Capacidade militar abaixo do necessário expõe lacunas em caças, transporte estratégico e reabastecimento aéreo, enquanto decisões orçamentárias e estruturais moldam o ritmo da defesa brasileira e ampliam debate sobre prontidão e dissuasão.
A avaliação de que o Brasil opera hoje abaixo do patamar considerado necessário para uma dissuasão aérea robusta voltou ao centro do debate após declarações do tenente-brigadeiro do ar Carlos de Almeida Baptista Júnior, ex-comandante da Aeronáutica, ao jornal O Estado de S. Paulo.
Na entrevista, ele afirmou que o país precisaria de ao menos 66 caças F-39 Gripen, além de aeronaves de patrulha marítima e de reabastecimento em voo, para sustentar uma capacidade militar compatível com a dimensão territorial e marítima brasileira.
O alerta parte de um diagnóstico mais amplo.
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Segundo o ex-chefe da FAB, as Forças Armadas não reúnem hoje os meios operacionais considerados adequados para garantir a soberania nacional, ao mesmo tempo em que parte da sociedade e do próprio meio militar subestima a possibilidade de uma agressão ao país.
A crítica não se limita ao volume de recursos e alcança também a forma como o sistema de defesa é organizado.
Quantidade de Gripen e lacuna na defesa aérea
O ponto mais sensível da entrevista está na conta da aviação de caça.
O contrato assinado pelo Brasil em outubro de 2014 com a Saab prevê 36 aeronaves Gripen NG, sendo 28 monopostos e 8 bipostos, com pacote de suporte, treinamento, armamentos e cooperação industrial.
Esse é, até aqui, o número oficial consolidado do programa, embora em 2022 a Aeronáutica tenha anunciado a intenção de incluir mais quatro unidades no lote.
A ampliação para 40 aparelhos chegou a ser divulgada pela própria FAB e pela Saab em 2022.
Ainda assim, fontes públicas posteriores não consolidaram esse total como nova quantidade definitiva contratada, o que mantém o dado de 36 caças como referência factual mais segura.
Enquanto isso, a incorporação ocorre de forma gradual.
Os dois primeiros F-39 Gripen foram integrados ao 1º Grupo de Defesa Aérea em 19 de dezembro de 2022, marco que inaugurou a fase operacional do modelo na FAB.
Já em fevereiro de 2026, a própria Força informou que o 1º GDA contava com dez aeronaves em operação, empregadas em missões de defesa aérea e policiamento do espaço aéreo.
Esse avanço, porém, não elimina a distância entre a frota disponível e o quantitativo apontado como mínimo desejável.
Se a conta apresentada for tomada como parâmetro, o país ainda está longe do efetivo considerado necessário para garantir presença contínua, treinamento, manutenção e cobertura territorial.
Redução do KC-390 e impacto na capacidade logística
A discussão sobre prontidão não envolve apenas caças.
No segmento de transporte e reabastecimento tático, o programa KC-390 Millennium foi reduzido de 28 para 19 aeronaves após negociações entre a Aeronáutica e a Embraer.
A redução se tornou um dos episódios mais delicados da relação entre a Força e a fabricante.
Em novembro de 2021, foi anunciada a intenção de diminuir o pedido para 15 jatos, movimento que depois resultou em acordo intermediário.
Na prática, o enxugamento diminui a margem de emprego simultâneo em missões de transporte, evacuação, apoio logístico e reabastecimento em voo.
O modelo segue central para a aviação de transporte brasileira.
Em novembro de 2025, o KC-390 foi empregado em missões de reabastecimento em voo durante a COP30, apoiando caças F-5M na defesa aérea da região do evento.
O dado confirma a relevância operacional da aeronave, mas também reforça que o tamanho da frota pesa diretamente sobre a capacidade de sustentar operações prolongadas.
KC-30 e a limitação no reabastecimento em voo
Outra fragilidade aparece nos KC-30, que ainda não operam plenamente o reabastecimento em voo.
Os Airbus A330-200 foram incorporados em 2022 como reforço para transporte estratégico, apoio logístico e ações humanitárias.
No entanto, a conversão completa para a função de avião-tanque não foi concluída.
A lacuna é relevante porque o Brasil perdeu, com a desativação dos KC-137, uma capacidade orgânica de reabastecimento estratégico de grande porte.
Sem essa modernização, a FAB mantém um ativo importante para longas distâncias, mas não recompõe integralmente uma função considerada crucial em cenários de guerra.
Estrutura de comando e decisões de defesa
Na entrevista, Baptista Júnior também defendeu o fortalecimento do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas.
Ele sustenta que o emprego operacional deveria ficar concentrado em comandos conjuntos permanentes.
Enquanto isso, Marinha, Exército e Aeronáutica se dedicariam a organizar, treinar e equipar seus efetivos.
A mesma lógica aparece na crítica à Secretaria de Produtos de Defesa, que, segundo ele, não ganhou força suficiente para centralizar decisões estratégicas.
Pelas atribuições atuais, o órgão atua no fomento e na promoção da indústria de defesa.
No entanto, o poder decisório sobre grandes programas continua distribuído entre as Forças.
Esse contexto ajuda a explicar por que programas estratégicos avançam em ritmo desigual.
A incorporação do Gripen, a redução do KC-390 e a indefinição sobre os KC-30 mostram que a prontidão militar depende diretamente de orçamento, planejamento e continuidade de políticas públicas.

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