Último elemento gigante do Túnel do Escalda mergulhou no rio em Antuérpia após uma operação que enfrentou correntes, marés e exigiu precisão milimétrica; estrutura integra a conexão Oosterweel, projeto que pretende completar o anel viário da cidade e melhorar o acesso ao porto.
A construção do Túnel do Escalda na Bélgica atingiu uma de suas etapas mais delicadas quando as equipes colocaram sob o rio o último de 8 elementos de concreto, cada um com cerca de 160 metros de comprimento e 60 mil toneladas. Segundo a DEME, as equipes posicionaram as peças com tolerância de apenas 35 milímetros e concluíram dentro do cronograma uma das fases tecnicamente mais complexas da obra.
O feito chama atenção principalmente pela escala. Juntos, os oito elementos representam aproximadamente 480 mil toneladas de estruturas. As equipes produziram essas peças em terra, colocaram cada uma na água, transportaram os gigantes por mais de 100 quilômetros e, finalmente, conduziram cada segmento até uma posição previamente preparada no leito do rio Escalda.
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Porém, a instalação das peças não significa que o túnel já possa receber veículos.
A estrutura faz parte da conexão Oosterweel, megaprojeto que pretende completar o anel viário de Antuérpia pelo lado norte. O cronograma divulgado prevê a entrada de ciclistas em 2028, enquanto os automóveis deverão começar a circular somente em 2030.
Construção do Túnel do Escalda usa 8 gigantes de concreto para atravessar o rio
O Túnel do Escalda terá aproximadamente 1,8 km de extensão e representa uma peça central da conexão Oosterweel. Em vez de perfurar todo o trajeto sob o rio com uma tuneladora, os responsáveis escolheram o método de túnel imerso.
Nesse sistema, as equipes constroem grandes segmentos separadamente e depois transportam cada unidade até o ponto onde formarão a passagem.
No caso belga, os engenheiros produziram 8 elementos em um dique seco criado especialmente em Zeebrugge. Cada unidade tem aproximadamente 160 metros de comprimento, pouco mais de 41 metros de largura, cerca de 10 metros de altura e massa próxima de 60 mil toneladas.
Assim, cada bloco supera um campo de futebol em comprimento.
A escala lembra outros desafios da engenharia marítima, nos quais dimensões extremas exigem logística especializada. Um exemplo aparece em operações com navios de grande porte, que também dependem de planejamento preciso para movimentar cargas gigantescas.
No Túnel do Escalda, entretanto, construir os blocos representava apenas o começo.
Eles ainda precisavam chegar a Antuérpia.
Cada peça de 60 mil toneladas percorreu mais de 100 km antes de desaparecer sob o rio
A operação logística começou em Zeebrugge, onde os engenheiros produziram os gigantes de concreto.
Em 2025, as equipes passaram a transportar as unidades individualmente por água. O percurso superava 100 quilômetros e seguia pelo Mar do Norte e pelo rio Escalda até Antuérpia.
A DEME informou que, no transporte do primeiro elemento, quatro rebocadores e um barco de empurrar conduziram a operação. Depois, a estrutura aguardou a janela adequada para a etapa mais sensível: a imersão.
Havia um obstáculo natural importante.
O Escalda sofre influência de correntes e marés. Portanto, posicionar uma estrutura com dezenas de milhares de toneladas exatamente no ponto planejado exigia escolher uma janela extremamente favorável.
Segundo a DEME, as equipes precisavam realizar a imersão durante um período de maré de quadratura, quando a diferença entre vazante e enchente diminui. Essa oportunidade surgia apenas duas vezes por mês, aproximadamente nos períodos de quarto crescente e quarto minguante da Lua.
Com isso, engenharia civil, logística marítima e condições naturais precisavam funcionar em conjunto.
Equipes limitaram a margem de erro a apenas 35 mm para posicionar estruturas de 160 metros
O contraste entre tamanho e precisão reúne alguns dos números mais impressionantes do projeto.
