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Aos 12 anos, Rosilene trabalhava como doméstica, chegou a pedir restos de ossos em açougue para comer e dividia o mesmo calçado com a irmã para estudar, saiu do sertão da Bahia aos 19, conseguiu cursar Direito e, depois de 14 concursos, foi aprovada em 1º lugar para se tornar juíza no Acre

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Escrito por Carla Teles Publicado em 30/08/2026 às 14:12 Atualizado em 30/08/2026 às 14:13
Aos 12 anos, Rosilene trabalhava como doméstica, chegou a pedir restos de ossos em açougue para comer e dividia o mesmo calçado com a irmã para estudar, saiu do sertão da Bahia
Doméstica aos 12 anos, Rosilene cursou Direito, enfrentou 14 concursos e conquistou o 1º lugar para se tornar juíza no Acre. Imagem: TJAC/Divulgação
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Rosilene de Santana Souza começou a trabalhar como doméstica ainda criança, enfrentou fome no sertão baiano e dividiu o mesmo calçado com a irmã para estudar. Aos 19 anos, mudou-se para o Espírito Santo, conseguiu cursar Direito e, após 14 concursos, foi aprovada em 1º lugar para magistratura do Acre.

Aos 12 anos, Rosilene de Santana Souza já trabalhava como doméstica enquanto tentava manter os estudos em meio à pobreza no sertão da Bahia. Filha de trabalhadores rurais e uma entre sete irmãos, ela chegou a enfrentar falta de comida, dividir o mesmo calçado com a irmã para poder frequentar a escola e percorrer um caminho que, anos mais tarde, a levaria da comunidade rural onde cresceu ao primeiro lugar em um concurso para a magistratura do Acre.

A trajetória ganhou repercussão depois que Rosilene foi aprovada em primeiro lugar para o cargo de juíza substituta do Tribunal de Justiça do Acre. Em 2024, já magistrada, ela voltou a contar publicamente sua história, marcada por trabalho infantil, dificuldades educacionais, mudança de estado, curso técnico, graduação em Direito e uma sequência de 14 concursos até alcançar a aprovação que buscava.

Aos 12 anos, Rosilene já trabalhava como doméstica

Rosilene cresceu na comunidade rural de Pajeú, no município de Oliveira dos Brejinhos, no sertão baiano. Ainda criança, deixou a zona rural ao lado da irmã Regina para conseguir continuar estudando na cidade, em uma realidade na qual a educação disponível perto de casa era limitada e uma mesma professora atendia alunos de diferentes séries.

Na cidade, ela passou a realizar pequenos serviços como doméstica para conseguir sobreviver. O trabalho começou por volta dos 12 anos, quando ainda deveria estar concentrada exclusivamente na escola. A necessidade de produzir alguma renda apareceu muito antes de qualquer possibilidade concreta de faculdade, mas o estudo permaneceu como objetivo central de sua trajetória.

Fome levou as irmãs a pedir restos de ossos em açougue

A mudança para estudar não significou que as necessidades básicas estivessem garantidas. Rosilene relatou que ela e a irmã chegaram a depender da refeição oferecida pela escola e, fora daquele horário, muitas vezes não tinham alimentos suficientes para passar o restante do dia.

Em um dos episódios mais duros lembrados pela magistrada, as duas foram a um açougue municipal pedir restos de ossos para complementar a alimentação. Rosilene também chegou a dormir no chão durante parte desse período, enquanto tentava permanecer próxima da escola e continuar estudando.

Um único calçado era dividido entre as duas irmãs

A falta de recursos também atingia materiais básicos de estudo. Livros, cadernos, uniforme e calçados representavam despesas difíceis para duas adolescentes vivendo longe da zona rural e tentando permanecer na escola.

Quando passou a ser exigido o uniforme completo, Rosilene e Regina encontraram uma solução prática: estudavam em turnos diferentes para compartilhar algumas peças. A irmã frequentava as aulas à tarde, enquanto Rosilene estudava pela manhã, permitindo que ambas usassem o mesmo calçado.

Escola rural tinha limitações que tornavam o caminho ainda mais difícil

Antes de ir para a cidade, Rosilene estudava em uma estrutura educacional que ela própria descreveu como frágil. Alunos da alfabetização até a quarta série permaneciam juntos na mesma sala, sob responsabilidade de uma professora que também precisava cuidar da merenda.

O acesso a livros também era limitado. Segundo Rosilene, a escola só passou a ter biblioteca quando ela já estava no segundo ano do ensino médio, o que dificultava ainda mais o contato com literatura e materiais capazes de complementar o conteúdo das aulas.

Sonho de ser juíza apareceu antes mesmo de ela conhecer o caminho

Doméstica aos 12 anos, Rosilene cursou Direito, enfrentou 14 concursos e conquistou o 1º lugar para se tornar juíza no Acre.
Imagem: TJAC

Apesar da precariedade, Rosilene conta que pensava na magistratura desde criança. Naquela época, porém, ainda não sabia exatamente o que significava exercer a função nem qual formação seria necessária para chegar a uma carreira de juíza.

O incentivo mais constante vinha do pai, José Rodrigues de Souza, que tinha pouca escolaridade e insistia para que os filhos estudassem. A educação passou a representar para a família uma possibilidade concreta de romper com as limitações econômicas que acompanhavam a vida no sertão.

