Humanoide chinês usado pelo IME chamou atenção no desfile em Brasília, mas o Exército afirma que a plataforma é destinada a ensino e pesquisa, sem previsão de emprego operacional direto pela Força.
Entre soldados marchando, veículos blindados e equipamentos militares que cruzavam a Esplanada dos Ministérios, uma figura de pouco mais de 1,3 metro chamou atenção no desfile da Independência realizado em Brasília na segunda-feira (7).
Vestido com farda camuflada e transportado sobre uma viatura, um robô humanoide ergueu o braço e bateu continência ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) diante da tribuna de autoridades.
A cena ganhou repercussão nas redes sociais, mas o equipamento carrega uma história mais ampla do que a saudação.
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O Exército confirmou posteriormente que se trata de um Unitree G1, na versão EDU, fabricado pela empresa chinesa Unitree Robotics e adquirido pelo Instituto Militar de Engenharia (IME) para atividades de ensino, pesquisa e desenvolvimento tecnológico.
Não é, portanto, um humanoide construído integralmente pelo Exército brasileiro.
O robô passou diante do palanque onde Lula acompanhava a cerimônia ao lado de autoridades como os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin.
A primeira-dama Janja da Silva sorriu, aplaudiu e interagiu com o equipamento durante a passagem.
Humanoide é chinês, mas serve como plataforma de pesquisa do IME
A aparência militar poderia sugerir um equipamento projetado especificamente para combate, mas a situação é diferente.
O Unitree G1 EDU é uma plataforma comercial voltada a pesquisa, programação e desenvolvimento de aplicações robóticas.
Segundo o Exército, a unidade utilizada pelo IME foi adquirida com recursos de fomento da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
No instituto, pesquisadores trabalham com informações coletadas pelos sensores da máquina e com sua capacidade de processamento para desenvolver algoritmos responsáveis pelo controle dos atuadores — componentes que permitem transformar comandos digitais em movimentos físicos.
As pesquisas alcançam áreas como inteligência artificial, percepção do ambiente, navegação, robótica e autonomia de sistemas.
O humanoide funciona, dessa forma, como uma plataforma na qual estudantes e pesquisadores podem testar técnicas antes de aplicá-las a outros equipamentos.
O trabalho ocorre em um ambiente acadêmico que ganhou estrutura própria nos últimos anos.
O IME informa que seu Laboratório de Inteligência Artificial, inaugurado em 21 de maio de 2024, tem enfoque em robótica e cibernética e foi criado para apoiar graduação, pesquisa básica, pesquisa aplicada e desenvolvimento em áreas consideradas de interesse para a Força Terrestre.
A estrutura passou a ser identificada também como Laboratório de Inteligência Artificial, Robótica e Cibernética, o LIARC.

O que o Unitree G1 consegue fazer
Sem a farda, o robô utilizado pelo IME se parece com outros G1 vendidos pela fabricante chinesa para universidades, empresas e laboratórios.
De acordo com as especificações oficiais da Unitree, tanto o G1 convencional quanto a versão EDU medem aproximadamente 1,32 metro quando estão em pé.
O peso com bateria fica na faixa de 35 quilos, com pequenas variações conforme a configuração escolhida.
A versão EDU pode ter de 23 a 43 graus de liberdade, dependendo dos opcionais instalados.
Na prática, isso representa o número de movimentos independentes disponíveis nas articulações e ajuda a explicar por que o humanoide consegue movimentar braços, pernas, cintura e, em determinadas configurações, mãos articuladas.
A plataforma também pode usar câmera de profundidade e lidar 3D para perceber obstáculos e produzir informações sobre o espaço ao redor.
A bateria oferece autonomia aproximada de duas horas, segundo as especificações divulgadas pela fabricante, embora o tempo real dependa da atividade realizada e da configuração do equipamento.
Essas características tornam o robô particularmente interessante para pesquisa.
Diferentemente de uma máquina construída para executar sempre o mesmo movimento industrial, o humanoide permite experimentar deslocamento, percepção ambiental, equilíbrio e interação com objetos em espaços originalmente projetados para pessoas.

Valor pago pelo Exército não foi divulgado
O preço do robô também virou assunto depois do desfile, mas os valores encontrados na internet precisam ser tratados com cautela.
O Poder360 informou em 8 de setembro que uma configuração do equipamento aparecia em marketplace por cerca de R$ 194 mil.
No dia seguinte, o UOL encontrou oferta em torno de R$ 160 mil.
Esses números refletem anúncios comerciais consultados em momentos diferentes e não correspondem necessariamente ao valor desembolsado pelo IME.
O próprio Exército informou que não divulgou quanto pagou pela unidade adquirida.
Além disso, a fabricante diferencia o G1 comum da versão EDU.
Na loja internacional oficial, o modelo básico aparece com preço inicial de US$ 13,5 mil, enquanto a Unitree orienta interessados na versão EDU a solicitar uma cotação diretamente ao setor comercial.
Custos de configuração, transporte, impostos e acessórios podem alterar substancialmente o preço final.
Por isso, o valor de R$ 194 mil observado em marketplace serve como referência comercial, mas não permite afirmar que esse tenha sido o custo do equipamento pertencente ao IME.
Exército diz que não pretende colocar o humanoide diretamente em operação
Apesar da farda usada no desfile, o Exército afirma que não existe perspectiva de emprego operacional direto do Unitree G1 humanoide pela Força.
O objetivo está no conhecimento produzido a partir da plataforma.
Segundo o Centro de Comunicação Social do Exército, algoritmos desenvolvidos com o equipamento podem posteriormente ser aproveitados em sistemas de interesse militar, inclusive tecnologias já presentes em conflitos contemporâneos, como drones, veículos autônomos, armamentos operados remotamente e robôs utilizados para localizar ou desativar explosivos.
A distinção é importante porque algumas das primeiras reportagens sobre o desfile chegaram a associar diretamente o humanoide a funções antibombas.
Na apresentação de 7 de Setembro, porém, havia dois robôs distintos.
Outro robô era destinado a operações antibombas
Além do Unitree G1 do IME, o Exército apresentou um equipamento operado remotamente pelo 2º Batalhão Ferroviário, este sim destinado a atividades envolvendo explosivos.
O sistema pode inspecionar, identificar, manusear e neutralizar artefatos a distância, permitindo que especialistas militares permaneçam afastados de uma possível detonação.
O equipamento também passou pelo desfile durante a apresentação do bloco motorizado.
Assim, o robô que bateu continência a Lula e o robô antibombas exibido pelo batalhão cumpriam funções diferentes.
Enquanto um já possui aplicação voltada a operações de engenharia e segurança, o humanoide do IME permanece essencialmente como plataforma experimental de ensino e pesquisa.
Tecnologia apareceu em desfile marcado pela soberania
A apresentação dos robôs ocorreu em uma cerimônia cujo eixo principal foi “Soberania, a força que une o Brasil”.
O desfile também abriu espaço para campanhas de enfrentamento à violência contra mulheres e referências à Copa do Mundo Feminina de 2027, que será sediada pelo Brasil.
Lula não discursou durante a cerimônia, encerrada por volta das 11h15.
Em meio aos equipamentos tradicionais das Forças Armadas, a presença das duas máquinas ofereceu uma amostra de como automação, inteligência artificial e sistemas remotamente operados passaram a dividir espaço com viaturas, aeronaves e tropas nas apresentações militares.