Embora cada elemento tenha cerca de 160 metros, os engenheiros trabalharam com tolerância de somente 35 milímetros no posicionamento.
Ou seja, as equipes precisavam conduzir uma estrutura de 60 mil toneladas ao fundo do rio praticamente no ponto exato previsto no projeto.

Na primeira instalação, realizada em julho de 2025, a DEME detalhou parte do processo. Depois que os rebocadores conduziram o elemento, seis linhas de guincho, ancoradas nas duas margens, assumiram o controle da posição.
Além disso, dois catamarãs de imersão auxiliaram a descida.
Em seguida, as equipes adicionaram água aos tanques internos de lastro. O peso extra fez a estrutura descer de maneira controlada. No fundo, o primeiro elemento encontrou duas placas temporárias de concreto de 120 toneladas cada.
A operação mostra como grandes projetos dependem tanto de força quanto de controle. Essa combinação também aparece em estruturas marítimas de escala muito maior, como FPSOs de alta capacidade, que exigem transporte, posicionamento e integração antes do início das operações.
No Escalda, contudo, havia outro desafio: o rio precisava continuar funcionando como rota de navegação.
Autoridades interromperam o tráfego de embarcações durante as operações de imersão
O Escalda funciona como uma importante via de acesso à região portuária de Antuérpia.
Por isso, as equipes precisavam considerar não apenas correntes e marés, mas também o movimento de navios.
Durante o transporte e a imersão do primeiro segmento, as autoridades suspenderam temporariamente o tráfego de embarcações naquele trecho do rio por razões de segurança, segundo a DEME.
Enquanto isso, equipes em terra e na água coordenavam cada movimento.
Centenas de especialistas participaram da campanha, entre engenheiros, tripulações marítimas, técnicos, planejadores e pilotos.
O consórcio TM COTU, formado por empresas como DEME, BESIX, Jan De Nul e Stadsbader, executa a obra para a Lantis, responsável pelo projeto.
Oito elementos somam cerca de 480 mil toneladas de concreto
Considerando o peso aproximado divulgado para cada unidade, os 8 elementos de 60 mil toneladas somam cerca de 480 mil toneladas.
Esse valor resulta de um cálculo simples com base nos números individuais divulgados pelas empresas responsáveis e ajuda a visualizar a escala da operação.
Antes de chegarem ao rio, entretanto, os blocos passaram por outra transformação impressionante.
Após cerca de dois anos de construção, os oito elementos ocupavam o dique de Zeebrugge. Para fazê-los flutuar e preparar o transporte, as equipes começaram a encher o local com aproximadamente 800 mil m³ de água.
Segundo a DEME, esse volume corresponde a cerca de 320 piscinas olímpicas.
Então, os gigantes de concreto começaram a desaparecer sob a água do dique antes de iniciarem suas viagens até Antuérpia.
Esse tipo de solução mostra como materiais convencionais podem ganhar aplicações extraordinárias quando a engenharia combina escala e controle. O mesmo princípio aparece em outras estruturas experimentais e de infraestrutura marítima, que dependem da interação entre materiais, água e condições ambientais.
Equipes encaixaram o último bloco em espaço com apenas 25 centímetros de folga
A sequência das instalações começou em julho de 2025.
Depois disso, as equipes posicionaram os elementos sucessivamente até chegarem ao oitavo e último segmento, instalado em dezembro.
A BESIX, integrante do consórcio, informou um detalhe adicional da operação final: os engenheiros tinham somente 25 centímetros de espaço livre para colocar o último elemento entre as seções já instaladas. Ainda assim, mantiveram a tolerância de posicionamento em 35 milímetros.
As equipes concluíram a última imersão entre 14 e 15 de dezembro de 2025.
Com o encaixe, o projeto encerrou a campanha de instalação dos oito grandes segmentos sob o Escalda.