Aos 19 anos, deixou a Bahia e foi para o Espírito Santo

Aos 19 anos, Rosilene mudou novamente de estado. Ela foi para Colatina, no Espírito Santo, onde conseguiu concluir o ensino médio por meio de supletivo e pretendia finalmente começar a graduação em Direito.

A realidade financeira, porém, adiou o plano. O salário que recebia trabalhando como doméstica não era suficiente para bancar uma faculdade particular, obrigando-a a buscar um caminho intermediário que pudesse melhorar sua renda antes de tentar novamente o ensino superior.

Curso técnico em Edificações virou o primeiro ponto de virada

Rosilene encontrou uma oportunidade em um curso técnico gratuito de Edificações. A escolha foi pragmática: ao buscar informações sobre as opções disponíveis, recebeu a indicação de que aquele era um dos cursos com melhores perspectivas de emprego.

Pouco mais de um ano depois de iniciar a formação técnica, ela conseguiu mudar de trabalho. A melhora profissional foi decisiva porque criou condições para que a antiga doméstica retomasse o objetivo que havia sido adiado: entrar em uma faculdade de Direito.

Bolsa de 50% abriu caminho para a faculdade de Direito

A oportunidade acadêmica veio acompanhada de uma bolsa de 50% na mensalidade. Rosilene relatou que, naquele momento, recebia cerca de R$ 750 por mês, enquanto o curso custava aproximadamente R$ 490 antes do desconto.

Mesmo com a bolsa, conciliar trabalho e graduação exigia uma rotina pesada. Ela trabalhava durante o dia, frequentava as aulas de Direito à noite e utilizava o tempo restante para aprofundar os estudos, mantendo o projeto profissional que havia começado muitos anos antes no sertão baiano.

Aprovação na OAB veio ainda durante a graduação

Rosilene não esperou o diploma para começar a testar o conhecimento adquirido no curso. Quando chegou ao nono período de Direito, inscreveu-se no exame da Ordem dos Advogados do Brasil e conseguiu ser aprovada.

Depois da graduação, passou a construir experiência na advocacia e direcionou cada vez mais a preparação para concursos públicos da magistratura. O diploma de Direito abriu a porta formal, mas ainda havia uma longa sequência de provas até a carreira que desejava.

Foram 14 concursos antes da aprovação

A magistratura não veio na primeira tentativa. Rosilene afirmou ter participado de 14 concursos, continuando a estudar depois de cada resultado que não a colocava dentro das vagas pretendidas.

Ela também passou um período de dedicação mais intensa à preparação, reduzindo outras atividades profissionais para concentrar esforços nos estudos. Cada tentativa passou a funcionar como parte de uma preparação cumulativa até que o resultado finalmente apareceu no concurso do Tribunal de Justiça do Acre.

Primeiro lugar permitiu que Rosilene começasse uma nova etapa no Acre

Quando a aprovação veio, Rosilene não apenas conquistou uma vaga: ficou em 1º lugar no concurso para juíza substituta do Tribunal de Justiça do Acre. A colocação permitiu que ela tivesse prioridade na escolha da cidade onde iniciaria a carreira.

A posse representou uma mudança radical em comparação com a infância e a adolescência. A menina que trabalhava como doméstica para sobreviver, dividia calçado com a irmã e chegava a pedir ossos para ter o que comer passou a integrar a magistratura estadual.

Rosilene passou a atuar como juíza em Cruzeiro do Sul

Anos depois da aprovação, Rosilene passou a atuar em Cruzeiro do Sul, no Acre. Em julho de 2024, sua trajetória voltou a ganhar destaque quando participou de um programa de televisão e recebeu depoimentos de familiares, antigos professores e pessoas que acompanharam partes de sua caminhada.

Naquele período, ela era titular do Juizado Especial Cível e de Fazenda Pública da comarca e se preparava para assumir a 2ª Vara Cível de Cruzeiro do Sul. A carreira que durante a infância parecia distante já havia se transformado em uma função concreta dentro do Judiciário acreano.

Da fome no sertão ao primeiro lugar na magistratura

A história de Rosilene de Santana Souza não aconteceu em uma única virada. Entre o trabalho como doméstica aos 12 anos e a aprovação para juíza existiram fome, escola precária, mudança de cidade, falta de dinheiro para a faculdade, formação técnica, trabalho durante a graduação, OAB, advocacia e 14 concursos.

O primeiro lugar no Acre encerrou uma etapa iniciada décadas antes, quando estudar ainda significava dividir um único calçado com a irmã e encontrar maneiras de continuar na escola mesmo sem alimentação garantida. O que mais impressiona nessa trajetória: a persistência nos estudos, as 14 tentativas em concursos ou a distância percorrida entre o trabalho doméstico na infância e a magistratura? Conte sua opinião nos comentários.

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Sueli
Sueli
30/08/2026 14:50

Linda história de perseverança, meu Deus, como gostaria de ter feito o mesmo. Meus Parabéns Rosilene, que Deus abençoe infinitamente sua carreira como Juíza e ajude muitas pessoas que precisam do seu trabalho!

Carla Teles

Produzo conteúdos diários sobre economia, curiosidades, setor automotivo, tecnologia, inovação, construção e setor de petróleo e gás, com foco no que realmente importa para o mercado brasileiro. Aqui, você encontra oportunidades de trabalho atualizadas e as principais movimentações da indústria. Tem uma sugestão de pauta ou quer divulgar sua vaga? Fale comigo: carlatdl016@gmail.com

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