Em Utrecht e outras cidades, a crise habitacional na Holanda obriga estudantes a acampar em estações, dividir estúdios caríssimos ou viajar mais de duas horas por dia, enquanto pagam até 800 euros por quartos minúsculos e enfrentam golpes, contratos abusivos e incerteza política, fruto da falta de moradias estudantis adequadas.
A Crise habitacional na Holanda chegou a um ponto em que estudantes de Utrecht e de outras cidades dormem em barracas montadas em estações de trem, pagam até 800 euros por quartos minúsculos ou viajam mais de duas horas por dia para assistir às aulas, enquanto a cidade promete apenas para 2026 novas moradias estudantis.
Entre promessas de construção de 1.500 vagas para estudantes até 2026 e um déficit estimado em 400 mil moradias em todo o país, universidades e sindicatos estudantis descrevem uma situação de emergência, na qual alguns jovens já abandonam cursos por não conseguirem um lugar minimamente digno para viver.
Barracas na estação central e maratonas diárias até a universidade
Na estação central de Utrecht, o que à primeira vista parece um acampamento estudantil descontraído esconde uma realidade dura.
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A companhia ferroviária nacional decidiu montar barracas para receber calouros no início do ano letivo, oferecendo um teto temporário para quem chegava sem ter onde dormir.
Assim que a semana de recepção terminou, as barracas foram desmontadas e a estação voltou ao normal, mas os problemas de moradia permaneceram exatamente os mesmos.
Sem o abrigo improvisado, muitos estudantes passaram a depender de longos deslocamentos diários. Há quem viaje mais de duas horas apenas para chegar à universidade, somando o mesmo tempo na volta para casa.
Isso significa jornadas que se estendem da madrugada à noite, apenas para conseguir assistir às aulas e voltar para um quarto distante, quando existe um quarto disponível.
Aluguel de 700 euros por 9 metros quadrados e aumento acima de 5%
Nascido em Utrecht, Bor Zeeland trabalha na União Nacional dos Estudantes e conhece em detalhes o mercado imobiliário local. Ele próprio sente o peso da Crise habitacional na Holanda no bolso: paga 700 euros por mês por apenas 9 metros quadrados em um apartamento compartilhado em Amsterdã.
Os aluguéis subiram mais de 5% em apenas um ano, empurrando milhares de estudantes para a beira do colapso financeiro.
Bor relata a sensação de injustiça ao ver proprietários lucrarem com a escassez de moradia. Segundo ele, é difícil aceitar que alguém ganhe tanto apenas por ser dono de um imóvel, especialmente no cenário atual.
Dessa indignação nasce sua motivação para atuar na defesa do direito à moradia, ajudando estudantes a conhecerem seus direitos e a reagirem a abusos.
Uma vez por semana, Bor atende na central criada para orientar estudantes holandeses e internacionais. A pergunta mais comum é simples e devastadora: como encontrar um quarto.
Além da escassez, muitos relatam a perda do depósito de caução, dúvidas sobre a legalidade dos contratos e um aumento preocupante de golpes em sites de busca de quartos, nos quais o imóvel simplesmente não existe.
Quartos a 800 euros e dependência de pais, empréstimos e empregos extras
Em um dos principais sites de moradia estudantil, o preço médio de um quarto em Utrecht gira em torno de 800 euros por mês.
Para a maioria dos estudantes, essa quantia só é possível com ajuda financeira dos pais, por meio de empréstimos estudantis ou com um emprego paralelo aos estudos.
Conciliar trabalho, deslocamentos longos e aluguel elevado coloca a saúde mental e o desempenho acadêmico de muitos jovens em risco.
Na Universidade de Utrecht, o ano letivo está apenas começando, mas a pressão já é visível. Estudantes relatam o medo de se comprometer com um mestrado sem ter onde morar.
Alguns colegas, segundo depoimentos, foram obrigados a abandonar as aulas porque não conseguiram encontrar nenhum lugar para viver que fosse minimamente acessível.
Universidade alerta estrangeiros e desaconselha vinda sem moradia garantida
Ramon Ellenbruk, funcionário da Universidade de Utrecht, trabalha diretamente no apoio à busca por moradia. Ele se orgulha da reputação internacional da instituição, que atrai talentos do mundo todo.
Hoje, porém, essa imagem é ofuscada pela Crise habitacional na Holanda, a ponto de a própria universidade desaconselhar que estrangeiros venham ao país sem um quarto garantido.
Segundo Ramon, mesmo os estudantes internacionais que já conseguiram vaga acadêmica em Utrecht são orientados a repensar a viagem se não tiverem moradia confirmada.
A recomendação é feita com pesar, mas considerada necessária para evitar que jovens cheguem ao país e acabem dormindo em sofás, em alojamentos improvisados ou até em barracas.
A universidade afirma querer ajudar, mas alega estar de mãos atadas. Pela legislação holandesa, instituições de ensino não podem fornecer moradia estudantil diretamente.
A responsabilidade pela construção de novas habitações é das empresas privadas e do governo local, o que cria um vácuo entre a demanda crescente de estudantes e a oferta insuficiente de quartos.
3.000 casas por ano, 1.500 vagas estudantis até 2026 e um governo desfeito
A cidade de Utrecht afirma que está reagindo à crise com a construção de cerca de 3.000 novas casas por ano.
Dentro desse esforço, há um plano específico para erguer 1.500 novas moradias estudantis até 2026. Mesmo assim, autoridades locais admitem que esse esforço não basta sem apoio nacional consistente e políticas coordenadas.
O desafio é agravado pelo cenário político. O governo holandês se desintegrou novamente, e novas eleições se aproximam com a crise habitacional dominando a agenda pública, assim como em outros países europeus.
Nos últimos anos, empresas de habitação pública construíram apenas metade das casas prometidas, o que ajuda a explicar o atual déficit estimado em 400 mil moradias.
Essa combinação de promessas descumpridas, governo instável e crescimento urbano pressiona ainda mais estudantes, famílias e trabalhadores de baixa renda.
A Crise habitacional na Holanda deixou de ser um problema localizado em grandes cidades e passou a ser um tema central do debate político nacional.
Sindicato lotado, estudantes desamparados e a esperança em um novo governo
No Sindicato dos Estudantes, o telefone não para de tocar. Bor Zeeland relata que não consegue ajudar todos os que procuram apoio.
Muitos estão em situação precária, não conhecem seus direitos básicos e não sabem como reagir diante de ameaças de despejo, golpes ou contratos confusos.
Ainda assim, há casos em que a orientação faz diferença: estudantes conseguem reaver o caução, renegociar condições abusivas ou identificar anúncios fraudulentos antes de transferir dinheiro.
Diante desse cenário, em que jovens precisam escolher entre estudar, trabalhar exaustivamente, se endividar ou abandonar o curso por falta de teto, uma pergunta permanece em aberto e divide opiniões na sociedade holandesa: na sua opinião, quem deveria ser o principal responsável por garantir moradia acessível aos estudantes na Holanda?


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