1. Início
  2. / Ciência e Tecnologia
  3. / Estudo publicado aponta que aquecimento crônico dos oceanos pode cortar quase 20% de peixes ao ano, com quedas de até 43% em ondas de calor e risco crescente para ecossistemas marinhos
Tempo de leitura 6 min de leitura Comentários 0 comentários

Estudo publicado aponta que aquecimento crônico dos oceanos pode cortar quase 20% de peixes ao ano, com quedas de até 43% em ondas de calor e risco crescente para ecossistemas marinhos

Publicado em 25/02/2026 às 17:41
oceanos em alerta: aquecimento dos oceanos reduz biomassa de peixes; onda de calor marinha acelera branqueamento de corais e eleva risco.
oceanos em alerta: aquecimento dos oceanos reduz biomassa de peixes; onda de calor marinha acelera branqueamento de corais e eleva risco.
  • Reação
  • Reação
  • Reação
3 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo

Um estudo na Nature Ecology & Evolution analisou mais de 700 mil estimativas de biomassa de quase 34 mil populações, entre 1993 e 2021, e detectou que o aquecimento crônico dos oceanos está ligado a queda anual de até 19,8%, agravada por ondas de calor e pressiona cadeias alimentares inteiras.

Quando a temperatura média dos oceanos sobe de forma persistente, o impacto não aparece só como uma estatística distante: ele começa a se traduzir em menos biomassa de peixes ano após ano. Um estudo recente aponta que esse aquecimento crônico está associado a uma queda anual sustentada de quase 20% na biomassa, um ritmo capaz de redesenhar a vida marinha em poucas temporadas.

A análise reuniu um volume incomum de registros, com mais de 700 mil estimativas de mudança de biomassa de quase 34 mil populações de peixes, acompanhadas entre 1993 e 2021. Ao olhar para regiões do Hemisfério Norte e separar o efeito do aquecimento constante do “ruído” dos eventos extremos de curto prazo, os autores descrevem um padrão preocupante que não depende de um único pico de calor para se impor.

O que “biomassa de peixes” mede e por que isso muda o problema

Biomassa de peixes não é apenas “quantos peixes existem”, mas a quantidade total de peixes em um ambiente multiplicada pelo peso médio dos animais. Isso importa porque a biomassa capta, ao mesmo tempo, abundância e tamanho, dois sinais que podem cair juntos ou de maneiras diferentes quando a temperatura do mar deixa de ser estável.

Esse detalhe ajuda a entender por que o aquecimento crônico dos oceanos preocupa tanto: ele não precisa provocar mortandades dramáticas em um único dia para reduzir o “estoque vivo” disponível. Uma pressão negativa constante pode ir diminuindo o conjunto das populações ao longo do tempo, alterando o equilíbrio do ecossistema e a disponibilidade de recursos para predadores, para a pesca e para as comunidades que dependem do mar.

Onde os dados foram observados e quem assinou as conclusões

Os pesquisadores que conduziram a análise são do Museu Nacional de Ciências Naturais da Espanha e da Universidade Nacional da Colômbia.

Eles trabalharam com registros coletados em áreas do Mediterrâneo, do Atlântico Norte e do Pacífico Nordeste, concentrando-se em populações monitoradas no Hemisfério Norte.

Ao sintetizar as mudanças ao longo de quase três décadas, o estudo descreve que, quando se remove o efeito de eventos extremos de curto prazo, o aquecimento constante dos oceanos aparece associado a um declínio anual de até 19,8% na biomassa.

O pesquisador Shahar Chaikin resume essa ideia ao destacar que, sem o “ruído” dos extremos, o padrão de perda sustentada fica mais claro, como se o mar estivesse ficando mais quente e, ao mesmo tempo, mais “pobre” em biomassa.

Ondas de calor marinhas: quedas rápidas e ganhos que parecem boas notícias

Assim como acontece em terra, as ondas de calor nos oceanos estão se tornando mais frequentes, e o estudo descreve que o efeito varia conforme a faixa de temperatura ideal de cada espécie.

