Durante a Guerra Fria, um ex-executivo da AVON construiu uma mansão subterrânea de luxo para resistir a ataques nucleares. Avaliada em US$ 18 milhões, ela ficou esquecida por décadas.
No auge da Guerra Fria, o medo de uma guerra nuclear era real. Governos, milionários e visionários passaram a investir em estruturas que garantissem sua sobrevivência em caso de catástrofe global. Foi nesse contexto que Girard B. Henderson, ex-executivo da AVON e empresário americano, decidiu construir uma das residências subterrâneas mais extravagantes já registradas nos Estados Unidos. Localizada em Las Vegas, Nevada, a mansão-bunker foi projetada para resistir a explosões atômicas, mas ao mesmo tempo proporcionar o conforto de uma mansão de luxo — com quintal artificial, piscina coberta, jardins cenográficos e até um falso céu pintado no teto. Pode te interessar também: Mais de 100 países enviam sementes para um “cofre do apocalipse” no Ártico — e o motivo tem tudo a ver com o futuro da vida na Terra. Conheça o Cofre de Svalbard
Quem foi Girard Henderson?
Girard “Jerry” Henderson foi um magnata dos negócios, conhecido por ter sido executivo e diretor da AVON Products, além de fundador de empresas como a Gulfstream American e da Foundation for the Advancement of Science and Education. Durante os anos 1970, Henderson tornou-se um entusiasta das tecnologias de sobrevivência e passou a investir em moradias subterrâneas.
Visionário, excêntrico e temeroso dos rumos geopolíticos da época, ele acreditava que uma guerra nuclear era inevitável — e que apenas os preparados sobreviveriam.
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A construção da mansão-bunker subterrânea
Em 1978, Henderson decidiu erguer em Las Vegas uma casa subterrânea de 1.400 metros quadrados, localizada a cerca de 8 metros abaixo da superfície. Ele comprou um lote em um bairro residencial e construiu uma falsa residência acima do solo, usada como fachada. A verdadeira moradia, no entanto, ficava totalmente escondida sob a terra.
O interior da mansão-bunker inclui:
- 5 quartos e 6 banheiros
- Sala de jantar, salas de estar e uma cozinha ampla
- Piscina e spa internos
- Jardim com árvores falsas, gramado artificial e iluminação noturna simulada
- Murais pintados à mão nas paredes para simular paisagens naturais
- Teto com sistema de iluminação para imitar o ciclo do dia
O design era assinado por Jay Swayze, arquiteto texano conhecido por seus projetos de casas subterrâneas de alto padrão.
Durante a década de 1970, o temor da destruição mútua assegurada (MAD) entre EUA e URSS levou à popularização dos bunkers particulares. Mas a maioria deles era espartana, feita apenas para sobrevivência mínima. O projeto de Henderson foi diferente: era uma mansão-bunker de luxo, com tudo que uma mansão tradicional teria — exceto o céu real.
A intenção era clara: se o mundo lá fora estivesse em ruínas, sua vida continuaria normalmente sob a terra.
O abandono após a morte do fundador da mansão-bunker
Girard Henderson faleceu em 1983, apenas cinco anos após a construção da mansão subterrânea. Desde então, o imóvel passou por um longo período de abandono.
Com a desvalorização dos abrigos nucleares após o fim da Guerra Fria e a dificuldade de manutenção de estruturas subterrâneas complexas, a propriedade ficou fechada por décadas. Durante esse tempo, tornou-se um objeto de fascínio e especulação local.
A tentativa de venda por US$ 18 milhões
Em 2014, o bunker foi comprado pela Stasis Foundation, uma organização ligada a pesquisas em criogenia e longevidade humana, por cerca de US$ 1,15 milhão. Com o objetivo de preservar o espaço e convertê-lo em um centro educacional ou turístico, a fundação restaurou parcialmente o local.
No entanto, em 2020, o imóvel foi listado novamente no mercado imobiliário por US$ 18 milhões. Mesmo com todo o apelo histórico e visual, não houve interessados dispostos a pagar tal valor.
Hoje, o bunker continua sendo anunciado para venda ou locação para eventos e gravações, sendo um dos imóveis mais curiosos e incomuns dos EUA.
A casa à prova de bombas que virou cenário de filmes
Com o passar dos anos, a mansão passou a atrair atenção da indústria do entretenimento. Diversas produções, videoclipes e documentários já utilizaram o local como cenário, destacando seu estilo vintage, seu ar de mistério e sua ligação com os anos de tensão da Guerra Fria.
Vídeos populares no YouTube somam milhões de visualizações, mostrando o interior preservado da casa — com sua estética retrô intacta, inclusive televisores de tubo, móveis originais e até aparelhos da época funcionando.
A mansão é realmente à prova de bombas?
A resposta é: em teoria, sim. A casa foi construída com tecnologia de ponta para a época, incluindo:
- Paredes de concreto reforçado
- Sistemas de ventilação com filtragem de partículas radioativas
- Reservatórios próprios de água e comida
- Geradores de energia independentes
- Blindagem térmica e acústica
Apesar disso, nunca foi testada na prática — e hoje não atende aos padrões modernos de segurança nuclear. Ainda assim, é considerada uma das mais completas estruturas residenciais subterrâneas construídas nos EUA.
Porque ninguém mais quis morar lá?
Apesar de toda a inovação e proteção, a verdade é que:
- Manter o imóvel é caro: ventilação, iluminação e umidade exigem cuidados técnicos constantes.
- É um espaço fora do comum: a ausência de luz solar e o design fechado dificultam a vida diária.
- Mudança cultural: o medo da guerra nuclear arrefeceu, e imóveis com esse perfil perderam atratividade no mercado tradicional.
O resultado foi um imóvel excêntrico, caro e difícil de vender, mesmo com todo o seu apelo histórico.
Uma cápsula do tempo dos anos 70
Hoje, a mansão de Girard Henderson é considerada uma cápsula do tempo. Tudo nela remete aos anos 1970: o papel de parede psicodélico, os eletrodomésticos antigos, a estética kitsch, os murais pintados a mão. A sensação de quem entra ali é de que o tempo parou.
Para pesquisadores, jornalistas e curiosos, o local representa o ápice da paranoia nuclear entre os ricos — e a tentativa de manter o luxo mesmo sob ameaça de destruição global.
A história da mansão-bunker construída por um ex-executivo da AVON é, acima de tudo, uma história sobre medo, poder e excessos. Em meio à tensão da Guerra Fria, Girard Henderson decidiu que a solução era cavar — e criar um refúgio subterrâneo onde a vida continuaria normalmente mesmo após o fim do mundo.
Mas o que era para ser um santuário contra o apocalipse se tornou, com o tempo, um monumento abandonado da paranoia e do luxo extremo. Avaliada em até US$ 18 milhões, a mansão ainda está lá, vazia — esperando por alguém que esteja disposto a viver sob o chão da cidade que nunca dorme.
Fontes:
- Business Insider – The Doomsday Bunker in Las Vegas
- BBC – Bunkers of the Cold War Era
- The Guardian – Life Underground
- NPR – Bunkers and Billionaires


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