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A 23andMe convenceu 15 milhões de pessoas a entregar seus dados genéticos por um teste de saliva, faliu em 2025 e transformou esse banco de DNA num ativo disputado a leilão por 305 milhões de dólares

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Escrito por Bruno Teles Publicado em 02/07/2026 às 14:42 Atualizado em 02/07/2026 às 14:44
Dados genéticos de 15 milhões de clientes viraram ativo de leilão na falência da 23andMe, comprada por 305 milhões pelo instituto da fundadora Anne Wojcicki
Dados genéticos de 15 milhões de clientes viraram ativo de leilão na falência da 23andMe, comprada por 305 milhões pelo instituto da fundadora Anne Wojcicki
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A empresa que popularizou o teste de ancestralidade por cuspe quebrou, e o maior tesouro que ela tinha para vender não eram máquinas nem prédios, mas o código genético de milhões de clientes

Os dados genéticos de 15 milhões de pessoas viraram, do dia para a noite, uma mercadoria de falência. A americana 23andMe, que popularizou o teste caseiro de ancestralidade em que o cliente cospe num tubinho e recebe um mapa da própria origem, pediu recuperação judicial em 2025, e o item mais valioso do seu inventário passou a ser o gigantesco banco de DNA que ela acumulou.

Como o código genético de milhões de clientes vira um ativo à venda? Porque, no processo de falência, tudo o que a empresa possui pode ser negociado para pagar credores, e o banco de dados genético era de longe o bem mais cobiçado. De repente, milhões de pessoas descobriram que o próprio DNA estava, na prática, no balcão.

Como o DNA de 15 milhões virou um ativo de falência

A quebra foi formal e rápida. Segundo o HIPAA Journal, a 23andMe entrou com pedido de recuperação judicial em março de 2025, listando ativos de cerca de 277 milhões de dólares contra dívidas de cerca de 215 milhões.

O detalhe que assustou o mundo é o que estava no balanço. Segundo o HIPAA Journal, a empresa guardava os dados de cerca de 15 milhões de clientes, e esse banco genético era o principal patrimônio a ser vendido. Nunca antes o DNA de tanta gente tinha sido colocado, de uma vez, como peça central de uma falência, e foi aí que a privacidade virou o centro do debate.

O leilão em que a fundadora pagou mais que uma farmacêutica

Tubos de coleta de saliva de teste genético, o material que virou o banco de DNA disputado na falência.
Tubos de coleta de saliva de teste genético, o material que virou o banco de DNA disputado na falência.

A disputa pelo tesouro genético foi acirrada. Segundo o HIPAA Journal, a farmacêutica Regeneron venceu o primeiro leilão com uma oferta de 256 milhões de dólares, interessada no valor científico e comercial daquela montanha de dados genéticos.

Mas o desfecho teve reviravolta. Segundo a Fox Business, o processo foi reaberto e o instituto sem fins lucrativos TTAM Research Institute apresentou um lance maior, de 305 milhões de dólares, superando a Regeneron e ficando com a empresa. A briga por 15 milhões de perfis de DNA foi decidida por uma diferença de quase 50 milhões de dólares.

Anne Wojcicki retoma o controle pela porta dos fundos

Quem estava por trás do lance vencedor não era um estranho. Segundo a Fox Business, o TTAM Research Institute foi criado pela cofundadora e ex-presidente-executiva da 23andMe, Anne Wojcicki, justamente para readquirir a empresa que ela tinha ajudado a fundar e depois viu quebrar.

O movimento é curioso e revelador. A mesma pessoa que comandou a 23andMe até a falência voltou ao comando por meio de uma organização sem fins lucrativos, agora prometendo tratar os dados como um bem público. Perder a empresa e recomprá-la barata na falência é uma manobra que só o dono original costuma conseguir dar, e Wojcicki fez exatamente isso.

O medo de quem cuspiu num tubinho, e os meus dados?

Perfil genético na tela de um computador, o tipo de dado sensível que preocupa milhões de clientes.
Perfil genético na tela de um computador, o tipo de dado sensível que preocupa milhões de clientes.

A reação dos clientes foi de pânico e desconfiança. Segundo o HIPAA Journal, o procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, emitiu um alerta lembrando os moradores do estado de que eles têm o direito de pedir que a 23andMe apague seus dados e destrua as amostras de saliva guardadas.

E muita gente correu para se proteger. Segundo o HIPAA Journal, cerca de 2 milhões dos 15 milhões de clientes pediram a exclusão dos próprios dados genéticos logo após o anúncio da falência, com medo de que a informação mais íntima que existe, o código genético, acabasse em mãos erradas. Quando o assunto é DNA, a proteção dos dados deixa de ser abstrata e vira um problema de família inteira, já que o seu genoma revela também o dos seus parentes.

O vazamento que já tinha abalado a confiança

A crise de confiança não começou na falência. Segundo o HIPAA Journal, em 2023 a 23andMe sofreu um vazamento que expôs dados de cerca de 7 milhões de clientes, num ataque em que criminosos usaram senhas roubadas de outros sites para invadir contas.

As consequências foram além do susto. Segundo o HIPAA Journal, o episódio atingiu mais de 150 mil pessoas só no Reino Unido e rendeu à empresa uma multa de cerca de 3 milhões de dólares no país. Já era uma empresa com a reputação arranhada em matéria de segurança de dados quando a falência colocou o mesmo banco de dados no centro de um leilão.

As promessas de privacidade do novo dono

Para acalmar os ânimos, o novo controlador fez uma lista de compromissos. Segundo a Fox Business, o TTAM prometeu manter as políticas que permitem ao cliente apagar a conta e os dados genéticos, criar um conselho consultivo de privacidade e recusar a venda ou o compartilhamento das informações a menos que o comprador seja uma organização sediada nos Estados Unidos.

Também houve gestos de reparação. Segundo a Fox Business, o instituto ofereceu dois anos de monitoramento gratuito contra roubo de identidade aos clientes e se comprometeu a avisar com antecedência qualquer mudança. São promessas que tentam transformar um ativo tóxico de confiança em um selo de responsabilidade, ainda que muitos usuários sigam desconfiados.

Por que os dados genéticos valem tanto

No fundo, toda essa disputa existe porque informação genética é ouro para a ciência e para a indústria farmacêutica. Um banco com o DNA de 15 milhões de pessoas permite cruzar genes com doenças, descobrir alvos para novos remédios e treinar modelos de saúde, algo que uma empresa como a Regeneron sabe transformar em produto.

Esse valor é justamente o que assusta. O mesmo dado pessoal que pode acelerar a cura de doenças pode, nas mãos erradas, ser usado para discriminar em seguros, empregos ou crédito. O caso da 23andMe escancarou que, ao entregar a saliva por curiosidade, milhões de pessoas entregaram também um dado que dura a vida inteira e não se troca como uma senha.

O que essa história ensina

A saga da 23andMe é um alerta sobre o que acontece com informações sensíveis quando a empresa que as guarda quebra. O teste de ancestralidade parecia uma brincadeira barata, mas revelou uma verdade incômoda: ao entregar o próprio DNA, o cliente perde o controle sobre para onde ele vai se a companhia mudar de dono. A tecnologia é fascinante, e o risco, permanente.

E você, faria ou já fez um teste de DNA por curiosidade, mesmo sabendo que esse dado pode um dia ser vendido junto com a empresa? Conta aqui nos comentários se confiaria seu código genético a uma dessas plataformas.

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Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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