Explosões usadas na construção do muro na fronteira entre Estados Unidos e México atingiram Cuchumá Hill, na Baja California, e danificaram um monólito de 35 metros em um sítio arqueológico sagrado para o povo Kumiai, reacendendo protestos e tensão em uma área de valor histórico e religioso reconhecido oficialmente
Explosões usadas por agentes dos Estados Unidos durante a construção do muro na fronteira com o México atingiram um sítio arqueológico em Cuchumá Hill, na Baja California, e danificaram um monólito de 35 metros considerado sagrado por povos indígenas da região. O tamanho exato do dano ainda não era conhecido no momento da publicação.
Moradores da Baja California relataram à imprensa mexicana terem ouvido as explosões no último fim de semana. As detonações fizeram parte das obras do muro na fronteira e ocorreram em uma área compartilhada historicamente pelos dois países.
Miguel Olmos Aguilera, doutor em etnologia, etnografia e antropologia social e professor-pesquisador do Colegio de la Frontera Norte, afirmou que a colina tem grande importância religiosa para o povo Kumiai. Ele disse ter recebido relatos da própria comunidade sobre a obstrução da passagem e a destruição do local cerimonial.
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O pesquisador também informou que não sabia qual era a gravidade dos danos provocados no monólito. A estrutura esculpida é tratada como sagrada pelos indígenas que vivem naquela região de fronteira.
Sítio arqueológico de valor religioso e ancestral
A montanha de Cuchumá é definida como zona arqueológica e local cerimonial dos povos yumanos, grupo que reúne tribos indígenas como Cucapah, Halyiikwamai, Alakwisa, Kamai, Yuma e Mojave, entre outras. A área se estende até o cume, situado a cerca de 3.500 metros acima do nível do mar.
No século 19, o amplo topo da montanha foi dividido pela fronteira. Essa linha separou também o povo Kumiai, que habitava a região e passou a ficar espalhado entre o sul da Califórnia, nos Estados Unidos, e as cidades mexicanas de Ensenada e Tecate.
Olmos Aguilera afirmou que, embora a colina seja cortada pela fronteira, os Kumiai conseguiam atravessar de um lado para o outro. Agora, na avaliação dele, isso já não parece mais possível.
Povo Kumiai enfrenta restrições na fronteira
Os Kumiai são considerados uma cultura binacional, presente dos dois lados da divisa. A administração Trump, porém, é descrita como resistente à permissão de travessias, o que aumentou a insatisfação da comunidade.
A reação do grupo tem incluído manifestações constantes na fronteira. O pesquisador relatou que a situação provocou revolta entre os Kumiai diante das limitações impostas ao deslocamento em uma área que faz parte da história e da vida religiosa desse povo.
A língua Kumiai pertence à família Hokana, que inclui também Seri e Yumano-Cochimí, entre outras. Uma publicação de 2018 do Colegio de la Frontera apontava cerca de 200 falantes, embora Olmos ressalte que a vitalidade do povo é maior do que esse número isoladamente pode sugerir.
Ele afirmou que o grupo é pequeno em número de falantes, mas forte em presença e continuidade. Também ressaltou que a perda da língua não é o único critério para medir quantas pessoas pertencem a essa linhagem.
Reconhecimento oficial e novas explosões na fronteira
Em outubro de 1992, a montanha foi oficialmente reconhecida como local histórico e sagrado no Registro Nacional de Lugares Históricos dos Estados Unidos. Na base de dados, o sítio arqueológico aparece com o nome de Kuchamaa, localizado em Tecate Peak.
O registro informa que a montanha fica majoritariamente em território dos Estados Unidos, entre as comunidades de Dulzura e Potrero, enquanto Tecate, no México, se espalha por vários quilômetros ao longo da base sudeste do pico. Em território mexicano, a área é considerada Patrimônio Cultural Imaterial.
A fronteira da Baja California não foi a única a registrar explosões nos primeiros dias de abril de 2026. A Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos publicou nas redes sociais um vídeo mostrando detonações no Novo México, em Mount Cristo Rey, entre El Paso e Ciudad Juárez, e classificou a intervenção como um “procedimento cosmético”.
A construção do muro em áreas binacionais de alto valor histórico e cultural, promessa original da campanha de Trump, continua em seu segundo mandato.
O caso de Cuchumá Hill reacendeu a tensão em torno de um sítio arqueológico sagrado, hoje afetado por obras e restrições que atingem diretamente a comunidade Kumiai
Com informações de El Pais.

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