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Europa adia acordo com o Mercosul para 2026 enquanto China dispara nas exportações ao bloco e ameaça tirar de vez espaço, investimentos e influência estratégica dos europeus na região inteira

Publicado em 24/12/2025 às 11:18
Entenda como o acordo Mercosul União Europeia adiado abre espaço para a China no Mercosul, pressiona a indústria europeia e ameaça investimentos no Mercosul.
Entenda como o acordo Mercosul União Europeia adiado abre espaço para a China no Mercosul, pressiona a indústria europeia e ameaça investimentos no Mercosul.
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Com o acordo entre União Europeia e Mercosul empurrado para assinatura só em janeiro de 2026, estudo de Bruxelas e pressão da BusinessEurope expõem perda de espaço para a China, ameaça competitiva ao Brasil e risco de fuga de investimentos para Pequim no comércio com o bloco sul-americano nos anos.

Na quinta-feira passada, a União Europeia decidiu adiar para meados de janeiro de 2026 a assinatura do acordo comercial com o Mercosul, justamente quando a China já é o maior parceiro do bloco desde 2017 e segue ampliando sua participação no comércio com Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. A decisão acendeu o alerta na indústria europeia, que vê a janela de oportunidade se fechar.

Ao mesmo tempo, um novo estudo da Direção-Geral de Comércio da UE, concluído em 2024, mostra em detalhes como os europeus saíram de uma posição dominante no Mercosul, no fim dos anos 1990, para um claro segundo lugar atrás da China, com risco concreto de perder ainda mais mercado e investimentos na região se o acordo não sair do papel.

Europa perde espaço histórico no Mercosul para Pequim

No início das negociações do acordo, em junho de 1999, a União Europeia era o principal parceiro comercial do Mercosul: respondia por quase 30% das importações do bloco e por cerca de 25% do destino das exportações.

A China tinha menos de 5% tanto das compras quanto das vendas com o Mercosul.

Desde então, Pequim passou a conquistar fatias de mercado de forma constante, até ultrapassar os europeus entre 2016 e 2017.

Em um quarto de século, a UE foi de protagonista absoluta no comércio com o Mercosul a coadjuvante em segundo plano, vendo a China assumir a dianteira nas relações com o Cone Sul.

Em 2000, as vendas das empresas europeias para o Mercosul eram cerca de seis vezes maiores do que as das companhias chinesas.

Hoje, a participação relativa da China é aproximadamente 40% maior do que a da UE nas trocas com o bloco, evidenciando uma mudança profunda no mapa comercial da região.

Estudo de Bruxelas calcula prejuízo certo sem acordo

O estudo da Direção-Geral de Comércio conclui que, sem o acordo birregional com o Mercosul, a União Europeia seguirá perdendo espaço para a China.

A tendência é de continuidade da expansão chinesa nas importações e exportações do bloco, enquanto os europeus ficariam cada vez mais para trás em um mercado estratégico para bens industriais, serviços e investimentos.

Com o tratado em vigor, porém, o quadro se inverte. Em vez de perder mais 2,5 pontos percentuais de participação nas exportações para o Mercosul até 2040, a UE poderia ganhar 7,3 pontos percentuais nas vendas ao bloco.

Na prática, isso colocaria os europeus de volta em uma posição semelhante à que tinham há 25 anos, mesmo com a forte presença chinesa.

Segundo o documento, o acordo criaria um quadro estável para o comércio entre os dois blocos, reduzindo incertezas, facilitando o intercâmbio de bens e serviços e estimulando o investimento em setores voltados à exportação.

Tudo isso reforçaria a chamada “autonomia estratégica” europeia, ao diversificar cadeias de abastecimento e diminuir a dependência de matérias-primas essenciais de outros fornecedores.

Como a UE segurou a China em outros mercados latino-americanos

O mesmo estudo mostra que a perda de espaço europeu não se repetiu em países latino-americanos que já têm acordos de livre comércio com a UE, como Chile, México, Peru, Colômbia, Equador e países da América Central.

Nesses mercados, a participação da China nas importações saltou de 2% em 2000 para mais de 20% em 2024, um aumento de dez vezes.

Mesmo assim, essa expansão chinesa ocorreu principalmente em cima de outros parceiros, sobretudo os Estados Unidos, cuja fatia nas importações caiu de 62% em 2000 para 34% em 2024.

Já a fatia europeia se manteve relativamente estável, oscilando entre 9% e 11%, justamente porque os acordos preferenciais protegeram a posição da UE.

A leitura em Bruxelas é direta: onde há acordo, a UE consegue preservar e até ampliar espaço frente à China; onde não há, como no Mercosul, Pequim avança e os europeus recuam.

Risco de o Brasil ver investimentos migrarem para a China

O atraso no acordo com o Mercosul não preocupa apenas a União Europeia. Para o próprio bloco sul-americano, em especial para o Brasil, o risco é ver investimentos produtivos e cadeias de valor se deslocarem para países onde as empresas europeias já têm condições mais competitivas, ou mesmo serem substituídos por grupos chineses.

Sem regras claras, previsíveis e com tarifas mais baixas entre UE e Mercosul, as companhias europeias podem continuar avaliando que vale mais apostar em outros mercados na América Latina, ou aprofundar conexões com parceiros já consolidados.

Para o Brasil, isso significa perder oportunidades de plantas industriais, tecnologia e empregos de maior valor agregado.

Ao mesmo tempo, a China segue financiando infraestrutura, comprando commodities e aumentando exportações de bens manufaturados para o Mercosul, o que reforça a percepção de que o centro de gravidade econômico da região pende cada vez mais para o lado de Pequim.

Pressão da indústria europeia e impaciência do Mercosul

Diante desse cenário, a BusinessEurope vem pressionando os governos dos 27 países da UE a parar de adiar a decisão e assinar o tratado com o Mercosul o quanto antes.

A entidade argumenta que o acordo é essencial para impedir a erosão da posição europeia na região, em um contexto de guerra comercial, protecionismo e reconfiguração de cadeias globais.

Do lado sul-americano, a paciência está no limite. Líderes do Mercosul veem as sucessivas postergações como uma tática protelatória da Europa e cobram uma definição.

Como a própria BusinessEurope admite, já não é possível pedir que o bloco continue esperando enquanto perde espaço econômico real para a China.

Aposta na aprovação em 2026 ainda é incerta

A Comissão Europeia afirma que, desta vez, terá a maioria qualificada necessária para aprovar o tratado com o Mercosul: 55% dos Estados-membros, equivalentes a 15 dos 27 países, representando ao menos 65% da população da UE. A promessa é de que essa maioria será alcançada na votação prevista para o mês que vem.

Ainda assim, muitos diplomatas, empresas e governos no Mercosul adotam uma postura de cautela e repetem que só vão acreditar quando o acordo for enfim assinado e entrar em processo de ratificação. Até lá, a China continua avançando e ocupando os espaços deixados pelos atrasos europeus.

E você, acha que o Mercosul deve continuar apostando na Europa ou acelerar de vez uma aproximação mais profunda com a China?

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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