A nova legislação aprovada em dezembro altera profundamente o treinamento médico militar, restringe o uso de munição real em animais vivos e pressiona as Forças Armadas a adotarem tecnologias de simulação avançada no campo de batalha
O Exército dos Estados Unidos foi oficialmente proibido de utilizar animais vivos como alvos de tiros com munição real em treinamentos voltados à formação de médicos de guerra. A mudança encerra uma prática histórica adotada desde a Guerra do Vietnã e representa um marco na forma como as Forças Armadas norte-americanas conduzem a preparação médica para cenários de combate moderno.
A informação foi divulgada pela Associated Press (AP), com base no texto da nova legislação aprovada pelo Congresso dos Estados Unidos em 18 de dezembro, dentro da Lei de Autorização de Defesa Nacional de 2026. A norma veda expressamente qualquer aplicação de ferimentos por armas de fogo em animais vivos conduzida pelo Departamento de Defesa com a finalidade de treinar médicos de combate.
Embora a decisão elimine o uso de munição real, a lei ainda permite outros tipos de procedimentos envolvendo animais, desde que não incluam disparos. Dessa forma, o treinamento médico militar passa por uma reformulação parcial, mas não total, como defendem organizações de direitos dos animais.
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Por que animais vivos eram usados no treinamento médico militar
Historicamente, o uso de animais vivos, especialmente porcos e cabras, foi justificado pelas Forças Armadas como uma forma de simular ferimentos reais de guerra. Segundo um relatório de 2022 do Escritório de Contabilidade do Governo dos EUA, esses animais apresentam órgãos e tecidos com semelhanças anatômicas aos humanos, além de variações biológicas que podem dificultar procedimentos médicos, criando situações complexas para treinamento.
De acordo com o documento, tais variações seriam importantes para expor médicos militares a cenários imprevisíveis, comuns em campos de batalha reais. Ainda assim, essa justificativa passou a ser amplamente questionada ao longo das últimas décadas.
A prática, adotada oficialmente desde pelo menos a Guerra do Vietnã, tornou-se alvo constante de denúncias e campanhas públicas promovidas por entidades como o Comitê de Médicos para a Medicina Responsável e a organização Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais (PETA). Ambas defendem que o avanço tecnológico tornou esse tipo de treinamento desnecessário e eticamente injustificável.
Segundo a Associated Press, não há dados públicos precisos sobre a frequência com que militares americanos utilizavam animais vivos em treinamentos médicos, o que aumentava ainda mais a pressão por transparência e revisão das práticas adotadas.
O que muda com a nova lei e quais exceções permanecem
Com a entrada em vigor da nova legislação, o Departamento de Defesa fica impedido de autorizar qualquer treinamento médico de combate que envolva ferimentos causados por munição real em animais vivos. No entanto, o texto legal não proíbe totalmente o uso de animais em outros tipos de simulação.
O gabinete do deputado republicano Vern Buchanan, do estado da Flórida — um dos principais articuladores da medida — afirmou que ainda poderão ser autorizados procedimentos como esfaqueamentos, queimaduras e impactos com equipamentos contundentes. Nesses casos, o objetivo declarado é reproduzir traumas específicos sem o uso de armas de fogo.
Além disso, a lei prevê uma exceção para situações classificadas como testes de armas, nas quais animais podem ser feridos, desde que estejam devidamente anestesiados. Esse ponto segue gerando críticas de ativistas, que consideram a exceção ampla demais.
Buchanan afirmou que a nova regra representa um esforço para eliminar práticas consideradas “ultrapassadas e desumanas”, ao mesmo tempo em que preserva a capacidade operacional das Forças Armadas. Ainda assim, organizações de direitos dos animais defendem que a mudança deveria ter ido além.
Simuladores avançados e o futuro do treinamento médico de guerra
A legislação também orienta explicitamente que as Forças Armadas passem a utilizar alternativas modernas, como simuladores avançados, manequins de alta fidelidade, cadáveres humanos doados para fins científicos e até atores treinados com roupas de simulação de ferimentos.
Segundo o Comitê de Médicos para a Medicina Responsável, essas tecnologias evoluíram significativamente nas últimas décadas, permitindo a reprodução de sangramentos, respostas fisiológicas e reações humanas com maior realismo do que animais anestesiados.
Em comunicado oficial, a entidade afirmou que porcos e cabras anestesiados oferecem pouco valor pedagógico para médicos de combate, enquanto simulações com pessoas equipadas com trajes especiais conseguem reproduzir de forma mais eficaz o comportamento de um ser humano gravemente ferido em ambiente hostil.
Ativistas destacam que, além do aspecto ético, o uso de simuladores reduz custos, amplia a repetição de cenários e permite avaliações mais precisas do desempenho médico, algo difícil de alcançar com animais vivos.
A nova lei nacional também proíbe o uso de cães, gatos, primatas não humanos e outros mamíferos em exercícios de treinamento em campo de batalha, consolidando uma mudança gradual, porém significativa, na doutrina de preparo médico militar dos Estados.

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