pouco visível: a dependência de colas e adesivos sintéticos nas costuras. Agora, pesquisadores na Alemanha desenvolveram uma alternativa que usa laser para transformar o próprio papel em material de união, eliminando a necessidade de adesivos externos.

A proposta busca corrigir uma limitação que afeta a reciclagem de embalagens de papel. Embora o material seja natural e reciclável, os adesivos empregados nas junções funcionam como contaminantes e, em alguns casos, acabam empurrando o papel para usos de menor reaproveitamento ou até para o descarte.

A pesquisa integra o projeto PAPURE, conduzido por diversos institutos ligados à Sociedade Fraunhofer, organização de pesquisa da Alemanha.

Em vez de procurar um novo tipo de cola, a equipe decidiu investigar os próprios componentes do papel para entender se eles poderiam cumprir essa função.

A composição do papel e o obstáculo dos adesivos

O ponto de partida foi a estrutura do papel, que está longe de ser uniforme. O material reúne polímeros naturais, como celulose, hemicelulose e lignina, além de cargas como talco e carbonato de cálcio, cuja presença varia conforme o processo de fabricação.

Essa diferença de composição se mostrou decisiva para a capacidade de adesão. Algumas formulações conseguem formar ligações fortes quando tratadas da maneira adequada, enquanto outras apresentam falhas e menor resistência no momento da colagem.

Para mapear esse comportamento, os pesquisadores analisaram cerca de três dezenas de tipos de papel. O trabalho combinou imagens de alta resolução e técnicas químicas para identificar tanto a estrutura quanto a composição química de cada amostra.

Com o avanço dos testes, surgiu um padrão claro. Papéis com grande quantidade de materiais de enchimento inorgânicos tiveram dificuldade para formar selagens resistentes, enquanto papéis mais espessos e com mistura equilibrada de componentes naturais apresentaram desempenho superior.

Robert Protz, pesquisador e cientista do Fraunhofer, resumiu esse resultado ao afirmar que uma proporção excessiva de compostos inorgânicos, como talco e carbonato de cálcio, prejudica as propriedades adesivas e a resistência da colagem das juntas. Ele também destacou que papéis mais grossos são mais adequados para selagem sem aglutinante.

Como o laser transforma o papel em sua própria cola

Depois de identificar os tipos de papel mais promissores, a equipe recorreu a uma ferramenta incomum para o setor de embalagens: um laser de monóxido de carbono, ou CO. Em vez de cortar ou gravar o material, o feixe é aplicado de forma controlada para alterar a composição química da superfície do papel.

O processo ocorre de maneira breve e precisa. O laser aquece a superfície e quebra celulose, hemicelulose e lignina em moléculas menores, que permanecem no papel como “produtos de clivagem fusíveis”.

Esses compostos passam a atuar como uma espécie de cola criada no próprio material. Quando duas camadas de papel tratadas com laser são prensadas com calor e pressão, essas moléculas derretem e se fundem, unindo as superfícies sem a adição de qualquer adesivo externo.

Nesse sistema, o elemento de vedação deixa de ser um insumo aplicado sobre o papel e passa a ser extraído dele. A solução muda a lógica convencional das embalagens, já que o papel não recebe uma substância colante: ele passa a gerar a própria união a partir de sua composição.

Testes de resistência e linha piloto em Dresden

A etapa seguinte foi verificar se a tecnologia funcionava fora do conceito teórico. As vedações obtidas com laser foram submetidas a testes de resistência mecânica, com tração e alongamento, para mostrar em que ponto as juntas poderiam falhar.

Os resultados indicaram desempenho acima do esperado pelos pesquisadores. A partir daí, o projeto avançou para uma fase mais próxima das condições industriais, com a construção de uma unidade piloto de produção na cidade de Dresden.

A instalação foi concebida para simular uma linha de produção real, e não apenas um ambiente controlado de laboratório. Nesse sistema, rolos de papel passam continuamente por um módulo a laser que ativa a superfície antes da etapa de união.

Depois disso, uma segunda camada de papel é adicionada ao processo. As duas camadas são então seladas com calor e pressão e, na sequência, cortadas para formar os sacos finalizados.

A linha piloto também incorpora sensores para acompanhar a qualidade da selagem em tempo real. Quando necessário, o próprio sistema ajusta automaticamente o processo para manter o desempenho da vedação.

Desafios para ampliar a tecnologia do papel com laser

A eliminação dos adesivos pode resolver um dos pontos mais discretos, mas também mais importantes, das embalagens sustentáveis. Sem cola, o papel tende a ficar mais fácil de reciclar, e a qualidade das fibras recicladas pode melhorar, aproximando o material de um modelo mais circular.

Mesmo assim, a aplicação em larga escala ainda enfrenta obstáculos técnicos e econômicos. Um dos principais desafios está na forte dependência da composição exata do papel, que não é padronizada em toda a indústria.

Outro ponto decisivo será ampliar o uso do laser sem elevar os custos do processo. Para que a solução seja adotada em fábricas, o sistema precisará se adaptar às linhas existentes e operar com escala compatível com a produção industrial.

Os pesquisadores já trabalham para superar essas limitações. A meta é alcançar uma velocidade de produção de cerca de dez embalagens por minuto até setembro de 2026, além de reduzir o tamanho do equipamento e facilitar sua integração às fábricas.

Se esse objetivo for atingido, o papel poderá deixar para trás uma de suas contradições mais persistentes. Nesse cenário, o laser não apenas uniria embalagens sem adesivo, mas ajudaria a tornar o próprio papel mais compatível com a promessa de sustentabilidade que acompanha seu uso.

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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