Milhares de pessoas acompanharam partes das operações a partir das margens do rio, segundo a DEME.
Porém, ainda resta muito trabalho antes da abertura.
Túnel de 1,8 km terá 6 faixas para carros e passagem exclusiva para bicicletas
A construção do Túnel do Escalda na Bélgica não pretende criar apenas uma travessia rodoviária.
A configuração divulgada pela DEME prevê dois tubos rodoviários, cada um com três faixas de tráfego. Dessa forma, o complexo contará com seis faixas distribuídas entre os dois sentidos.
Além disso, o projeto inclui um tubo destinado a serviços e evacuação.
Outro espaço atenderá exclusivamente às bicicletas, com aproximadamente 6 metros de largura.
Esse último componente ajuda a explicar por que a abertura ocorrerá em etapas.
O cronograma divulgado pela DEME prevê que ciclistas poderão utilizar o túnel em 2028. Já os automóveis deverão começar a circular apenas em 2030.
Portanto, a conclusão da imersão em 2025 representa um marco estrutural, não a conclusão integral da obra.
Contrato do túnel chegou a € 570 milhões quando consórcio recebeu a obra em 2020
A dimensão financeira também ajuda a mostrar a escala do projeto.
Em 3 de junho de 2020, quando anunciou a concessão do contrato de construção do Túnel do Escalda ao consórcio, a DEME informou um valor de aproximadamente € 570 milhões. Naquele contrato, a empresa detinha participação de 25%.
O túnel integra uma iniciativa muito maior: a conexão Oosterweel.
O empreendimento pretende completar o anel rodoviário de Antuérpia pelo norte, criar uma nova ligação sob o Escalda e ampliar a capacidade de travessia do rio.
Além da mobilidade urbana, a DEME relaciona o projeto à melhoria da acessibilidade ao Porto de Antuérpia.
Por isso, o impacto esperado vai além dos motoristas que atravessarão o túnel.
Projeto também reserva 24 hectares para área ecológica junto ao Escalda
Há ainda uma dimensão menos visível no projeto.
Segundo a BESIX, as intervenções associadas ao Túnel do Escalda incluem uma zona ecológica de 24 hectares, formada por áreas sujeitas às marés e planícies de inundação.
Para criar esse espaço, as equipes deslocaram o dique original do Escalda.
A iniciativa pretende favorecer a biodiversidade local e, ao mesmo tempo, reforçar a proteção de Antuérpia contra inundações, segundo a empresa.
Assim, o projeto combina infraestrutura rodoviária, engenharia marítima e intervenções ambientais em uma mesma região.
Ainda assim, o maior símbolo visual da obra continuará escondido sob o rio.
Depois de 8 imersões, equipes preparam túnel para receber ciclistas em 2028 e carros em 2030
A construção do Túnel do Escalda na Bélgica transformou oito blocos gigantes produzidos em Zeebrugge em uma sequência contínua sob um rio sujeito a marés.
Cada peça percorreu mais de 100 km, chegou a Antuérpia e exigiu precisão de apenas 35 mm durante o posicionamento.
Com o oitavo elemento no lugar, as equipes encerraram uma das fases de maior risco técnico.
Entretanto, ainda precisam concluir sistemas técnicos, conexões, acabamentos e outras etapas antes de liberar a estrutura para uso cotidiano.
Se o cronograma divulgado permanecer válido, os primeiros usuários chegarão de bicicleta em 2028. Dois anos depois, em 2030, os automóveis começarão a circular.
Até lá, os oito gigantes de aproximadamente 60 mil toneladas cada permanecerão invisíveis sob o Escalda e formarão o trecho central de uma obra criada justamente para manter Antuérpia em movimento acima e abaixo de um dos rios mais importantes da Bélgica.
Você imaginava que engenheiros poderiam construir um túnel sob um rio transportando e afundando blocos de 160 metros e 60 mil toneladas, em vez de escavar toda a passagem diretamente no subsolo?

