A ferrovia mais alta do mundo cruza 960 quilômetros acima de 4.000 metros de altitude e atinge o ponto máximo a 5.072 metros — onde o ar tem 40% menos oxigênio e os passageiros dependem de sistemas pressurizados para respirar
Inaugurada em julho de 2006, a ferrovia Qinghai-Tibet é a ferrovia mais alta do mundo. Segundo a Wikipedia, o trecho entre Golmud e Lhasa se estende por 1.142 quilômetros, dos quais mais de 960 quilômetros correm acima de 4.000 metros de altitude — uma região onde o ar contém 40% menos oxigênio do que ao nível do mar.
Além disso, o ponto mais elevado da linha fica na passagem de Tanggula, a 5.072 metros acima do nível do mar. Para ter uma ideia, essa altitude é maior que o cume do Monte Branco, a montanha mais alta da Europa Ocidental.
Portanto, cada viagem de trem entre Xining e Lhasa é literalmente uma escalada de montanha — mas sentado numa poltrona com oxigênio saindo das paredes.
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Por que os vagões precisam de oxigênio — e como o sistema funciona

Conforme detalhado pela China Tibet Train, cada trem que percorre a ferrovia mais alta do mundo possui dois sistemas independentes de suprimento de oxigênio.
O primeiro sistema aumenta automaticamente o nível de oxigênio dentro dos vagões quando o trem entra na zona de platô acima de 3.000 metros. Na prática, os vagões funcionam como cabines de avião pressurizadas — mantendo uma atmosfera respirável artificialmente.
Em segundo lugar, cada assento possui uma saída individual de oxigênio que os passageiros podem usar se sentirem sintomas de mal de altitude, como dor de cabeça, tontura ou náusea.
Além do mais, o sistema de controle de temperatura mantém os vagões aquecidos mesmo quando a temperatura externa despenca para -45°C nas noites de inverno no platô tibetano.
Dessa forma, a engenharia do trem transformou o que seria uma viagem letal para a maioria das pessoas em uma experiência relativamente confortável.
A ferrovia mais alta do mundo corre 550 km sobre permafrost — como construir trilhos em solo congelado que derrete
De fato, o maior desafio técnico da ferrovia mais alta do mundo não foi a altitude em si, mas o solo sobre o qual os trilhos precisavam ser construídos. Segundo engenheiros chineses, 550 quilômetros da linha correm sobre permafrost — solo permanentemente congelado que se torna instável quando aquecido.
Consequentemente, se os trilhos fossem apoiados diretamente no solo, o calor do próprio trem e das estações poderia derreter o permafrost e fazer a ferrovia afundar.
Nesse sentido, os engenheiros desenvolveram soluções criativas. Em algumas seções, elevaram a linha sobre viadutos para que o ar frio circulasse livremente sob os trilhos. Em outras, instalaram tubos de resfriamento no solo para manter a temperatura estável.
O método mais engenhoso usa convecção natural: tubos verticais preenchidos com amônia líquida captam o frio do inverno e o armazenam no subsolo durante o verão, mantendo a temperatura do solo abaixo de zero mesmo nos meses mais quentes.
Em comparação, a construção de uma ferrovia de alta velocidade nos Estados Unidos enfrenta obstáculos burocráticos. A ferrovia tibetana enfrentou obstáculos da própria física.
A estação fantasma: Tanggula está a 5.068 metros e não tem funcionários

Ainda assim, talvez o fato mais surpreendente da ferrovia mais alta seja a estação de Tanggula. Localizada a 5.068 metros de altitude, ela é a estação ferroviária mais alta do mundo.
A estação opera de forma automatizada, com sensores e câmeras controlados remotamente desde centros de operação em altitudes mais baixas.
No entanto, a estação não tem funcionários permanentes. Sobretudo porque as condições extremas — frio intenso, vento forte e falta de oxigênio — tornam a permanência humana contínua inviável.
Da mesma forma, pouquíssimos trens param em Tanggula. A maioria apenas cruza pela estação em velocidade reduzida enquanto os passageiros observam pela janela a paisagem lunar do platô.
Para entender o isolamento, a cidade mais próxima da estação fica a mais de 100 quilômetros de distância por estradas de terra.
Apesar disso, moradores tibetanos locais vivem na região ao redor da estação, adaptados geneticamente a altitudes que deixariam a maioria das pessoas incapacitadas.
Túneis em altitude recorde: furando montanhas a 4.648 metros
Além dos trilhos ao ar livre, a linha inclui túneis impressionantes. O Túnel de Fenghuoshan é o túnel ferroviário em permafrost mais alto do mundo. Por sua vez, o Túnel da Montanha Kunlun tem 1.686 metros de extensão e está a 4.648 metros de altitude — o mais longo túnel em permafrost do planeta.
Igualmente desafiadora é a engenharia de pontes e viadutos ao longo da rota. Mais de 675 pontes distribuem o peso dos trens sem perturbar o ecossistema frágil do platô.
Por outro lado, os engenheiros tiveram que lidar com terremotos frequentes na região, ventos de até 150 km/h e tempestades de areia que reduzem a visibilidade a quase zero.
46 anos de construção — da primeira tentativa fracassada ao recorde mundial

Segundo dados históricos, a construção da ferrovia começou em 1958 com o trecho entre Xining e Golmud, concluído apenas em 1984 — 26 anos depois. Contudo, o trecho mais difícil, entre Golmud e Lhasa, só começou a ser construído em 2001.
Mais de 100 mil trabalhadores participaram da construção nos cinco anos de obras do trecho Golmud-Lhasa. Muitos carregavam cilindros de oxigênio portáteis enquanto trabalhavam.
Na prática, a China levou 46 anos desde a primeira escavação até a inauguração completa da linha em 2006. O custo total alcançou US$ 4,2 bilhões — um valor modesto para uma obra dessa escala.
O projeto envolveu a construção de 675 pontes e 7 túneis, além de 45 estações distribuídas ao longo da rota.
Em resumo, a ferrovia mais alta do mundo custou menos que uma única estação de metrô em cidades como Nova York ou Londres.
Hoje, mais de 1 milhão de passageiros e 8 milhões de toneladas de carga percorrem a linha anualmente, conectando o Tibet isolado ao resto da China.
Será que a mesma engenharia que domou o permafrost tibetano poderia ser aplicada a desafios similares no Ártico, onde o derretimento do permafrost ameaça infraestruturas inteiras?
Por fim, a ferrovia Qinghai-Tibet prova que a engenharia humana pode vencer até as condições mais extremas do planeta. Contudo, ela também lembra que, a 5.072 metros de altitude, quem precisa de ajuda para respirar não é o trem — são as pessoas dentro dele.

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