Em outras palavras, não existe uma resposta única: algumas populações perdem biomassa, outras aumentam temporariamente, dependendo de quão perto já estavam do seu “conforto térmico”.

Quando uma onda de calor empurra peixes de águas já quentes além dessa zona de conforto, a biomassa pode despencar até 43,4%. Em contraste, em áreas mais frias, a elevação temporária da temperatura pode favorecer certas populações, elevando a biomassa em até 176%.

É um contraste que engana, porque um aumento momentâneo pode soar como alívio, mas ele não apaga a tendência de fundo quando o aquecimento é persistente.

O risco escondido quando a pesca “melhora” por pouco tempo

O estudo chama atenção para um ponto delicado: em áreas frias, o ganho temporário de biomassa durante ondas de calor pode parecer uma oportunidade. Só que Chaikin ressalta que essa “boa fase” tende a ser transitória, e capturar mais nesse intervalo pode trazer um efeito reverso quando as temperaturas retornarem ao normal.

Esse mecanismo ajuda a explicar por que o aquecimento crônico dos oceanos é o principal fator de estresse para as espécies marinhas no longo prazo.

Juan David González Trujillo, da Universidade Nacional da Colômbia, reforça a diferença entre extremos de curto prazo e aquecimento persistente: enquanto os extremos oscilam, o crônico mantém uma pressão negativa contínua.

A soma de pequenas perdas repetidas pode empurrar populações para um ponto em que a recuperação fica mais difícil.

O que pode acontecer com ecossistemas inteiros quando o mar acumula calor

O aumento da temperatura média dos oceanos é citado como uma consequência direta das mudanças climáticas, e o impacto vai além dos peixes. A própria estrutura dos ecossistemas pode se transformar quando espécies mudam de abundância, quando cadeias alimentares se reorganizam e quando habitats sensíveis começam a falhar.

Um exemplo destacado é o branqueamento de corais, que ocorre quando o aumento da temperatura rompe a relação entre os corais e as microalgas que vivem em seus tecidos e fornecem energia. Números recentes citados apontam que o terceiro evento global de branqueamento já atingiu 80% dos recifes do planeta, de forma moderada ou severa.

Quando corais perdem saúde, o “endereço” da vida marinha também enfraquece, porque recifes sustentam uma enorme diversidade de espécies e interações.

Por que a preocupação cresce agora, mesmo antes do fim do século

O estudo se apoia em um contexto mais amplo: recordes recentes de emissões e aquecimento têm empurrado a temperatura dos oceanos para patamares inéditos, com risco de consequências irreversíveis.

A Organização Meteorológica Mundial alerta que impactos nos oceanos podem durar milênios, um lembrete de que o mar não “desaquece” no mesmo ritmo em que esquenta.

Projeções climáticas citadas indicam que o aquecimento dos mares deve continuar por pelo menos o resto do século XXI, mesmo em cenários de baixas emissões de carbono.

Em 2024, apontado como o ano mais quente já registrado, as temperaturas das superfícies marítimas também bateram recordes e cerca de 10% da superfície marítima global foi afetada por ondas de calor. Não é só um evento isolado, mas um sinal de frequência e escala que aumenta a exposição dos ecossistemas a choques repetidos.

Na prática, o que esse quadro sugere é que os oceanos estão sendo submetidos a duas forças ao mesmo tempo: uma tendência contínua de aquecimento e picos de calor cada vez mais comuns. Essa combinação altera a biomassa de peixes, confunde a percepção de “ganhos” temporários e amplia o risco para habitats como os recifes de corais.

E você, que tipo de mudança você percebe quando pensa no mar e na pesca, menos peixe, peixe menor, espécies diferentes aparecendo, ou temporadas mais imprevisíveis?

Se você vive em região costeira, trabalha com pesca ou acompanha consumo de pescado, qual sinal mais te chama atenção e o que você acha que deveria mudar primeiro para reduzir o risco nos ecossistemas marinhos?

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x